05 julho 2012

O universo em três décadas

Em palestra comemorativa do aniversário do Instituto Ciência Hoje, físico apresenta um resumo da evolução da astronomia nos últimos 30 anos.

O físico Martín Makler mostra um objeto de acrílico capaz de simular uma lente gravitacional, fenômeno caracterizado por distorções no espaço-tempo que permitem a identificação de novos planetas. (foto: Mariana Rocha)

Quase dois séculos antes da nossa era, o astrônomo grego Hiparco catalogou a posição de 850 estrelas no céu. Hoje, a capacidade de armazenar informações digitalmente permite que os cientistas registrem imagens de quase 500 milhões de galáxias. Em palestra comemorativa dos 30 anos do Instituto Ciência Hoje realizada ontem (4/7) na Casa da Ciência (RJ), o físico Martín Makler, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), contou como a tecnologia digital foi importante para as grandes descobertas que marcaram a astronomia nas últimas três décadas.

De início, Makler destacou a mudança na organização de nosso sistema planetário: “Em 2006, Plutão foi rebaixado para planeta anão e o Sistema Solar passou a ser formado por apenas oito planetas, que estão acompanhados de um punhado de outros planetas anões”.

Há 30 anos, apenas os ‘cientistas malucos’ sugeriam a existência de planetas ao redor de estrelas que não o Sol. Hoje, mais de 700 exoplanetas já foram encontrados

Ele lembrou ainda que, há 30 anos, apenas os ‘cientistas malucos’ sugeriam a existência de planetas que orbitassem estrelas que não o Sol. Atualmente, mais de 700 exoplanetas já foram encontrados por meio do chamado método de Doppler. A técnica avalia a velocidade com que uma estrela se afasta ou se aproxima da Terra por conta da força gravitacional que algum exoplaneta que orbite essa estrela exerça sobre ela.

Outro ponto importante abordado na palestra foi a evolução dos instrumentos usados no estudo dos astros. Makler apresentou telescópios que chegam a dez metros de comprimento e até poderosos detectores compostos pelos chamados dispositivos de carga acoplada (os mesmos que são usados, em quantidade muito menor, nas máquinas digitais), capazes de explorar os confins do espaço.

Os dispositivos de carga acoplada permitiram, por exemplo, a identificação de fenômenos conhecidos como lentes gravitacionais (saiba mais em ‘O universo visto pelas lentes gravitacionais’, na CH 264). Essas tais lentes são distorções no espaço-tempo previstas pela teoria da relatividade geral de Einstein e provocadas por corpos com grande massa, como galáxias e buracos negros, que fazem com que os objetos ao seu redor assumam um movimento curvilíneo e possam ser identificados.

Lentes gravitacionais
As lentes gravitacionais fazem com que os objetos ao seu redor assumam um movimento curvilíneo e possam, assim, ser identificados. (foto: Nasa)

Astronomia para todos

Com tanta informação acumulada, os astrônomos puderam extrapolar os muros dos centros de pesquisa e disponibilizar suas descobertas na internet para um público amplo. Um bom exemplo é o projeto ‘Levantamento digital do céu Sloan’ (do inglês, Sloan Digital Sky Survey), que já conseguiu mapear cerca de 25% do universo e disponibiliza um enorme acervo de imagens em seu site.

Além disso, alguns projetos aproveitam essa visibilidade e já pedem a ajuda dos internautas para identificar galáxias e, muito em breve, as próprias lentes gravitacionais.

“A rede neural humana consegue perceber padrões com muito mais facilidade que um computador”, explicou Makler. “Com tantos dados disponíveis, todo mundo pode contribuir para as descobertas científicas.”

As comemorações dos 30 anos do Instituto Ciência Hoje estão chegando ao fim, mas ainda é possível aproveitar. Nessa sexta-feira (6/7), acontece a palestra ‘Computação Hoje’, com o físico Ivan S. Oliveira, também do CBPF. No domingo (8/7), o público pode participar de uma oficina com experimentos de física e microbiologia. Os eventos acontecem na Casa da Ciência, em Botafogo (RJ).

Mariana Rocha
Ciência Hoje On-line

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