25 agosto 2016

Clandestinos implacáveis

O vírus da varíola (na foto), assim como os do sarampo, coqueluche, catapora, peste bubônica, difteria e influenza, foram trazidos para as Américas pelos europeus. (foto: Sanofi Pasteur/Flickr/CC BY-NC-ND 2.0)

 

O conceito de espécies invasoras é complexo, embora seja facilmente reconhecido que espécies não nativas introduzidas acidental ou intencionalmente causam alterações drásticas em novos ambientes (ver ‘Nem tudo o que vem de fora é inimigo’, em CH 336). Porém, a espécie invasora que mais expandiu sua área original e mais causou alterações nos mais variados biomas do planeta é mesmo a nossa, o Homo sapiens: a partir de uma origem africana, colonizamos (ou invadimos) praticamente todos os continentes e seus variados biomas. As alterações causadas por nossa espécie na Terra vão desde extinções em massa até mudanças radicais da paisagem. Muitos pesquisadores propõem até que estejamos vivendo um novo período, o Antropoceno, caracterizado pelas consequências das ações de nossa espécie sobre o planeta (ver ‘Antropoceno: a época da humanidade?’, em CH 283).

Embora todas as populações humanas pertençam a uma única espécie e não faça qualquer sentido biológico falar em raças humanas, o fato é que, ao longo de nossa dispersão, diversas populações humanas passaram séculos, ou mesmo milênios, isoladas de outras. Esse foi o caso, por exemplo, dos ameríndios em relação aos europeus.

Europeus e ameríndios permaneceram isolados por milênios após a chegada de nossa espécie às Américas

Com exceção de povoamentos, ou melhor, acampamentos nórdicos transitórios onde hoje é o Canadá, europeus e ameríndios permaneceram isolados por milênios após a chegada de nossa espécie às Américas. Essa separação teve consequências dramáticas, sobretudo para os ameríndios, imediatamente após o seu ‘reencontro’ com os europeus. Entre historiadores, hoje se reconhece que o processo de invasão e conquista das Américas pelos europeus, a partir de fins do século 15 e ao longo de todo o século 16, deve ser descrito tanto do ponto de vista cultural e econômico, como do ponto de vista de fatores biológicos determinantes para o estabelecimento desse domínio: as doenças infecciosas!

 

Domínio com ajuda dos vírus

No caso da conquista espanhola da América Latina, parasitos das mais diversas espécies trazidos pelos europeus representaram uma mudança ambiental catastrófica para os ameríndios, pois deram início a um processo de seleção natural que poupava apenas os poucos indivíduos que tinham imunidade natural contra eles.

Embora a origem de algumas doenças parasitárias dos ameríndios seja objeto de intensa controvérsia entre cientistas, há pouca discordância com relação ao fato de que os vírus da varíola, sarampo, coqueluche, catapora, peste bubônica, difteria e influenza foram trazidos para as Américas pelos europeus. Acredita­se que muitos colonizadores eram imunes a eles porque, durante séculos, populações europeias estiveram expostas justamente às doenças que eles provocavam.

A seleção natural, portanto, tendia a eliminar os indivíduos suscetíveis e a preservar os mais resistentes. Assim, a vantagem decisiva dos invasores das Américas não eram tanto suas armas de fogo, às quais os ameríndios conseguiram, por vezes, acesso em grande quantidade, mas suas doenças, causadas por vírus que antes não existiam no Novo Mundo.

O exemplo mais chocante talvez seja o da varíola em relação aos astecas, que viviam na região que hoje corresponde ao México. Estima­se que, entre 1520 e 1521, a varíola matou milhões de pessoas, talvez em associação com outras doenças. Embora a polêmica a respeito da quantidade de mortos seja grande, o número mínimo está em torno de 2 milhões de mortos. Segundo outros cientistas, ele pode chegar a 15 milhões. Ou seja, independentemente da estimativa adotada, a perda de vidas provocada pela varíola está entre as maiores da história.

Outras doenças não virais, como a malária, também foram trazidas pelos europeus e até hoje afetam populações humanas; principal mente, na América do Sul.

Voltando à conquista espanhola, é importante salientar que os indígenas americanos tinham suas próprias enfermidades (várias delas, como a doença de Chagas  e a de Carrión, eram tão autóctones para as Américas como os beija­flores e as antas).  Seu número, porém, era insignificante em comparação com a soma das que vieram para a América Latina a partir de 1492.

A febre amarela, por exemplo, é de origem africana, onde diversas populações têm menor suscetibilidade, apresentando formas brandas da doença, que era devastadora para europeus. Não por acaso, na rebelião de afrodescendentes na ilha de São Domingos, em 1802, a febre amarela matou aproximadamente 30 mil soldados enviados por Napoleão para tentar conter a tentativa de independência do Haiti iniciada em 1791.

Esse é apenas um caso, embora grandiloquente, da importância dos micro­organismos no desfecho de guerras entre populações humanas. Há outros exemplos anteriores e posteriores de micro­organismos dizimando populações em momentos de conflito. Na guerra entre britânicos e índios norte­americanos, em 1763, os primeiros ofereceram cobertores contaminados com varíola aos nativos, matando­os sem necessidade do uso de armas.

 

O papel dos animais domésticos

Por que as doenças dos europeus foram tão letais aos ameríndios e não se tem notícia de grande letalidade causada pelas doenças ameríndias transmitidas aos europeus? Uma possível resposta é que as infecções virais transmitidas pelos europeus eram doenças de grandes populações. Suas origens estão, em geral, em vírus que afetam animais domésticos.

Os europeus tinham um número maior de espécies de animais domésticos, que viviam em grandes ajuntamentos, como porcos, cabras e vacas. Essa condição favorece a proliferação e a transmissão de vírus 

Os europeus tinham um número maior de espécies de animais domésticos, que viviam em grandes ajuntamentos, como porcos, cabras e vacas. Essa condição favorece a proliferação e a transmissão de vírus causadores de doenças de multidão. Além disso, muitos camponeses dormiam junto a cabras e vacas, convivendo com suas secreções e consumindo seu leite, o que também propicia a transmissão de doenças. Some­se a isso o fato de que muitas cidades europeias no século 16 eram densamente povoadas por pessoas sem as atuais noções de higiene.

Esse cenário favoreceu por séculos a transmissão dos vírus. Nesses ambientes, indivíduos mais suscetíveis aos vírus que circulavam devem ter sucumbido mais facilmente, levando a novas gerações mais resistentes, das quais saíram aqueles que contribuíram para conquistar, junto com os vírus, a América Latina.

Por outro lado, o número de espécies domesticadas por ameríndios era menor: o peru, o porquinho­da­índia, a lhama e, quase certamente, o cachorro (ver ‘Vida de cão’ nesta edição). Esses animais, entretanto, viviam em grupos pequenos e o consumo de seu leite (no caso da lhama) não era uma prática estabelecida.

A chegada de populações humanas à América há milhares de anos afetou de forma drástica as demais espécies que ali viviam. Curiosamente, no século 16, a entrada de novos contingentes humanos no continente acabou dizimando também os povos nativos. Dessa vez, porém, as espécies invasoras e tremendamente letais eram os parasitos que vieram de carona com os europeus.

 

Maurício Luz
Ricardo Waizbort

Instituto Oswaldo Cruz, Fiocruz

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