01 novembro 2016

De brinquedo a ferramenta educacional

Técnica inspirada em lousa mágica é usada para coletar pegadas de mamíferos em seu hábitat e pode se tornar eficiente instrumento de ensino e aproximação de alunos com a pesquisa científica.

As pegadas podem ser um registro confiável da presença de animais em um local e seu estudo permite identificar a que espécie pertencem. (foto: Diogo Loretto)

A maioria dos mamíferos silvestres brasileiros não é facilmente avistada, pois tem hábitos noturnos e discretos. Por onde passam, no entanto, esses animais deixam indícios de sua presença, como fezes, pelos, tocas, restos alimentares e pegadas. Esses vestígios são como impressões digitais deixadas na cena de um crime: eles permitem a identificação do animal mesmo sem que o pesquisador o veja.

Quando devidamente fotografadas, medidas e copiadas, as pegadas são, em geral, vestígios confiáveis da presença de mamíferos terrestres em certo local, permitindo inclusive o registro de espécies raras ou ameaçadas. Além de ser de baixo custo, o estudo de mamíferos por meio das pegadas ainda tem a vantagem de não estressar os animais, que não precisam ser capturados e manuseados pelos pesquisadores.

 

Armadilhas de pegadas

Diversas técnicas já foram desenvolvidas para registrar pegadas de mamíferos. A mais simples, feita de areia, é usada para registrar pegadas de espécies com mais de 3kg. Para preparar a armadilha, o pesquisador molda, no solo, quadrados ou círculos de areia ou terra umedecida e peneirada, que funcionam como uma estrada lamacenta que marca impressões das pegadas dos animais que passam por ela. É possível ainda colocar um atrativo para o animal no centro da armadilha de areia, como uma isca comestível (sal, pedaço de carne, frutas, etc.) ou um odor específico (essência de baunilha ou essências almiscaradas sintéticas que lembram o cheiro de outras espécies). Uma vez que o animal passe pela armadilha e deixe a sua pegada na areia, esta pode ser preenchida com gesso de rápida secagem para a obtenção de um molde, fotografada, medida e, em seguida, identificada por meio de guias de identificação de pegadas de mamíferos.


Etapas para a obtenção de molde de pegada em armadilha de areia tradicional: (A) armadilha de areia com isca pendurada sobre o centro; (B) pegada encontrada; (C) tubo de PVC cortado colocado em torno da pegada para dar forma ao molde; (D) mistura de água com gesso; (E) despejo do gesso sobre a pegada; (F) molde de gesso dentro do PVC secando. (fotos A, B, C, E e F: Diogo Loretto; foto D: Paula Ferreira)

Apesar de suas vantagens, as armadilhas de pegadas têm limitações, como todo método científico. O principal problema é provocado pela chuva, que pode rapidamente apagar todas as pegadas deixadas na areia. Por outro lado, em épocas ou regiões secas, a dificuldade é manter a areia da armadilha úmida o suficiente para marcar as pegadas dos animais.

Como alternativa a essa técnica, há armadilhas feitas com placas de alumínio ou cartolinas cobertas com fuligem de querosene. Ao pisar na área coberta pela fuligem, o animal suja a sua pata e, ao retirá-la, deixa marcado o desenho de sua pegada na cartolina ou placa. Esses métodos funcionam mesmo em ambientes secos e deixam imagens bem nítidas das pegadas. As desvantagens dessas armadilhas são o uso de materiais artificiais e o cheiro da fuligem, que podem repelir animais de faro aguçado, como raposas e onças. E, assim como ocorre com as armadilhas de areia, as armadilhas feitas com placas ou cartolina também podem ser destruídas pela chuva.

Para superar problemas técnicos, novas soluções são frequentemente desenvolvidas. Os biólogos Alexandre R. T. Palma (Universidade Federal da Paraíba) e Rodrigo Gurgel-Gonçalves (Universidade de Brasília) desenvolveram um método que não sofre os efeitos da chuva para estudar pegadas de mamíferos de pequeno porte, como roedores e marsupiais. Em estudo publicado em 2007, os autores descreveram a técnica, que usa tubos de PVC com tinta de carimbo nas paredes internas e papel branco em suas extremidades. Ao passar por dentro do tubo, o animal suja as patas e as deixa marcadas nas folhas de papel ao sair.

 

Lousa mágica

Para o estudo de animais de médio e grande porte, como antas ou onças, desenvolvemos um método que resolve as limitações relacionadas à chuva e ao clima seco. A técnica é baseada em um brinquedo infantil chamado lousa mágica, formada por duas folhas plásticas superpostas, sendo a superior fluorescente e a inferior, branca. Quando pressionada, a folha fluorescente adere à folha branca, formando um desenho equivalente à área pressionada. Os desenhos podem ser apagados de forma ‘mágica’, como o nome sugere, separando os plásticos.


