20 dezembro 2016

O estranho mundo do Doutor Estranho

Adilson de Oliveira comenta em sua coluna alguns conceitos científicos e fenômenos presentes no filme do super-herói da Marvel cujo poder são as artes místicas.

O filme Doutor Estranho, lançado este ano pela Marvel Studios, conta a história de um neurocirurgião famoso e arrogante que perde a capacidade de operar após um acidente e, em busca de sua cura, adquire poderes mágicos. (foto: divulgação The Walt Disney Company)

Nunca tivemos tantos filmes sobre super-heróis como nos últimos tempos. O cinema foi invadido por histórias de seres capazes de fazer proezas que desafiam o nosso imaginário e, em alguns casos, são bons momentos de diversão.

Desde o aparecimento do Super-homem no final dos anos 1930, surgiu uma legião de super-heróis com os mais diferentes ‘superpoderes’, ou habilidades especiais. Normalmente, esses poderes têm duas origens: ou os super-heróis nascem com super-habilidades, ou estas são fruto de alguma modificação genética ou foram desenvolvidas a partir de novas tecnologias.

O Super-homem, por exemplo, nasceu em outro planeta e, quando veio para a Terra, desenvolveu superpoderes por causa de sua genética. Thor, embora considerado um deus nórdico, é também um alienígena com habilidades especiais. Já o Homem-aranha conseguiu seus poderes após ser picado por uma aranha modificada geneticamente que alterou seu DNA e o Capitão América teve seu corpo mudado por um ‘supersoro’ especial. Super-heróis como o Homem de Ferro e Batman, por sua vez, usaram suas fortunas (e inteligência) para desenvolver tecnologias especiais que lhes permitem enfrentar as grandes ameaças que surgem – afinal, todo herói precisa de um vilão para enfrentar.

O mais recente sucesso de cinema trouxe um super-herói um pouco diferente dos outros. Um super-herói cujos poderes não estão nem na genética especial nem em recursos tecnológicos, mas sim nas chamadas ‘artes místicas’. O Doutor Estranho é ao mesmo tempo um personagem diferente e curioso. Sua origem vem de um médico famoso e arrogante que, ao se acidentar, perde a capacidade de operar, fato que o leva ao desespero, em busca de uma forma de recuperar suas habilidades como cirurgião. Em uma última tentativa, ele vai ao Nepal procurar uma cura para o seu problema a partir do uso da magia. Lá, conhece uma anciã, que, em vez de curá-lo, leva-o a descobrir a magia.

No filme, assim como em todos os de super-heróis, há cenas incríveis – hoje possíveis devido aos efeitos visuais –, que quase sempre desafiam as leis da física que conhecemos

No filme, assim como em todos os de super-heróis, há cenas incríveis – hoje possíveis devido aos efeitos visuais –, que quase sempre desafiam as leis da física que conhecemos.

No caso do filme do Doutor Estranho, lançado este ano pela Marvel Studios, não é diferente. Embora se fale muito de magia, artes místicas, feitiços, entre outras coisas, no meu ponto de vista, há alguns conceitos científicos que merecem ser discutidos com um olhar diferente do que em geral aparece em filmes de ficção científica.

Mas, antes de qualquer coisa, gostaria de destacar que todo filme é uma obra de criação artística e não tem compromisso em garantir a veracidade do enredo, pois, afinal, é uma narrativa contada em uma linguagem particular, a linguagem cinematográfica.

 

Multiverso

Um dos pontos mais marcantes do filme do Doutor Estranho é a existência de universos paralelos à nossa realidade. Em cada um desses universos, as leis físicas são diferentes, assim como os conceitos de espaço e tempo. Em particular, no filme menciona-se a existência de uma ‘dimensão negra’, onde o tempo não passa e seria possível viver para sempre.

A ideia de universos paralelos ao nosso vem de algumas possibilidades de interpretação da teoria quântica e de possibilidades de explicação da cosmologia para a existência do nosso universo.

