19 março 2014

Bom demais para ser verdade?

Técnica ‘revolucionária’ na produção de células-tronco reprogramadas enfrenta polêmica, descrédito crescente e pode ser anulada.

O que parecia ser uma revolução na área de pesquisas com células-tronco pode se revelar uma nova fraude nesse campo. Mesmo antes do resultado das investigações, autores já pensam em anular sua publicação. (imagem: Marcelo Garcia; original: Haruko Obokata)

Periodicamente, a ciência é sacudida por alguma ideia simples ou procedimento revolucionário, muitas vezes descoberto quase por acaso, e que muda por completo o panorama de alguma área. Em janeiro deste ano, parecia que a pesquisa com células-tronco seria a bola da vez, com a criação de uma nova técnica rápida, barata e eficiente para a produção dessas células progenitoras a partir de células adultas.

Pouco mais de um mês depois, no entanto, o cenário mudou: fracassos na reprodução dos resultados e acusações de plágio lançam dúvida sobre o estudo, que pode ser retratado (anulado) em breve. O episódio – e o debate que gerou entre pesquisadores via internet – parece evidenciar a necessidade e a oportunidade de rever os processos de publicação de artigos científicos.

Rehen: “Justamente por ser pouco complexo, não deveria ser difícil reproduzir esse processo”

No fim de janeiro, um grupo de pesquisadores liderados pela bióloga Haruko Obokata, do Centro Riken de Biologia do Desenvolvimento, no Japão, publicou na revista Nature uma nova técnica para obtenção de células-tronco pluripotentes (capazes de se transformar em quase qualquer outra célula do organismo) a partir de células adultas. Em vez de complicadas manipulações genéticas, a metodologia de ‘aquisição de pluripotência desencadeada por estímulos’ (Stap, do inglês), desenvolvida em camundongos, se baseava na exposição das células adultas a situações ‘estressantes’, como sua imersão em soluções com pH baixo.

Dada a simplicidade da técnica, logo pesquisadores de todo o mundo começaram a tentar reproduzir os procedimentos de obtenção das chamadas células Stap – e aí começaram os problemas. “Justamente por ser pouco complexo, não deveria ser difícil reproduzir esse processo”, avalia o biólogo especializado em células-tronco e colunista da CH On-line Stevens Rehen, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Mas o que vimos foi apenas insucesso, inclusive no nosso laboratório aqui no Brasil.”

A questão era preocupante, mas talvez pudesse ser explicada por algum detalhe errado no processo descrito nos artigos. “O problema dos resultados poderia ser resolvido por um simples ajuste na metodologia”, cogita Rehen. “Mas a questão se complicou quando começaram a surgir outras acusações envolvendo plágio e alterações nas imagens publicadas, questões ‘menores’, mas que dilapidaram a credibilidade do estudo.”

A Nature e o centro Riken abriram investigações sobre o caso. Em coletiva de imprensa na última sexta-feira (14/03), o centro japonês divulgou resultados parciais: apesar da confirmação de problemas nos artigos, ainda não há como afirmar se houve conduta antiética ou até se a técnica funciona.

Microscópio quebrado
Ainda não é possível ter certeza se os resultados do estudo estão errados, mas o fracasso internacional na sua reprodução e acusações de plágio e manipulação de imagens pesam cada vez mais contra a combalida credibilidade da pesquisa publicada em janeiro. (foto: Flickr/ Twm™ – CC BY-NC-ND 2.0)

O presidente do Riken, Ryoji Noyori, prêmio Nobel de química em 2001, no entanto, desculpou-se com a comunidade científica pela confusão e garantiu que os pesquisadores serão punidos, se forem culpados. “O problema aqui é que temos uma pesquisadora imatura, que coletou enorme quantidade de dados e lidou com eles de maneira muito desleixada e irresponsável”, afirmou.

Noyori: “O problema aqui é que temos uma pesquisadora imatura, que coletou enorme quantidade de dados e lidou com eles de maneira muito desleixada e irresponsável”

De acordo com os investigadores, Obokata teria admitido a manipulação das imagens para que parecessem mais atrativas e dito não saber que o ato era inapropriado. Ela e outros coautores já reconheceram falhas no trabalho e disseram estudar a possibilidade de retratar a publicação. Um dos coautores do estudo, no entanto, o norte-americano Charles Vacanti, da Faculdade de Medicina de Harvard, defende os resultados: apesar de reconhecer alguns problemas nos artigos, o pesquisador argumenta que eles não afetariam seus dados e conclusões.

