30 dezembro 2016

Paleontologia de luto

Em todos os sentidos, 2016 foi atípico, trazendo uma série de notícias negativas e preocupantes para o desenvolvimento da ciência brasileira. Nem a paleontologia escapou – veja o que diz Alexander Kellner em sua última coluna do ano.

Que ano! Confesso não me recordar de alguma vez ter chegado ao final de 12 meses com um sentimento tão... esquisito! É difícil definir o que sinto: um misto de decepção, tristeza, pessimismo, insegurança, e, paradoxalmente, um certo alívio de o ano estar acabando, como se os problemas desaparecessem no réveillon (uma grande utopia).  O mais curioso é constatar que, em maior ou menor escala, a maioria das pessoas com as quais converso – das mais pessimistas às mais otimistas – tem um sentimento semelhante.

Não são poucos os motivos para preocupações. Podemos começar com as profundas e complexas mudanças que aconteceram no mundo e que têm acontecido em nosso país – estas últimas afetam diretamente o desenvolvimento da ciência por aqui.

No plano internacional, não há como negar as guinadas para a direita de vários governos, talvez melhor simbolizadas pela surpreendente – ou não tão surpreendente assim, dependendo de com quem você fala – eleição (indireta) do presidente da maior economia mundial. Também não dá para esquecer a mais recente recusa de um país a considerar uma resolução da Organização das Nações Unidas, demonstrando que tal organismo não será suficiente para mitigar os conflitos que nós, primatas supostamente mais evoluídos que os outros, criamos. E como interpretar os ataques terroristas que jogaram caminhões sobre multidões, como se elas tivessem culpa de alguma coisa? Lembramos ainda do triste episódio do avião que não chegou ao seu destino por falta de... combustível!

Aqui no Brasil, vivemos uma delicada situação moral, com denúncias de corrupção eclodindo em todas as frentes e que, de forma direta ou indireta, causaram (ou intensificaram) a crise econômica cujos efeitos estamos apenas começando a sentir. Como em muitos outros casos, a conta vai sobrar para setores que não tiveram influência direta na criação desse quadro negativo – como cientista, obviamente o primeiro deles em que penso é a própria ciência.

Hoje, o tratamento dispensado à atividade científica no Brasil não conta nem mesmo com o mínimo de respeito de nossos governantes, como ficou evidente no caso do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação: inicialmente utilizado como barganha política – até um bispo estava sendo contado como titular da pasta –, terminou o ano "rebaixado" pela fusão com o Ministério das Comunicações. Mesmo antes disso, as coisas já não andavam muito bem para os pesquisadores, penando com a falta de recursos que levou alguns à drástica medida de ir embora, como fez a neurocientista Susana Herculano-Houzel, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (instituição que, diga-se de passagem, teve a luz cortada em algumas unidades pela falta de pagamento – tem vexame maior?). A pesquisadora não foi a primeira e não será a única, e essa diáspora aumenta o desânimo dos que ficam.

Que triste constatar que tudo isso aconteceu no centenário da Academia Brasileira de Ciências, data que deveria servir de incentivo para o desenvolvimento da ciência em nosso país!

 

Quadro negro também para a paleontologia

Com a bruxa à solta na ciência como um todo, não é nada surpreendente que a paleontologia, em particular, também sofra as consequências. Reuni alguns exemplos mais emblemáticos.

Para começar, o movimento SOS Dinossauros, que procura alertar as autoridades sobre a falta de investimento em projetos visando à pesquisa de fósseis, foi "engolido" pela realidade econômica do nosso país. O fato pode ser constatado no edital universal do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), cujo resultado acaba de ser divulgado. Os números ainda não foram totalmente apurados, mas aparentemente menos de 10% das propostas ligadas à paleontologia foram contempladas. E mesmo quem ganhou não sabe quando efetivamente vai poder iniciar seu projeto, uma vez que existem valores de editais passados que ainda não foram pagos...

Outra vítima de 2016 foi a Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul, extinta por mando do governo daquele estado. A instituição abriga uma das maiores coleções de vertebrados fósseis do país. Como se não bastasse, o Rio Grande do Sul discute agora o encerramento da fundação de apoio à pesquisa daquele estado, ceifando, de vez, a esperança de dias melhores para os pesquisadores gaúchos.

