25 abril 2003

Muito barulho por quase nada

Cérebro criado com ruído ambiente espera para amadurecer mais tarde

Representação gráfica do 'ruído branco', ao qual ratinhos foram expostos nas primeiras semanas de vida

Bebês, criaturinhas sortudas, costumam ser protegidos de muito barulho. Recentemente, no entanto, algumas dezenas de bebês-ratos foram criados semanas a fio com ruído constante -- e de propósito. Maldade de pesquisadores? Não exatamente. Edward Chang e Michael Merzenich, da Universidade da Califórnia (EUA), queriam estudar a importância da estimulação auditiva para o amadurecimento das regiões do cérebro que cuidam do processamento dos sons.

Já é sabido há algumas décadas que o cérebro se organiza conforme a estimulação sensorial que recebe: aprende a enxergar combinando os sinais dos dois olhos, desenvolve a capacidade de discriminar toques e até aprende a ouvir. Mesmo: à medida que escutam os sons da língua materna, as regiões auditivas do cérebro de bebês humanos aguçam sua habilidade de discriminar esses sons entre si, ao mesmo tempo que perdem o dom de distinguir entre sons de outras línguas. 


Até que ponto, no entanto, a audição normal é importante para o desenvolvimento das regiões auditivas do córtex cerebral? Dadas as dificuldades de criar animais de laboratório em silêncio absoluto, Chang e Merzenich resolveram tentar outra alternativa na pesquisa cujos resultados foram publicados em 18 de abril na revista Science : eles criaram ratinhos em ruído constante, ’desestruturado’, como o chiado do rádio fora de sintonia.

A lógica é que, ao que parece, o importante da estimulação sensorial para o cérebro não é sua intensidade, e sim seu padrão -- sua estruturação em sons modulados, imagens que se movem coerentemente, cheiros que aparecem e desaparecem. Ao contrário, o ’ruído branco’, nome técnico do chiado do rádio, é totalmente não informativo -- e, em volume suficiente, ainda tem a vantagem de abafar qualquer ruído incidental no quarto que hospeda os ratinhos.

Ratos começam a ouvir aos 12 dias de vida, e cinco dias antes disso os bichinhos de Chang e Merzenich já estavam imersos em ruído branco constante, tão alto quanto uma televisão ou ar-condicionado razoavelmente barulhento. Um mês e meio mais tarde, os pesquisadores mapearam o córtex auditivo dos animaizinhos e compararam sua organização com a do córtex de ratos da mesma idade criados com sons ambientes ’normais’ (para um laboratório, claro).

Era como se o cérebro dos animais criados com ruído branco não tivesse amadurecido nada. Seus neurônios não adquiriram a preferência habitual por sons graves ou agudos, e o córtex auditivo permanecia tão extenso quanto em animais que mal começaram a ouvir -- e quase três vezes maior que o de animais da mesma idade criados em ambiente sonoro normal.

O ’congelamento’, no entanto, era prontamente reversível. Assim que o ruído foi desligado e os jovens, já com dois meses, voltaram a ouvir sons ’naturais’, o processo normal de amadurecimento do córtex auditivo foi retomado; aos quatro meses, ele era funcionalmente semelhante ao de animais criados com a riqueza de sons a que têm direito.

O ruído branco constante, portanto, retarda o amadurecimento do córtex auditivo e o mantém em seu estado mais ’infantil’, não especializado. Retardar o amadurecimento sempre parece algo indesejável, claro. Mas este é o melhor dos retardos: um atraso sem grandes conseqüências, recuperado tão logo o cérebro passe a ouvir sons estruturados e coerentes que, ao contrário do ruído branco, tragam alguma informação relevante.

Na verdade, a exposição exclusiva ao ruído branco acaba protegendo o córtex auditivo, que continua apto a se reorganizar de acordo com a estimulação sonora assim que ela se torne mais interessante que um simples chiado monótono. Sem o longo período de ruído branco, o córtex auditivo de ratinhos de um mês já teria amadurecido e, portanto, perdido a capacidade de se organizar de acordo com os sons que ouve. Graças ao ruído, a reorganização instruída pelos novos sons ainda pode acontecer em animais mais velhos.

Para o cérebro, o ruído branco pelo jeito é tão desestruturado que funciona como se simplesmente não houvesse som. Criar ratinhos num chiado constante, portanto, é de fato a alternativa mais próxima do silêncio absoluto. E ainda explica, por sinal, como gatos e humanos surdos de nascença podem ’milagrosamente’ aprender a ouvir mais tarde -- e olha que até depois de adultos. Basta um implante eletrônico na cóclea (lá dentro do ouvido), muita paciência e um córtex auditivo ainda ’inocente’, congelado na primeira infância, ainda esperando que sons interessantes cheguem dos ouvidos pela primeira vez. E quem disse que ciência não faz milagre?

Fonte: Chang EF, Merzenich MM (2003). Environmental noise retards
auditory cortical development. Science 300, 498-502.

Suzana Herculano-Houzel
O Cérebro Nosso de Cada Dia

 
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