“No caso dos resultados não serem mesmo verdadeiros, é difícil entender o que passou pela cabeça dos autores, pois o procedimento era tão simples que seria facilmente invalidado depois da publicação”, avalia Rehen. O brasileiro fala do final ideal que gostaria de ver para essa história: “Obokata poderia ter preservado parte do procedimento para uma futura publicação com células humanas, mais impactante”, cogita. “Mas se, com toda essa pressão que vêm sofrendo, os autores não revelaram nada ainda, fica cada vez mais difícil acreditar nesse final feliz.”

Toda essa polêmica vem à tona num momento delicado para o Riken: o centro vai dar início a uma pesquisa clínica para tratamento de pacientes com degeneração macular utilizando células-tronco de pluripotência induzida (iPS), geradas pelo método mais usual hoje em dia de obtenção de células-tronco reprogramadas. Uma técnica central do estudo foi desenvolvida por Yoshiki Sasai, um dos coautores dos artigos sobre as células Stap.

Mudanças na publicação da ciência

O episódio lembra bastante outro escândalo na área das pesquisas com células-tronco: a famosa fraude do sul-coreano Hwang Woo-Suk, que anunciou, em 2004, a criação de células-tronco a partir de um embrião humano clonado – trabalho publicado na revista Science que acabou se revelando um embuste. Somente no ano passado a tão aguardada metodologia de clonagem de embriões humanos se tornou uma realidade.

A própria metodologia de Obokata, de tão simples, chegou a ser rejeitada anteriormente por diversas revistas, inclusive a Nature, que negou sua publicação em 2012. “Especialmente por se tratar de uma revista como a Nature, que deveria ter um processo de avaliação dos artigos muito rigoroso, o episódio é uma surpresa bem desagradável”, avalia Rehen. “A questão é que essas revistas vivem de novidade, então por vezes arriscam, na tentativa de publicar grandes descobertas. Não é a primeira vez que isso ocorre e o campo das células-tronco não é o único a sofrer com isso, está apenas em grande evidência, pela expectativa da população e da comunidade científica.”

Talvez o mais interessante no episódio, no entanto, seja a resposta da comunidade científica na internet. No caso de Hwang, os cientistas também não conseguiram reproduzir a sua pretensa técnica, mas, como não havia ainda conexões muito articuladas na rede, demorou muitos meses até a fraude ser confirmada.

Desta vez, a discussão está sendo bem mais rápida e virtual, via redes sociais. O biólogo norte-americano Paul Knoepfler, da Universidade da Califórnia (EUA), por exemplo, pediu em seu blogue que todos os cientistas postassem lá seus resultados com o procedimento, uma espécie de iniciativa de crowdsourcing para verificar se alguém conseguia reproduzi-lo.

Pesquisas com células-tronco
A articulação dos pesquisadores via internet evidenciou rapidamente os problemas da pesquisa: por meio de um blogue, por exemplo, eles puderam postar seus resultados preliminares, que apontavam a impossibilidade de reproduzir o procedimento descrito. (montagem: Marcelo Garcia)

“Esse caso promoveu uma grande ‘reunião de laboratório’ mundial, com vários dos melhores pesquisadores da área reunidos na internet para discutir o problema”, diz Rehen. “Mais do que a decepção pela possível anulação dos resultados, há uma sensação de que o episódio pode ajudar a mudar a forma como se publica e dissemina ciência e a tornar esses processos mais ágeis e transparentes.”

Rehen: Talvez o ideal fosse transformar o processo sigiloso de avaliação dos artigos em algo mais aberto, sem prejuízo ao crédito original

Um dos pedidos de muitos membros da comunidade científica, segundo Rehen, é que a Nature abra os pareceres dos revisores dos artigos de Obokata para o público. “Talvez o ideal fosse transformar esse processo sigiloso em algo mais aberto: o pesquisador faria uma pré-submissão do trabalho para que fosse testado e criticado pelos demais, sem prejuízo ao crédito original”, pondera. “Mas infelizmente essa é uma ideia polêmica e difícil de implementar, o que é quase um contrassenso no mundo tecnológico em que vivemos.”

Seja como for, a novela sobre a técnica revolucionária ainda promete novos capítulos nas próximas semanas. Prepare-se para os eventos emocionantes que podem levar nossos ‘personagens’ a um fim precoce de suas carreiras ou, quem sabe, ao tão sonhado (e nesse momento bem mais distante) prêmio Nobel.

Marcelo Garcia
Ciência Hoje On-line

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