04 novembro 2016

Uma nova batalha indígena

Construção de oleoduto nos Estados Unidos ameaça território sagrado dos povos Sioux e dá início a movimento de resistência que já reúne milhares de pessoas.

Ameríndios e defensores dos direitos indígenas marcham em oposição à construção do oleoduto que vai atravessar território sagrado do povo Sioux. (foto: John Duffy/ CC BY 2.0)

Os Estados Unidos estão construindo um oleoduto de 1.800 km, a um custo de 3,8 bilhões de dólares. O traçado do duto, chamado Dakota Access Pipeline, vai percorrer quatro estados. O plano inicial era de que o duto atravessasse o rio Missouri na altura de Bismarck, capital de Dakota do Norte, mas o risco de contaminação dos mananciais da cidade em caso de vazamento foi considerado alto demais pelas autoridades. Assim, o duto foi deslocado para 100 km ao sul, perto do lago Oahe, e a apenas 800 m da atual reserva indígena Sioux de Standing Rock.

A disposição dos índios Sioux da região para a conversa já não era das melhores antes desse projeto, uma vez que, no fim do século 19, sofreram o ‘tsunami’ de uma corrida do ouro no sul do estado e, no final dos anos 1950, perderam parte de sua reserva, incluindo aldeias e cemitérios, devido à construção de duas represas no rio Missouri, o que os obrigou a se deslocarem.

Segundo os Sioux, as áreas que estão sendo escavadas para a construção do oleoduto são território sagrado, por serem cemitérios de seus antepassados.

Isso não sensibilizou as forças de segurança da Energy Transfer Partners, empresa responsável pelas obras, que usou cães e gás de pimenta para afastar os indígenas que protestavam, enquanto um helicóptero da empresa sobrevoava a área.

Apesar de um juiz local ter autorizado a continuação das obras, o governo federal pediu a suspensão temporária do projeto, visando acalmar os ânimos. Mas, em 11 de outubro deste ano, os trabalhos foram reiniciados.


Oleoduto Dakota Access Pipeline em construção. Seu traçado vai passar por quatro estados norte-americanos. (foto: Carl Wycoff from Nevada, USA - Dakota Access Pipe Line / CC BY 2.0, Wikimedia Commons)

 

Occupy the Prairie

O projeto vem enfrentando oposição crescente de ameríndios, de defensores dos direitos indígenas e de ecologistas. Centenas e, depois, milhares de pessoas de mais de 100 tribos ameríndias afluíram para a região, na maior concentração do gênero desde a histórica batalha de Little Bighorn, em 1876 – o episódio mais famoso das guerras indígenas ocorridas nos Estados Unidos entre 1778 e 1890. Dessa vez, não vieram a cavalo, mas de caminhonete, e estão armados apenas com cartazes e muita disposição. Constituíram uma pequena cidade de barracas, tipis (tendas indígenas em forma de cone) e motor homes, em movimento que alguns já chamam de Occupy the Prairie (em tradução livre, ‘Ocupe a pradaria’, em referência ao ecossistema da região).

A mídia norte-americana agiu como se os fatos estivessem ocorrendo nos confins do Malawi, isto é, ignorou-os solenemente.  

Até que Amy Goodman, jornalista e responsável pelo programa Democracy Now, transmitido pela internet, resolveu ir ao local e cobriu, em 03/09, a invasão do canteiro de obras pelos manifestantes, postando na web um vídeo que viralizou (FULL Exclusive Report: Dakota Access Pipeline Co. Attacks Native Americans with Dogs & Pepper Spray). As grandes redes de comunicação não tiveram outro remédio a não ser passar a mencionar o caso, mais ainda quando Amy Goodman foi acusada criminalmente pela justiça estadual de invasão de propriedade privada e incitação à revolta.

 

Consequências devastadoras

As preocupações dos manifestantes quanto ao projeto são muitas. Temem com razão que vazamentos contaminem suas fontes de agua potável. Não aceitam que os dutos cruzem um terreno que tem para eles valor cultural e histórico significativo. Queixam-se de não terem sido consultados e afirmam que a agência federal que autorizou o projeto não levou em conta todas as suas consequências.

Estão cobertos de razão. E de pancada, já que, enquanto a batalha judicial, midiática e física continua e o governo federal fica em cima do muro, as milícias das empreiteiras e a polícia estadual arregaçam as mangas. Em 27/10, prenderam 117 manifestantes.

“As tribos sempre pagaram o preço da prosperidade americana”

Ainda em agosto, o chefe da reserva de Standing Rock, David Archambault, escrevia no The New York Times: “Seja no caso da mineração de ouro, da geração de energia elétrica no rio Missouri ou dos oleodutos que ameaçam nossa herança ancestral, as tribos sempre pagaram o preço da prosperidade americana”.

Standing Rock é um dos últimos territórios da outrora chamada Grande Reserva Sioux. Ao ser criada, em 1868, esta abrangia todo o estado de Dakota do Sul e parte dos estados de Nebraska e Dakota do Norte.

Desde então, foi sendo reduzida e fragmentada, sempre em nome de projetos estranhos à agenda dos ameríndios e implementados à força.

O projeto atual tem o agravante de ter relação com petróleo, o combustível do passado.

Deve ser terrível viver em um país onde acontecem coisas assim, não é?

 

 

Jean Remy Davée Guimarães
Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho
Universidade Federal do Rio de Janeiro

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