17 outubro 2016

Muito além da beleza

Flores secas e seus metabólitos secundários têm diversos outros usos que não a ornamentação.

A fotossíntese é um processo essencial sem o qual os vegetais definham e morrem.  Ela faz parte, portanto, do metabolismo primário das plantas.  Já o metabolismo secundário gera produtos que, embora tenham utilidade, não são fundamentais – ou seja, sem eles, a planta  continua  vivendo.  São os metabólitos secundários, substâncias naturalmente produzidas nas plantas.

Apesar de não serem essenciais, metabólitos secundários desempenham os mais distintos papéis nos vegetais, auxiliando no sucesso destes frente a fatores ambientais. Uma série de metabólitos secundários está envolvida na proteção contra herbívoros, ou em mecanismos de atração de polinizadores.

A grande maioria dos produtos extraídos de plantas utilizados pelo ser humano são metabólitos secundários: tinturas, ceras, perfumes, medicamentos, substâncias inseticidas e muitas outras.

Os metabólitos secundários são divididos em três grandes grupos: o maior deles, com cerca de 25 mil substâncias conhecidas, é o dos terpenos. O segundo, com 12 mil substâncias, é o dos alcaloides; e o último, com aproximadamente 8 mil representantes, é o dos compostos fenólicos.

No artigo ‘Tesouros do cerrado’, da CH 340, os autores chamam a atenção para a importância econômica, social e cultural de plantas secas ornamentais, as famosas sempre-vivas. Sob essa denominação podem ser incluídas diversas espécies de diferentes famílias (Eriocaulaceae, Poaceae, Xyridaceae, Cyperaceae e Rapateaceae) que apresentam alguma parte adequada para a desidratação, mantendo a aparência de estruturas vivas, mesmo depois de secas. Geralmente, as inflorescências são as partes mais desejadas (embora folhas, frutos e sementes também possam ser utilizados). Sua beleza, associada a seu baixo conteúdo de água, faz delas excelentes plantas decorativas; mas o uso de flores secas vai muito além da ornamentação.

 

Da pólvora às especiarias 

A elaboração da pólvora, por exemplo, é feita por meio da mistura de enxofre, carvão e salitre (nitrato de potássio), mas um dos segredos para a obtenção de uma boa pólvora é o uso de carvão vegetal. O carvão mineral, ou a grafite, formas muito puras de carbono, não são adequados para isso. Para que se alcance uma rápida reação de ignição, são necessários os chamados ‘materiais voláteis’ presentes nas madeiras, que nada mais são do que metabólitos secundários da classe dos terpenos. Por isso, o carvão vegetal é o mais utilizado.

O carvão feito a partir do salgueiro foi, historicamente, a planta de preferência, mas sempre-vivas também se mostraram muito adequadas. Exatamente por isso o co- mércio das sempre-vivas do Brasil para os Estados Unidos e o Japão durante a Segunda Guerra Mundial foi alvo de intervenções militares, pois desconfiava-se que seriam usadas para a produção de pólvora.


Metabólitos secundários presentes no cravo-da-índia têm atividade antioxidante, anti-inflamatória, antifúngica, antisséptica e antibacteriana. (foto: FreeImages)

Não se pode falar de flores secas sem falar do cravo-da-índia. Além de especiaria bem popular, é facilmente reconhecida pelo seu formato peculiar.  Na verdade, cravos são os botões das flores do craveiro (Eugenia caryophyllata), colhidos a dedo quando começam a amadurecer e então colocados para secar ao sol.

Cravos eram praticamente desconhecidos dos europeus até a primeira metade do século 18. Mas já eram utilizados há muito tempo na Ásia. Documentos chineses da dinastia Han mostram que o imperador Gaozu, que governou a China de 202 até 195 a.C., ordenou que quem fosse ter uma audiência com ele mastigasse um cravo como forma de melhorar o hálito.

