27 janeiro 2017

Répteis bons de briga

Pesquisadores do Rio Grande do Sul encontraram fósseis de um pequeno réptil com marcas que sugerem disputas entre indivíduos de uma mesma espécie ocorridas há cerca de 215 milhões de anos. Esse raro registro é apresentado por Alexander Kellner em sua primeira coluna do ano.

Reconstrução em vida de dois Clevosaurus brasiliensis em combate. (ilustração: Voltaire Dutra Paes Neto)

Nesta primeira coluna de 2017, vou ‘saldar’ uma dívida com um trabalho que prometi divulgar no ano passado: a descoberta de fósseis com marcas que sugerem disputas entre répteis extintos encontrados no Rio Grande do Sul. Como esse tipo de registro é muito raro, não queria deixar de mencionar esse importante achado, que foi publicado na Historical Biology por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), liderados por Paulo Romo-de-Vivar-Martínez.

O animal em questão pertence ao grupo dos rincocefálios (répteis semelhantes aos lagartos), que nos dias de hoje somente tem o tuatara (Sphenodon punctatus), da Nova Zelândia, como sobrevivente. Dentre as formas extintas, uma que se destaca é o Clevosaurus. Esse gênero é representado por quase uma dezena de espécies encontradas em diversos países da Europa, na África do Sul, na América do Norte e na China, em rochas que vão do Triássico Superior (cerca de 225 milhões de anos) até o Jurássico Inferior (cerca de 200 milhões de anos).


O tuatara, somente encontrado na Nova Zelândia, é o único representante atual do grupo dos rincocefálios, ao qual também pertence Clevosaurus brasiliensis. (foto: Wikimedia Commons)

Apenas uma única forma foi achada na América do Sul, mais especificamente no Brasil: Clevosaurus brasiliensis. Uma característica marcante da espécie e que a distingue das demais é o seu focinho bastante curto. Seu crânio não chega a 3 centímetros de comprimento – metade do polegar. Cerca de duas dezenas de indivíduos do nosso Clevosaurus foram recuperados das rochas que compõem a Formação Caturrita (de aproximadamente 215 milhões de anos), no Rio Grande do Sul. Era um dos répteis mais comuns desses depósitos.


O crânio de Clevosaurus brasiliensis não chega a 3 centímetros. (foto: Luiz Flávio Lopes)

 

A descoberta

Durante o mestrado na UFRGS, Paulo (natural do México e hoje doutorando dessa mesma instituição), estava realizando um estudo sobre a variação morfológica da mandíbula do Clevosaurus brasiliensis. Como sabia que os rincocefálios têm o tuatara como representante atual, passou a examinar, também, o esqueleto do animal recente, depositado na coleção do Laboratório de Paleontologia de Vertebrados da UFRGS.

Ao fazer isso, notou uma área meio estranha na ponta da mandíbula do tuatara: uma superfície rugosa, com sulcos e diminutas perfurações na parte lateral. Achou curioso, pois essa região contrastava bastante com as outras regiões da mandíbula, indicando que algo diferente estava ocorrendo ali. Fazendo uma pesquisa, descobriu que tal feição era muito comum nesses répteis recentes.


Mandíbula de tuatara (Sphenodon sp.) depositada na UFRGS, com setas indicando a superfície rugosa observada. (foto: Luiz Flávio Lopes)

Então, Paulo e colegas pensaram: se essa característica ocorre na forma atual, seria possível que também estivesse presente nos rincocefálios fósseis?

Dos 17 crânios de Clevosaurus brasiliensis que foram coletados, muitos tinham a mandíbula associada, mas em apenas nove a parte lateral anterior desse osso pôde ser observada. E em cinco destas (as maiores da amostra), os pesquisadores observaram a mesma superfície áspera, que se destacava do restante da mandíbula. Novamente, foram encontrados sulcos relativamente rasos e pequenas perfurações, sugerindo, inclusive, a presença de um calo ósseo. A cor clara dos fósseis nem sempre facilitava a observação dessa feição, mas a existência de sedimento em muitas das depressões não deixava dúvidas: seja o que for, também a espécie fóssil tinha essa superfície rugosa encontrada no tuatara. Ficava a pergunta: o que teria sido a causa daquela feição anômala?


