29 dezembro 2016

Não é um espelho

A estrutura da sintaxe nem sempre replica a estrutura do sentido das frases.

(foto: Pixabay – CC0)

Muita gente pensa que pessoas que dizem frases como “quem aqui o pai fuma?” sofrem de alguma confusão mental, não sabem articular uma frase simples. Imaginam que todas as boas frases devem ter estruturas do tipo “Eva viu a uva”. Aceitam acrescentar “detalhes”, como em “Eva viu a uva de longe ontem de tarde”. Eventualmente, até aceitam alguma inversão: “Ontem, Eva viu a uva” e até a passiva “A uva foi vista por Eva”.

Mas os dados mostram que este é apenas um tipo de evento linguístico (suposto “ideal” por muita gente): que uma oração expressa sempre uma suposta ordem da mente (Um animal passou por aqui. / O apartamento tem 40 metros quadrados.). Mas os dados – isto é, as orações que os falantes reais constroem – mostram que não há um espelhamento entre sintaxe e semântica, ou seja, que a estrutura da sintaxe não replica a estrutura do sentido.

As orações que os falantes reais constroem mostram que não há um espelhamento entre sintaxe e semântica, ou seja, que a estrutura da sintaxe não replica a estrutura do sentido

A melhor maneira de mostrar isso é separar funções sintáticas de papéis semânticos. A distinção mais óbvia é a distinção entre sujeito (uma categoria sintática) e agente (uma semântica). Deveríamos ter aprendido que nem sempre o sujeito é o que pratica a ação. Para começar, isso só pode ocorrer quando o verbo expressa uma ação (correr, comer, ler...). Evidentemente, não acontece se o verbo expressa outra coisa (sofrer, sentir, ter, possuir).

Algumas gramáticas podem ter feito esta separação, eventualmente definindo sujeito como “aquilo / aquele de que se fala”. Mas isso não é suficiente.

Considerem-se casos talvez mais comuns do que “quem aqui o pai fuma?”, cujo sentido é “quem aqui tem pai [que é] fumante?”. Veja-se “O carro furou o pneu”.

Primeiro, espero que não se diga que se trata de uma construção errada, porque não bate com os fatos: um carro não pode furar o pneu, isto é, um carro não pode ser o agente que pratica a ação de furar o pneu. Por isso, a construção seria um equívoco “metafísico”.

Eis um bom exemplo para mostrar que nem sempre a sintaxe espelha a semântica: “o carro” é o sujeito dessa oração (é com “o carro” que o verbo concorda; é do carro que se fala), mas não é o agente da ação de furar. Aliás, esta oração não informa quem é o agente da ação ou do evento. Em termos semânticos, o carro é o possuidor, o que uma estrutura alternativa, “O pneu do carro furou”, deixa mais claro.

Analisar uma oração considerando suas diversas paráfrases é sempre uma boa medida. No caso, poderíamos considerar pelo menos “O carro furou o pneu” e “O pneu do carro furou”. Em nenhum dos dois casos há um agente expresso: num caso o sujeito é o possuidor (o carro); no outro, é o alvo (o pneu): o pneu é o alvo da ação ou do evento “furar”.

Testes com passiva podem ser instrutivos. A passiva de “o pneu do carro furou” é “o pneu do carro foi furado”, que exibe claramente que o alvo (outro nome poderia ser “objeto”) da ativa se torna sujeito na passiva. Provavelmente, uma paráfrase (sintática) de “o carro furou o pneu” seria uma sequência sem sentido, porque teria que ser “o pneu foi furado pelo carro”: sintaticamente, ou seja, aplicadas as regras sintáticas automaticamente, este seria o resultado. Mas não se pode ter como “agente da passiva” um elemento que não expressa um agente (esta passiva estranha, aliás, é um nó para os gramáticos, eu penso; é com eles que deixo problema...).

Voltemos a “quem aqui o pai fuma?”. Eventualmente, alguém poderia achar que esta oração deveria ser analisada como se analisa “Eva viu a uva”. Demos uma pequena volta para colocar o problema claramente. Muitas vezes, “quem”, embora apareça no começo da oração, é seu objeto (usemos esta terminologia). “Quem você viu?” se lê “Você viu quem?”. Com base neste fato, alguém, apertando a tecla “automático”, converteria “quem o pai fuma” em “o pai fuma quem?” (elimino a palavra “aqui” para facilitar a observação da estrutura).

O que impede esta inversão (ou esta volta a uma suposta ordem básica) é o sentido de “fumar”: este verbo não admite qualquer objeto, mas apenas objetos (alvos) do tipo “cigarro / charuto / cachimbo” (por mais que os cigarros possam variar). A não ser que se prove (isto é, que se ateste com dados) que “ser fumado pelo pai” seja uma expressão corrente (uma gíria?) que significa para “tomar uma bronca” ou algo assemelhado.

As análises devem levar em conta um sentido possível num mundo possível

Ou seja: as análises devem levar em conta um sentido possível num mundo possível – no caso, em um mundo real, no qual há fumantes, mais frequentemente adultos.

É por isso que analisar “o carro furou o pneu” impede pelo menos duas saídas: I. considerar que a construção está errada, porque não corresponde aos fatos (a um mundo); II. considerar que “o carro”, sendo sujeito, é também o agente.

Vale a pena acrescentar que os falantes podem ter razões sólidas (ter medo é uma; desconhecimento é outra; ainda outra pode ser o cuidado para não acusar sem evidências) para não mencionar o agente da ação "furou o pneu" – se é que houve um.

Mas essa questão abriria para outros campos, que exigiriam mais do que uma breve coluna. Para um aperitivo, sejam casos como “assaltante morto na favela”, sem menção de quem matou; “os preços subiram”, como se preços subissem..., etc.

Algumas das teses aqui mencionadas ficariam muito mais claras se todos os interessados lessem Gramática descritiva do português brasileiro, de Mário Perini, cuja reedição acaba de sair pela Editora Vozes, de Petrópolis. É um volume que, além de esclarecer muitos fatos sobre a língua que falamos, ajudaria a defender as universidades, acusadas eventualmente de não se interessarem por problemas reais.

 

Sírio Possenti
Departamento de Linguística
Universidade Estadual de Campinas

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