(A) Esquema da posição dos plásticos em uma lousa mágica. A marca no centro assinala o local onde deve ser colocada a isca. (B) Armadilha de pegada de areia colocada ao lado da armadilha feita com a lousa mágica. (C) Pegada de cachorro-do-mato (Cerdocyon thous) registrada pela lousa mágica. (fotos: Natalie Olifiers)

Para usar a lousa mágica como armadilha de pegadas, deve-se posicionar os plásticos sobre uma base rígida (por exemplo, papelão) e cobri-los com um terceiro plástico bem fino, que protege o sistema da chuva, sem prejudicar a impressão das pegadas. Quando pisa sobre os plásticos, o animal faz o papel da criança quando desenha na lousa mágica: a pressão sobre o plástico superior fluorescente faz com que ele ‘grude’ no plástico inferior, revelando a cópia da pegada. Além de ser facilmente abrigado da chuva, o quadro mágico é leve, durável e barato. Mas esse método também tem suas limitações. Em estudo realizado no Pantanal mato-grossense, observamos que alguns cães e felinos silvestres evitam a lousa mágica. Sua visão e seu faro aguçados podem ter sido a causa desse comportamento nos primeiros dias de uso do material em campo.

 

Ferramenta de ensino

Apesar da ampla aplicação em estudos ecológicos, as armadilhas de pegadas podem ser usadas como instrumento pedagógico, aproximando estudantes do Ensino Médio e o meio acadêmico, além de incentivar o conhecimento da fauna de mamíferos do Brasil.

Apesar da ampla aplicação em estudos ecológicos, as armadilhas de pegadas podem ser usadas como instrumento pedagógico, aproximando estudantes do Ensino Médio e o meio acadêmico, além de incentivar o conhecimento da fauna de mamíferos do Brasil

Aprender a obter pegadas de mamíferos é um trabalho simples, que pode ser feito por qualquer pessoa. No Brasil, os biólogos Christian N. Berlinck e Luanne H.A. Lima usaram as armadilhas de pegadas em trabalho com crianças de 7 a 15 anos no povoado de São João Evangelista, em São Domingos (GO). Mesmo tendo sido realizada em um povoado rural, onde as crianças desde muito cedo têm contato com os animais silvestres, a prática levou conhecimento aos alunos e despertou a atenção da comunidade para a valorização e o manejo da biodiversidade local. As crianças desenvolveram interesse pelas espécies que vivem próximo a elas, internalizaram conceitos ecológicos e perceberam como a área de proteção ambiental adjacente ao povoado é importante para aquelas espécies, algumas ameaçadas de extinção.

Outro exemplo de que técnicas simples e baratas usadas no meio acadêmico podem ser facilmente transformadas em ferramentas educacionais foi uma oficina desenvolvida pela bióloga Suzana Maria Salis (Embrapa-Pantanal) e colaboradores. Por meio de técnicas científicas adaptadas, oito crianças de 11 a 14 anos puderam conhecer a fauna local do Pantanal e aprender conceitos ecológicos importantes, como a teia alimentar. Ao final do trabalho, as crianças desenharam teias alimentares que continham inclusive o homem, colocado como coadjuvante em relação a outros organismos, o que contraria o senso comum antropocentrista. Isso mostra que a aprendizagem pode ser profunda se os métodos de ensino e os assuntos abordados estiverem alinhados com a realidade dos alunos.

Nos Estados Unidos, os biólogos Peter Vacchina e Susan Rauchwerk, professores de Ensino Médio da escola Hudson High School, usaram com seus alunos a lousa mágica e a armadilha de areia para identificar mamíferos presentes ao longo do rio Assabet, em Massachusetts. A aula prática os fez refletir não somente sobre as técnicas usadas, mas também sobre as espécies de mamíferos presentes na região e como identificá-las por meio de suas pegadas.

Essas ideias devem encorajar outros pesquisadores a adaptar métodos de pesquisa para contribuir com o enriquecimento da educação e a conscientização de nossos jovens.

Clique aqui para aprender a montar uma armadilha de areia.

 

Sugestões para leitura:

LIMA BORGES, P. A. & TOMÁS, W. M. Guia de rastros e outros vestígios de mamíferos do Pantanal. Corumbá: Embrapa-Pantanal, 2ª ed., 139p, 2008.

BECKER, M. & DALPONTE, J. C. Rastros de Mamíferos Silvestres Brasileiros. Brasília: Technical Books editora, 3ª ed., 170p, 2013.

BERLINCK, C. N. & LIMA, L. H. A. Identificação de rastros de animais, educação ambiental e valorização da fauna local no entorno do Parque Estadual de Terra Ronca (GO). Rev. Eletrônica Mestr. Educ. Ambient., v.18, janeiro a junho de 2007.

SALIS, S. M.; MOURÃO, G.; TOMÁS, W. M.; BORGES, P. A. L.; CONGRO, C.; SILVA, M.; RIBEIRO, L. Formando Detetives Ecológicos no Pantanal – Uma Experiência de Educação Ambiental pela Vivência. Corumbá: Embrapa Pantanal, 25p, 2006.


Diogo Loretto
Laboratório de Biologia e Parasitologia de Mamíferos Silvestres Reservatórios
Instituto Oswaldo Cruz/ Fiocruz

Natalie Olifiers
Universidade Veiga de Almeida

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