A física quântica começou a ser elaborada no início do século 20 e revolucionou a nossa forma de compreender a natureza. Em particular, a física quântica descreve o comportamento na escala atômica, em que alguns fenômenos parecem muito estranhos, quando comparados a nossa experiência cotidiana. Por exemplo: em inúmeras situações, observamos que a luz se comporta na forma de uma onda eletromagnética, como no fenômeno da difração, que ocorre quando uma onda atinge um sistema com duas fendas, que criam um padrão de interferência nas ondas (veja figura). Entretanto, também é possível observar que a luz se comporta como se fosse partículas de energia (fótons), como quando ela atinge um detector fotoelétrico, comum em portas automáticas.


Padrão de interferência que ocorre quando uma onda eletromagnética atinge um sistema com duas fendas. (imagem: Lookang many thanks to Fu-Kwun Hwang and author of Easy Java Simulation = Francisco Esquembre - Obra do próprio, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=17003343)

Mas, quando um único fóton atravessa um sistema de duas fendas, é impossível saber por qual das fendas ele passa. De fato, a impressão que se tem é que ele passa pelas duas fendas ao mesmo tempo. Do ponto de vista da física quântica, a luz (e outras entidades atômicas) se comporta como se fosse, ao mesmo tempo, onda e partícula, o que é conhecido como dualidade onda-partícula.

Contudo, existem outras propostas para explicar esse fenômeno. Uma delas, elaborada pelos físicos norte-americanos Hugh Everett III (1930-1982) e Bryce DeWitt (1923-2004), diz que, quando o fóton é emitido, ele estaria em todos os estados possíveis e, somente quando se faz a medição, é que se determina um desses estados. Ou seja, é como se ele existisse de muitas formas (muitos universos diferentes) e, quando interagimos com ele, determinamos seu estado.

O fato de o evento do Big Bang marcar o início do nosso universo não garante que não existam outros. É como se vivêssemos em uma ‘bolha’ e os outros universos estivessem em outras ‘bolhas’

Outra interpretação é que o nosso próprio universo seria apenas um entre infinitos universos que poderiam existir. O fato de o evento do Big Bang marcar o início do nosso universo não garante que não existam outros. É como se vivêssemos em uma ‘bolha’ e os outros universos estivessem em outras ‘bolhas’. Nesse caso, os muitos ‘universos’ eventualmente poderiam se unir, formando outros.

As situações descritas são apenas possibilidades teóricas da existência de mundos ou universos paralelos. De fato, ainda não foi possível encontrar qualquer evidência direta do multiverso.

 

Tempo reversível

Outro ponto marcante e interessante do filme é quando o Doutor Estranho utiliza o Olho de Agamotto, que, no cinema, é apresentado de maneira diferente daquela feita originalmente nos quadrinhos da Marvel Comics. No filme, o Olho de Agamotto é uma pedra especial que tem o poder de fazer o tempo voltar, ou seja, é capaz de fazer com que eventos sejam desfeitos e as coisas voltem a ser exatamente o que eram antes deles.

Fazer o tempo retroceder é uma das ações mais desejadas. Poder voltar no tempo, depois de saber que algo não deu certo, e corrigir o que foi feito de errado seria muito conveniente. Mas isso não acontece. O que observamos é que o tempo sempre caminha para frente.

A irreversibilidade do tempo está associada ao chamado princípio de aumento da entropia. De maneira simplista, podemos dizer que a entropia mede o grau de desordem de um sistema. Quanto menos organizado é esse sistema, maior a sua entropia. Em algumas situações, conseguimos diminuir a entropia, pois a situação é reversível, ou seja, conseguimos fazer as coisas voltarem ao que eram (quando organizamos a nossa casa que está toda bagunçada, por exemplo). Mas há situações em que isso é impossível, como fazer uma maçã voltar ao que era após ter sido mordida, como foi mostrado no filme.

Assim como em todas as histórias, a ficção pode ser mais interessante que a realidade. Explorar as diferentes possibilidades faz com que pensemos um pouco em situações que seriam impossíveis, mas, na tela do cinema, tudo se torna factível.

Da mesma forma, o conhecimento dos processos que envolvem os fenômenos físicos pode ser também fascinante, pois, afinal, o conhecimento é também uma narrativa que estamos construindo há milênios. Fenômenos considerados mágicos se tornaram compreensíveis a partir do momento em que tentamos entender mais profundamente a natureza. As estranhezas que a ficção cria talvez algum dia possam se transformar em realidade.

 

Adilson de Oliveira
Departamento de Física
Universidade Federal de São Carlos

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