Além de seu uso muito conhecido na culinária, o cravo era empregado como remédio em diferentes culturas orientais. Esses efeitos são explicados pelos seus metabólitos secundários. Ácido oleanólico (um terpeno) e eugenol (um composto fenólico) são os dois principais metabólitos secundários presentes em cravos. O primeiro tem atividade antioxidante, anti-inflamatória, antifúngica e antibiótica, além de inibir o crescimento de alguns tumores.  Já o eugenol têm propriedades antissépticas e antibacterianas, sendo amplamente utilizado em perfumaria e como aromatizante de alimentos. Por isso, mastigar cravos era uma excelente forma de evitar cáries.

Talvez o produto vegetal seco mais famoso – e certamente o mais valorizado – seja o açafrão, que é o pistilo (conjunto de órgãos femininos) da flor Crocus sativus. Seu alto preço se justifica pelo enorme trabalho exigido para extrair o pistilo, de forma manual, uma flor por vez. Depois de coletados, os pistilos são separados das flores e colocados para secar.


Usado há 3.500 anos, o açafrão tem efeitos medicinais importantes. (foto: Pixabay.com/ Domínio Público)

A humanidade cultiva o açafrão há pelo menos 3.500 anos, interessada tanto na sua cor e sabor quanto em suas propriedades medicinais. A rainha egípcia Cleópatra (69-30 a.C.) usava açafrão em seus banhos quentes e antes de se encontrar com homens, acreditando em suas propriedades afrodisíacas. Curandeiros egípcios usavam o açafrão para tratar todo tipo de distúrbios gastrointestinais e urinários. Fenícios produziam perfumes, e pequenas bolsas contendo a especiaria eram carregadas a fim de disfarçar odores desagradáveis. Além disso, tinturas preparadas a partir do açafrão eram usadas para tingir tecidos e até em livros.

Tanto o historiador grego Heródoto (484-425 a.C.) como o naturalista romano Plínio, o Velho (23-79), descreveram propriedades curativas do açafrão no trato de doenças renais e gastrointestinais. Essa fama persistiu por muitos séculos, de forma que o médico suíço-alemão Paracelso (1493-1541), por volta de 1500, desenvolveu um elixir, composto de babosa, mirra e açafrão, que ficou muito famoso. O remédio resistiu ao tempo, e uma versão dessa formulação (chamada elixir do dr. Garrus) fez tanto sucesso na França no século 18 que é citado por duas vezes no clássico livro Madame Bovary, de Gustave Flaubert, publicado em 1857.

 

O valor dos metabólitos

Os metabólitos secundários por trás desses usos são a crônica, a crocetina, a picrocrocina e o safranal (carotenoides do grupo dos terpenos).  A crocina é o principal responsável pela coloração amarelo-avermelhada, e sua concentração aumenta durante o processo de secagem da planta.  O gosto característico da especiaria é atribuído à picrocrocina, e o odor, ao safranal.

Recentemente, estudos têm confirmado os efeitos medicinais do açafrão. Patentes norte-americanas foram registradas para o uso da crocetina no tratamento de papi- lomas (tumores) da pele e hipertensão e como anti-inflamatório. Além disso, extratos de açafrão ricos em crocetina têm conseguido inibir a síntese de ácidos nucleicos, podendo ser úteis no tratamento de câncer.

Secar plantas é um processo muito antigo e útil. Reduzindo o teor de água é possível manter as plantas e suas propriedades por tempos muito longos. Sempre-vivas mantêm sua aparência, mas não apenas isso. Também os metabólitos secundários se conservam com a desidratação de vegetais, conferindo às plantas secas uma importância que vai muito além da beleza. Moléculas tão diferentes capazes de perfumar, colorir, dar sabor e curar e que, por isso, encontraram seu lugar em múltiplos aspectos de nossa vida.

 

Luiz Mors Cabral
Instituto de Biologia
Universidade Federal Fluminense

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