05 dezembro 2014

Pós-graduação ao rés-do-chão

O mestrado profissional em história, que começa a ganhar espaço no Brasil, não deve ser visto como primo pobre da pós-graduação acadêmica. De volta à CH On-line, a historiadora Keila Grinberg defende que ele poderá ser um novo polo de inovação da produção em história no país.

‘Desembarque de Cabral em Porto Seguro’, na visão do pintor Oscar P. da Silva. Nos últimos anos, foram criados no país seis cursos de pós-graduação voltados para a produção de conhecimento e formação de profissionais em ensino de história.

Queria celebrar meu retorno a este espaço, depois de uma licença bem mais longa do que gostaria, com uma boa-nova, que, apesar de boa, já não é mais tão nova assim: o início, em agosto passado, das atividades do ProfHistoria – o mestrado profissional em ensino de história, ministrado em rede nacional e liderado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Mesmo requentada, a comemoração vale a pena. Há dois anos e meio, em uma coluna que deu o que falar, escrevi que, dos 63 cursos de mestrado e doutorado então existentes no Brasil na área de história, havia apenas dois mestrados profissionais, nenhum dos quais dedicado à reflexão sobre o ensino da disciplina.

Hoje a situação é outra – e surpreendente. Existem 69 cursos de mestrado e doutorado, dos quais nove, já incluindo o ProfHistoria, são mestrados profissionais (mais detalhes aqui).

Há dois anos e meio, dos 63 cursos de mestrado e doutorado então existentes no Brasil na área de história, havia apenas dois mestrados profissionais, nenhum dos quais dedicado à reflexão sobre o ensino da disciplina. Hoje a situação é outra

Em uma área na qual não havia mais que algumas linhas de pesquisa em programas de pós-graduação acadêmicos, apenas dois anos depois já haviam sido criados seis cursos voltados especificamente para a produção de conhecimento e formação de profissionais em ensino de história.

Além do ProfHistoria, que congrega 12 universidades no Rio de Janeiro, Tocantins, Rio Grande do Sul e Santa Catarina (outras serão agregadas em breve), hoje as universidades federais de Goiás, do Rio Grande e do Recôncavo da Bahia (UFRB), a Universidade de Caxias do Sul e a Universidade Estadual do Maranhão oferecem cursos específicos para profissionais que querem se especializar na área de ensino de história.

Dos demais cursos criados, um é sobre história ibérica e dois se voltam para os estudos no campo do patrimônio. Se incluirmos o do Iphan, alocado na área interdisciplinar da Capes, são três.

A UFRB, aliás, tem uma proposta de curso bastante original: tendo como área de concentração História da África, da diáspora e dos povos indígenas, pretende formar profissionais especificamente aptos a aplicar a lei 11.546, de 2008, que torna obrigatório o ensino de história da África, da cultura afro-brasileira e da história indígena nas escolas da educação básica. Nada mais adequado para um dos estados com maior proporção de população negra no Brasil. 

Como as crônicas, para Antonio Candido

O que mudou nesse intervalo de tempo? A área de história? O modelo de pós-graduação no país? Os dois. No Brasil, o crescimento dos mestrados profissionais foi tamanho, que a Capes resolveu criar, em 2013, a função de coordenador adjunto de mestrado profissional em todas as áreas de conhecimento. A da nossa área é exercida atualmente pelo professor Marcelo Magalhães, meu colega na Unirio.

No campo da história, os historiadores finalmente vêm despertando para a realidade criada, em parte, pelo próprio crescimento dos cursos de graduação e dos programas de pós-graduação nas duas últimas décadas. Nada contra os estudos estritamente acadêmicos. Nada contra a teoria, as análises historiográficas. Muito pelo contrário.

Sala de aula
Diante da expansão dos cursos de graduação e pós em história no país, historiadores defendem criação de espaços de reflexão e produção de conhecimento específico para a prática profissional dos que estão em sala de aula, museus e centros culturais. (foto: Samory Pereira Santos/ Flickr – CC BY-SA 2.0)

Mas era impossível continuar lançando graduados, mestres e doutores no mercado de trabalho sem criar espaços de reflexão e produção de conhecimentos específicos para as práticas profissionais daqueles que estão na sala de aula, nos museus, nos centros culturais.

Ainda é cedo para avaliar o impacto dos mestrados profissionais na historiografia brasileira. Mas, a julgar pela experiência de cursos consolidados, como o da Fundação Getúlio Vargas, e pelas propostas de trabalho de conclusão de curso recebidas no ProfHistoria, vale arriscar que, longe de serem o primo pobre da pós-graduação acadêmica, os mestrados profissionais poderão se constituir nos novos polos de inovação da produção em história no Brasil.

Que os mestrados profissionais sejam como as crônicas para o professor e crítico Antonio Candido: boas porque mais perto de nós; porque “sua perspectiva não é a dos que escrevem do alto da montanha, mas do simples rés-do-chão”

Se os mestrados profissionais forem gênero menor, que sejam como as crônicas para o professor e crítico Antonio Candido: boas porque mais perto de nós; porque “sua perspectiva não é a dos que escrevem do alto da montanha, mas do simples rés-do-chão”.

“A crônica”, prossegue Antonio Candido, “está sempre ajudando a estabelecer ou restabelecer a dimensão das coisas e das pessoas. Em lugar de oferecer um cenário excelso, numa revoada de adjetivos e períodos candentes, pega o miúdo e mostra nele uma grandeza, uma beleza ou uma singularidade insuspeitadas.”

Em tempo: no dia 11 de dezembro, para comemorar 10 anos de dedicação à reflexão sobre ensino de história, o grupo de pesquisa Oficinas da História irá realizar, na Unirio, o seminário ‘Ensino de história: usos do passado, memória e mídia’. Para quem mora longe, ele será transmitido ao vivo pelo Hangout do Google. O link estará disponível na página oficial do ProfHistoria no Facebook às 9:45h.
 
Keila Grinberg
Departamento de História
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro

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