22 junho 2012

Capítulo final

Artigo que descreve mutação em vírus da gripe aviária que o torna transmissível entre mamíferos é publicado na ‘Science’ e encerra uma polêmica. Governos dos Estados Unidos e da Holanda pediam ‘censura’ ao trabalho por considerá-lo perigoso para a saúde pública mundial.

Micrografia eletrônica colorizada do vírus H5N1 (em amarelo) em meio a uma cultura de células de cães (em verde). (foto: Cynthia Goldsmith/ CDC)

A publicação de um artigo na edição desta sexta-feira (22/6) da Science representa o fim de uma novela que se arrastava há quase um ano no meio científico. O texto, enfim disponibilizado aos leitores da revista, descreve como um grupo de pesquisadores do Centro Médico Erasmus, da Holanda, criou uma mutação no vírus da gripe aviária (H5N1) de modo que o agente se tornasse transmissível entre mamíferos por via aérea.

A polêmica começou em dezembro, quando o NSABB solicitou à Science que não publicasse o material na íntegra, sob a alegação de que poria em risco a saúde pública mundial

O trabalho foi submetido em agosto de 2011. A polêmica começou em dezembro, quando o Painel Científico Consultivo para Biossegurança dos Estados Unidos (NSABB , na sigla em inglês) solicitou à Science que não publicasse o material na íntegra, sob a alegação de que a divulgação do estudo poria em risco a saúde pública mundial. Em mãos erradas, a técnica de mutação poderia ser usada para fabricação de armas biológicas.

O mesmo pedido foi feito à Nature, que havia recebido trabalho semelhante de um grupo da Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos. No estudo norte-americano, os pesquisadores haviam criado um vírus altamente transmissível entre mamíferos combinando genes do H1N1, responsável pela gripe suína, responsável pela pandemia de 2009, com o H5N1.

Ainda em dezembro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) seguiu a posição do NSABB e criticou duramente os trabalhos. O governo holandês também embargou a licença dos cientistas de seu país.

Furões e a gripe
O estudo polêmico utilizou furões para criar um mutante do vírus H5N1 capaz de ser transmitido entre mamíferos. A variante desenvolvida em laboratório, no entanto, reagiu bem aos medicamentos existentes e nenhum dos animais infectados morreu. (foto: USFWS Mountain Prairie/ Flickr – CC BY 2.0)

O vírus H5N1 é mais letal do que o da gripe comum e já foi transmitido de aves para humanos que tiveram contato direto com o excremento dos animais. Mas ainda não houve caso relatado de transmissão direta entre mamíferos por via aérea.

Em janeiro passado, pesquisadores de ambos os grupos decidiram paralisar por 60 dias os estudos, como forma de protesto. Para eles, a publicação parcial dos artigos – com omissão de detalhes, como sugerido pelo NSABB e pela OMS – significava censura. O virologista Ron Fouchier, do Centro Médico Erasmus, explicou que o objetivo dos trabalhos é, desde o início, entender melhor como o vírus da gripe aviária pode eventualmente se tornar transmissível entre mamíferos na própria natureza.

Em fevereiro, a OMS reviu sua decisão e decidiu pela publicação dos trabalhos na íntegra, com mais detalhes sobre objetivos, benefícios e riscos do projeto

Ao longo dos últimos meses, o NSABB chegou a propor que o material fosse disponibilizado apenas para indivíduos selecionados, o que foi criticado, porque essa seleção tomaria muito tempo e não impediria o vazamento das informações.

Em fevereiro, a OMS reviu sua decisão a respeito do caso e decidiu que os trabalhos deveriam ser publicados na íntegra, porém com explicações mais detalhadas sobre os objetivos do projeto, benefícios para a saúde pública, riscos envolvidos e informações sobre biossegurança.

O NSABB e o governo holandês acataram a orientação da OMS. O artigo dos pesquisadores da Universidade de Wisconsin-Madison foi publicado na Nature no dia 2 de maio. Pesquisadores de grupos não ligados ao trabalho o elogiaram por esclarecer mecanismos ainda não conhecidos sobre a transmissão do H5N1.
 

O trabalho

No artigo publicado na Science, os pesquisadores descrevem como alteraram o vírus H5N1 para que se tornasse transmissível entre furões. O animal foi escolhido por apresentar sintomas de gripe semelhantes aos de humanos.

“Revisamos dados publicados sobre mutações naturais que levaram às pandemias de gripe em 1918, 1957 e 1968”, explica Fouchier em nota enviada à imprensa. “Em cada um desses vírus encontramos mutações em genes da enzima polimerase e hemaglutinina [proteína que liga o vírus à célula hospedeira], que foram cruciais para a replicação em humanos e outros mamíferos.”

Capa Science H5N1
Capa da revista 'Science' com conteúdo especial sobre o vírus H5N1. (imagem: AAAS)

Os pesquisadores então fizeram as mesmas mutações em um vírus da gripe aviária e introduziram o agente infeccioso no focinho dos furões. Após ser transmitido 10 vezes por contato direto entre os furões, o vírus adquiriu capacidade de se transmitir pelo ar.

O lado bom é que o grupo descobriu também que o vírus H5N1 transmissível por via aérea é sensível ao medicamento antiviral oseltamivir, mais conhecido pela marca comercial Tamiflu, e reage bem com vacinas da gripe feitas a partir de cepas do vírus H5N1. “Nenhum dos furões morreu após a infecção por via aérea com o H5N1 mutante”, afirmam os pesquisadores no artigo.

Fouchier garante ainda que não há risco de o vírus mutante ter escapado do laboratório. “A pesquisa é realizada em uma instalação especial que proporciona a máxima segurança para seres humanos e para o meio ambiente.”
 

Amplo destaque

A edição desta semana da Science traz uma seção especial sobre o vírus H5N1, que também é destaque na capa da publicação. Além de dois trabalhos do grupo do Centro Médico Erasmus – um que descreve a técnica de mutação do vírus e outro que discute a potencialidade de uma pandemia natural de gripe aviária –, a revista publica artigos que tratam de discussões sobre a regulação no meio científico.

Anthony Fauci: “A pesquisa deve ser conduzida e publicada somente se os potenciais benefícios para a sociedade sejam maiores que os riscos para a segurança nacional”

Em um deles, o diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, Anthony Fauci, afirma que “a necessidade de investigação básica e clínica sobre a gripe é inquestionável”. Mas ele ressalta que é preciso que a sociedade civil esteja envolvida na discussão sobre pesquisas que tenham utilização dúbia, ou seja, que possam ser utilizadas para o ‘mal’.

“A pesquisa deve ser conduzida e publicada somente se os potenciais benefícios para a sociedade sejam maiores que os riscos para a segurança nacional”, argumenta Fauci no artigo.

Em comunicado à imprensa, o editor-chefe da Science, Bruce Alberts, agradece ao NSABB por reconsiderar a decisão e afirma que a controvérsia teve um efeito positivo: a sensibilização da opinião pública para o risco representado pelo H5N1. “Agora, pesquisadores de todo o mundo terão oportunidade de aprender a partir desses dados e avançar no conhecimento sobre o vírus.”
 

Célio Yano
Ciência Hoje On-line/ PR

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