Mandíbula de um espécime de Clevosaurus brasiliensis, com detalhe indicando a superfície rugosa semelhante à observada no tuatara e interpretada como uma patologia ocasionada durante combates. (foto: Luiz Flávio Lopes)

Com o prosseguimento da pesquisa, os pesquisadores da UFRGS confirmaram uma suspeita: era uma patologia. Geralmente, sempre que se encontra uma anomalia na superfície dos ossos – tanto recentes quanto fósseis – existe a suposição de se tratar de alguma doença. Comparando com dados da literatura, os pesquisadores chegaram à conclusão de que se tratava possivelmente de osteomielite, uma inflamação óssea. Essa patologia é considerada a responsável pela superfície rugosa no tuatara. Mas como o Clevosaurus brasiliensis e o tuatara desenvolveram essa doença?

 

Combates

Nos humanos, a osteomielite é mais comum na coluna vertebral, no quadril, nos braços e nas pernas. Ela é transmitida por bactérias e, se a infecção for muito severa, passa a ser uma condição crônica.

Esses combates são de duas naturezas: entre machos, quando brigam por território, e entre fêmeas, quando competem por melhores espaços para a formação de seus ninhos

Pelos dados da literatura, no tuatara essas infecções são resultado de traumatismo causado por combates entre indivíduos. Esses combates são de duas naturezas: entre machos, quando brigam por território, e entre fêmeas, quando competem por melhores espaços para a formação de seus ninhos.

No caso do nosso Clevosaurus brasiliensis, não se pode ter certeza se os animais eram machos ou fêmeas. Aliás, o sexo em animais fósseis é muito difícil de ser estabelecido, sobretudo quando se fala de vertebrados. Porém, uma coisa é certa: a superfície rugosa encontrada em alguns indivíduos sugere que esse pequeno réptil que há milhões de anos vivia no nosso país era bom de briga!

Além da descoberta em si, o que mais me chamou a atenção é como ela foi realizada. Normalmente, o paleontólogo observa algo no seu exemplar fóssil e busca evidências nos organismos atuais para traçar paralelos e analogias, procurando entender o que tinha acontecido com aquele indivíduo extinto. Aqui, no entanto, os pesquisadores da UFRGS fizeram o contrário: observaram as formas recentes e encontraram a mesma feição nos fósseis, podendo, assim, inferir aspectos do comportamento que não se modificaram muito por milhões de anos.

Ainda tenho uma segunda dívida de 2016 para saldar! Trata-se de um material de dinossauro encontrado na Paraíba. Mas esse assunto será para a próxima coluna...

 

Alexander Kellner
Museu Nacional/UFRJ
Academia Brasileira de Ciências

 

Paleocurtas

As últimas do mundo da paleontologia
(clique nos links para mais detalhes)

Está em cartaz a exposição ‘Mostra Paleontológica Irmãos Cargnin’, que exibe fósseis e réplicas de animais extintos, com foco especial no Triássico do Rio Grande do Sul. A mostra foi organizada pelo CAPPA (Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Universidade Federal de Santa Maria), localizado em São João do Polêsine (RS), e tem sido muito bem visitada. Uma boa pedida para quem estiver na região.

Por falar em fósseis do Triássico, acaba de ser publicado na PeerJ um estudo sobre a aglomeração de espécies de cinodontes encontrados na África do Sul. Com base em uma análise detalhada do material, Sandra C. Jasinoski e Fernando Abdala (Universidade de Witwatersrand, Johannesburgo) confirmam a hipótese de que essas espécies cuidavam dos seus filhotes.

Paleontólogos publicaram na Palaeontology um estudo sobre penas fósseis de uma ave encontrada em depósitos cretáceos da China, revelando uma variedade no padrão de cores. Cada vez mais vemos métodos sofisticados auxiliando na melhor compreensão de aspectos biológicos de formas extintas.

Pesquisadores espanhóis acabam de publicar na Cretaceous Research um estudo sobre a seções histológicas de crocodilomorfos fósseis. O material pertence a uma espécie encontrada em rochas do Cretáceo da Espanha e apresenta estruturas indicativas de mudanças na velocidade de crescimento do animal que são mais condizentes com formas endotérmicas do que ectotérmicas. Muito ainda temos que aprender sobre a fisiologia de animais extintos, como esse estudo acaba de demonstrar.

A descrição de uma tartaruga gigante acaba de ser publicada pela Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology. Adán Pérez-Garcia (Faculdad de Ciencias UNED, Madrid) encontrou o que seria a última forma de grande porte desses répteis em rochas do Pleistoceno da Espanha e levantou a hipótese de que mudanças climáticas foram responsáveis pela extinção desse grupo.

Um concurso bacana: a Escola de Belas Artes, em parceria com o Museu Nacional, ambos da UFRJ, convida seus estudantes a apresentarem propostas para a criação da logomarca comemorativa de 200 anos do Museu Nacional. Consultem o edital e participem, para valorizar a instituição científica mais antiga da América Latina!

Tags:
COMPARTILHAR