04 julho 2014

Leitura compartilhada

O velho conselho de professores e psicólogos para que pais leiam livros junto com os filhos é agora endossado por pediatras. Os benefícios incluem fortalecimento de vínculos afetivos e estímulo cerebral das crianças.

Ao oferecer às crianças estímulos de diferentes tipos, principalmente cognitivos e afetivos, a leitura compartilhada na infância e na pré-escola confere a elas ‘vantagens iniciais’. (foto: Ned Horton/ Freeimages)

Ler para e com as crianças é um velho e bom conselho dado aos pais por psicólogos e professores, mas que começa, agora, também a ser oferecido por médicos pediatras. A iniciativa é da Academia Americana de Pediatria (APP), que acaba de lançar uma recomendação aos pediatras norte-americanos para que incluam a leitura de pais para filhos entre as suas prescrições.

A iniciativa também tem o respaldo de pesquisas em neurociências que demonstram que a leitura compartilhada estimula o cérebro em uma fase vital de seu desenvolvimento

Publicada no periódico da entidade, Pediatrics, a recomendação da APP é apresentada como uma declaração política e de necessidade, e está baseada em dados de variadas e já reconhecidas pesquisas, nas quais se discute amplamente a importância da prática conjunta da leitura para a criação de vínculos afetivos e o fortalecimento do relacionamento entre adultos e crianças. 

Além disso, a iniciativa também tem o respaldo de pesquisas em neurociências, mais recentes, que demonstram que a leitura compartilhada estimula o cérebro em uma fase vital de seu desenvolvimento, justamente quando se estabelecem as bases neurais relacionadas às capacidades emocionais, sociais e linguísticas.

Como afirmam os representantes do Conselho de Primeira Infância da APP, que produziram e assinam o documento de recomendação aos pediatras, ler em voz alta, para e com as crianças, é uma das maneiras mais eficazes de expô-las desde cedo à linguagem enriquecida e encorajar o desenvolvimento do letramento, da capacidade de compreender e usar de forma plena a informação escrita.

Vantagens iniciais

Ao oferecer às crianças estímulos de diferentes tipos, principalmente cognitivos e afetivos, a leitura compartilhada na infância e na pré-escola confere a elas ‘vantagens iniciais’. Seu exercício frequente favorece a aquisição e o melhor domínio de habilidades de linguagem e contribui para a melhor socialização da criança no ambiente escolar. Além disso, confere também benefícios para a vida futura. 

Há pesquisas que relacionam o grau de domínio das habilidades linguísticas e de alfabetização e o domínio pleno da linguagem escrita às condições de saúde da população

Segundo dados de pesquisas relatados no documento anteriormente citado, ler para e com as crianças está diretamente relacionado a um maior interesse pela leitura, ao uso de vocabulário mais rico e variado e a uma mais complexa e bem estruturada expressão linguística na vida adulta. Sem dúvida, sintetizam os pesquisadores, a leitura compartilhada é uma atividade eficaz para se desenvolver importantes habilidades relacionadas às emoções, à sociabilidade e ao processamento cerebral de informações. 

Esses dados, por si, já justificariam a iniciativa da APP e o engajamento dos médicos pediatras na cruzada pró alfabetização americana, mas o fato é que a história não se encerra aí. Há ainda outro conjunto de dados de pesquisas, também importantes, que relaciona o grau de domínio das habilidades linguísticas e, principalmente, de alfabetização e o domínio pleno da linguagem escrita às condições de saúde da população.

Dados surpreendentes

Esses dados foram coligidos pelo Painel Nacional de Alfabetização Precoce, promovido em 2002 pelos departamentos de Educação e de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos para discutir e sintetizar os resultados de pesquisas sobre o desenvolvimento de habilidades de alfabetização precoce em crianças de zero a cinco anos. E são surpreendentes. 

Eles revelam, por exemplo, que o grau de domínio e compreensão de informações em saúde básica não é suficiente para que uma parcela significativa de norte-americanos adultos (cerca de 90 milhões de pessoas) assimile informações básicas e necessárias para a prevenção e cuidados com a saúde pessoal.

Pais e filha
Os impactos do incentivo à leitura desde a infância não se restringem apenas a aspectos educacionais e culturais, mas atingem em cheio a área da saúde. (foto: Ned Horton/ Freeimages)

Em outras palavras, em razão do pouco domínio de competências linguísticas essenciais, sobretudo em relação ao domínio da leitura e interpretação de textos, uma enorme parcela da população adulta norte-americana não faz uso adequado de informações e serviços de prevenção e tratamento de doenças ou, ainda, não é capaz de seguir corretamente prescrições farmacêuticas e médicas escritas. 

Em termos individuais e práticos, isso significa, por exemplo, não saber controlar adequadamente doenças crônicas ou, ainda, agravar sua própria situação de saúde por não saber ler e interpretar as recomendações médicas prescritas ou fazê-lo de forma precária. Do ponto de vista populacional, o resultado é um maior número de hospitalizações e de mortes entre a população com baixo letramento em saúde. 

Ao conviverem com pais e familiares que não dominam a linguagem escrita, as crianças tornam-se vítimas da baixa alfabetização dos pais, tornando-se comuns os casos de uso incorreto de prescrições médicas e farmacêuticas

Piorando esse quadro, os dados das pesquisas citadas no documento da APP também revelam que, ao conviverem com pais e familiares que não dominam ou não compreendem adequadamente a linguagem escrita, as crianças tornam-se vítimas frequentemente da baixa alfabetização dos pais, tornando-se muito comuns os casos de não uso ou do uso incorreto de prescrições médicas e farmacêuticas, com omissão e erros, por exemplo, na administração e dosagem de medicamentos ou com falhas na adesão e no cumprimento de dietas especiais e necessárias.

Como se pode perceber, os impactos do incentivo à leitura desde a infância não se restringem apenas a aspectos educacionais e culturais, mas atingem em cheio a área da saúde. Não é à toa, portanto, que a preocupação com o incentivo à leitura compartilhada esteja chegando até os consultórios dos pediatras, com a proposta de ações que envolvem o aconselhamento e a assessoria aos pais; a distribuição de materiais de divulgação que a incentivem e compartilhem modos de como fazê-la; a distribuição de livros apropriados à leitura compartilhada e mesmo a leitura, a ser feita pelos profissionais de saúde e médicos nos consultórios, como exemplo para os pais.

Parafraseando o escritor Luis Fernando Verissimo, ler está sendo mesmo indicado como o melhor remédio: leia jornal, leia outdoor, leia letreiros de estação de trem, leia os preços do supermercado... Mas a indicação vai além: faça-o também para e com as crianças.

Vera Rita da Costa
Ciência Hoje/ SP 

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