14 janeiro 2011

Tempus fugit

A humanidade tem conseguido aumentar muito a sua expectativa de vida. Mas qual o preço do envelhecimento progressivo da população? Sergio Pena reflete sobre o tema em sua despedida da coluna ‘Deriva genética’, que chega ao número 60 após cinco anos de relevantes contribuições.

O tempo voa! ('Tempus fugit'!). (foto: Nick Sarebi / CC BY 2.0)

A esfinge, um monstro mitológico alado, com a cabeça de uma mulher e o corpo de um leão, assolava a cidade de Tebas na Grécia. Emboscava jovens em um lugar ermo e os desafiava (decifra-me ou devoro-te!) com o enigma: “Que criatura pela manhã tem quatro pés, ao meio-dia tem dois e à tarde tem três?” 

O único que decifrou a charada foi Édipo, ao responder: “O homem, que na infância engatinha usando quatro membros, na vida adulta anda sobre dois pés, mas na velhice precisa de um cajado como apoio”. Por ter resolvido o enigma, Édipo acabou tornando-se rei de Tebas, casando-se, sem saber, com sua mãe, Jocasta, e sofrendo um fim infeliz, como bem descrito por Sófocles em sua tragédia Édipo Rei.

A resposta de Édipo bem descreve o arco de vida dos seres humanos, que se inicia na infância e termina na decadência da velhice e na morte. Tal trajetória é a inevitável consequência da impossibilidade de manter, indefinidamente, o estado de baixa entropia que caracteriza o organismo vivente. 

Tudo no universo está sujeito à segunda lei da termodinâmica, que determina o fluxo do tempo e traz a velhice, como magistralmente ilustrado por Gustav Holst (1874-1934) no seu poema musical Saturno (Saturno era o equivalente romano do deus grego Cronos). Como dizia o poeta romano Virgílio: tempus fugit (“o tempo voa”).

Veja o vídeo “Saturno, aquele que traz avelhice”, da suíte musical Os planetas, do inglês Gustav Holst (1874-1934) 

O que sempre me impressionou na estória do Édipo é o fato de tantos outros jovens antes dele terem morrido por serem incapazes de responder a uma pergunta tão elementar. Talvez eles não lembrassem mais da infância e não percebessem que um dia iriam envelhecer. De fato, a humanidade há séculos vive tentando negar a inexorabilidade da morte, fantasiando sobre como escapar dela.

Daí vem a busca incessante pela mítica ‘fonte da juventude’, cujas águas seriam capazes de rejuvenescer aqueles que as bebessem. Tal fonte certamente não existe, mas, independente disso, a humanidade tem conseguido aumentar consideravelmente a sua expectativa de vida, através de melhor nutrição, saneamento básico, antibióticos e outros progressos da medicina.

O preço de envelhecer

No início do século 20, a expectativa de vida humana ficava na faixa de 30-40 anos. Hoje, a média mundial é viver 65 anos. A esperança de vida no Brasil é de 70-72 anos e, no Canadá e no Japão, já supera 80 anos. Segundo Thomas Kirkwood, do Instituto de Envelhecimento e Saúde da Universidade de Newcastle, na Inglaterra, a esperança de vida humana aumenta cinco horas por dia. 

Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, a principal causa do aumento da esperança de vida é a diminuição da mortalidade no primeiro ano de vida. Transpondo essa barreira, mais pessoas são candidatas a viver mais tempo, aumentando progressivamente o contingente de idosos.  

A pergunta-chave é: qual o preço desse envelhecimento progressivo da população?

A pergunta-chave é: qual o preço desse envelhecimento progressivo da população? Estamos envelhecendo como pessoas saudáveis ou simplesmente sobrevivendo à custa do sofrimento das doenças da velhice? Infelizmente, parece que a segunda resposta ainda é predominante. Em grande parte, não estamos envelhecendo sadios: a maioria dos idosos sofre de incapacidades físicas e/ou mentais em graus variados, o que reduz a qualidade de vida. 

Um dos principais problemas da velhice é o câncer, um conjunto de doenças que acomete mais de sete milhões de pessoas em todo o mundo. As mutações genéticas que desencadeiam a transformação maligna das células vão se acumulando ao longo dos anos. Assim, o câncer está intrinsecamente ligado com o envelhecimento. 

Também, como já discutimos em coluna anterior, estamos vivenciando uma verdadeira epidemia da doença de Alzheimer, alavancada pelo envelhecimento da população. Além do custo emocional, estima-se que apenas nos Estados Unidos o gasto total com a doença seja de 172 bilhões de dólares por ano. Com o aumento contínuo da esperança de vida, a projeção é de uma despesa anual superior a um trilhão de dólares em 2050 com apenas essa doença. 

Muita pesquisa ainda terá de ser feita e é essencial que o governo entenda isso e dê o necessário apoio financeiro

Felizmente, há uma esperança contra o câncer, o Alzheimer e outros males: avanços científicos que permitam a prevenção e detecção precoce das doenças. No momento, a medicina genômica preditiva parece ser a melhor aposta. 

Mas muita pesquisa ainda terá de ser feita e é essencial que o governo entenda isso e dê o necessário apoio financeiro. A pesquisa biomédica é dispendiosa, mas como dizia a filantropa Mary Lasker (1900-1994): “se você acha que pesquisa é cara, tente as doenças!” (no original: If you think research is expensive, try disease!).

Pessoas centenárias

Uma categoria de pessoas que parece ser abençoada pela genética é a dos centenários sadios. Na Universidade de Boston, há uma equipe de pesquisadores dedicada ao estudo da biologia desses longevos, que não só vivem muito tempo, mas conseguem manter surpreendente bem estar físico e mental. 

Eles são raros. No Brasil, segundo dados muito recentes do IBGE, há 23.760 pessoas com mais de 100 anos em uma população de 190,7 milhões, ou seja, 1,2 centenários para cada 10 mil pessoas, um número similar ao dos Estados Unidos.

Idosa
Retrato de uma idosa (foto: Michael Ströck/ CC BY-SA 3.0)

O grupo da Universidade de Boston se propôs a identificar os fatores genômicos que contribuem para a longevidade excepcional. Resultados do estudo – envolvendo 1055 indivíduos centenários e 1267 controles e o uso de marcadores de DNA espalhados em todo o genoma – foram apresentados em artigo publicado em julho na revista Science

Entre as centenas de milhares de marcadores pesquisados, os autores encontraram 150 polimorfismos de base única (SNPs) que, conjuntamente, compunham uma forte “assinatura” de predisposição à longevidade excepcional. Infelizmente, foram levantados alguns questionamentos metodológicos a respeito desse fascinante artigo. 

Atualmente os autores estão revisando os dados. Espera-se que, em breve, a situação seja resolvida.

Colunas e colunistas também envelhecem

A primeira coluna ‘Deriva genética’ foi publicada em fevereiro de 2006. Isso significa que estamos comemorando cinco anos de atividade. Esta é a coluna de número 60, o mesmo número de segundos em um minuto e de minutos em uma hora! 

O arco de vida humano parece se aplicar também às colunas e aos colunistas... Com o passar dos anos, o esforço dedicado ao preparo dos textos tem me tomado muito tempo e competido com novos projetos e desafios que assumi. 

Ultimamente, tenho tido menos inspiração e é necessário mais empenho para escrever a ‘Deriva genética’ todo mês. Decidi que é hora de parar. Tempus fugit. É preciso usá-lo de forma que melhor nos encante e estimule. 

Feliz 2011 para todos!

 

Sergio Danilo Pena
Departamento de Bioquímica e Imunologia
Universidade Federal de Minas Gerais

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