Pelo Brasil, outras agências de fomento estão passando por situações financeiras difíceis. Para citar apenas dois exemplos, a do Espírito Santo anunciou a suspensão de editais e a do Rio de Janeiro atrasou o pagamento de bolsas, embora venha se esmerando para mitigar a criminosa situação da falência do estado.

Para entristecer ainda mais os paleontólogos, cabe o registro do falecimento de Plácido Cidade Nuvens, antigo reitor da Universidade Regional do Cariri (Crato, CE) e fundador do Museu de Paleontologia de Santana do Cariri, situado em um dos locais mais importantes para a pesquisa de fósseis no país, a Chapada do Araripe. Nos últimos anos, a instituição tem procurado conter a sangria do comércio ilegal de fósseis – vide o exemplo recente de um lagarto importante (equivocadamente confundido com uma cobra), que foi parar na Europa sob as barbas de quem deveria zelar pela preservação do patrimônio paleontológico nacional – o Departamento Nacional de Produção Mineral, que aliás, também não escapou de acusações de corrupção. Que ano!

Sejamos sinceros, o quadro é desanimador. De onde tirar alguma esperança de dias melhores para a paleontologia e para a ciência como um todo?

Não posso falar pelos outros, mas no que me toca, com um otimismo cauteloso, guardo esperança em nossos eventos: foram muitos durante o ano, com grande participação não apenas de pesquisadores, mas de alunos. Há muitos jovens interessados em seguir carreira para desvendar as etapas da evolução da diversidade da vida em nosso planeta! E são eles que nos dão esperanças de melhores dias para a pesquisa dos organismos que outrora habitaram esse pequeno ponto no universo onde nos encontramos.

Boas festas e um FELIZ ANO NOVO!

Alexander Kellner
Museu Nacional/UFRJ
Academia Brasileira de Ciências

 

Paleocurtas

As últimas do mundo da paleontologia
(clique nos links para mais detalhes)

A Sociedade de Paleontologia de Vertebrados (SVP, na sigla em inglês), principal associação científica do ra-mo, publicou um guia de boas práticas que possibili-tam a reprodutibilidade de estudos paleontológicos. Entre outros aspectos, recomenda-se fortemente o depósito de espécimes importantes (não apenas holótipos) em instituições científicas onde os mesmos possam ser consultados e examinados por pesquisadores interessados.

Falando em SVP, a colega Taissa Rodrigues Marques da Silva (Universidade Federal do Espírito Santo) agora integra o Government Affairs Committee dessa organização. A comissão tem entre seus objetivos discutir questões que afetam a paleontologia de vertebrados, como pesquisa e educação, e também assuntos mais delicados, como a proteção dos depósitos fossilíferos. Parabéns, Taissa!

Uma nova etapa do projeto PALEOANTAR está começando. Ao todo, nove pesquisadores de diversas instituições brasileiras passarão as próximas semanas nas ilhas James Ross e Vega em intensa atividade de coleta de fósseis e, certamente, trarão muitas novidades. Alias, ainda estamos a procura de patrocinadores para uma exposição e um vídeo das atividades. Alguém se habilita?

Contagem regressiva: em junho de 2018, a instituição científica mais antiga da América Latina completará 200 anos! O Museu Nacional, atualmente alocado na UFRJ, está se preparando para essa importante data que não é apenas motivo de comemoração para a instituição, mas também para a ciência brasileira. Apesar das adversidades, boas surpresas estão sendo planejadas...

Nos Estados Unidos, mais especificamente em Kentucky, acabaram de concluir um projeto de 100 milhões de dólares: a reprodução do que deveria ter sido a arca de Noé. Enquanto entretenimento – como os parques da Disney onde se encontram Mickey e Pato Donald –, tudo bem. Mas querer colocar dinossauros dentro da arca e procurar transvestir esse tipo de projeto como conhecimento científico é algo que, como cientistas, devemos refutar, procurando esclarecer ao público que a religião tem o seu espaço na sociedade, mas não é ciência...

Uma boa notícia: o livro digital A paleontologia na sala de aula está, como diriam os jovens, "bombando"! São centenas de acessos desde meados 2015, quando foi lançado. Segundo a organizadora da iniciativa (patrocinada pela Sociedade Brasileira de Paleontologia/CNPq), Marina Bento Soares (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), não apenas professores de Educação Básica (público-alvo do projeto) consultam essa publicação, mas também alunos de graduação e tantos outros interessados na pesquisa de fósseis. Vale a pena conferir os diversos capítulos e atividades!

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