15 fevereiro 2017

Um mapa dos solos do país

Programa pretende estudar todo o território brasileiro em até três décadas. O mapeamento pode ajudar a direcionar a atividade agropecuária combinada com a manutenção de florestas e apoiar políticas públicas.

Solo sofre erosão em plantio de café no estado do Rio de Janeiro. (foto: Embrapa Solos)

O país se prepara para ter um novo ‘mapa’ dos solos brasileiros. O mapeamento, com diferentes graus de detalhamento, permitirá gerar dados para o subsídio de políticas públicas, assim como para orientar a agricultura e apoiar decisões de crédito agrícola, entre outras ações. Coordenado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Programa Nacional de Solos do Brasil (PronaSolos) envolverá diversos ministérios e órgãos federais e deve mapear todos os solos do país em até 30 anos.

Segundo um dos organizadores do programa, o agrônomo Amaury de Carvalho Filho, da Embrapa Solos, hoje apenas uma pequena parte do país (cerca de 5%) conta com mapas de solos em escala 1:100 mil ou com maior grau de detalhamento. Além disso, os dados de solos disponíveis encontram-se dispersos e de difícil acesso à sociedade, o que limita ainda mais sua utilização.


Principais classes de solo do Brasil, na escala de 1: 25.000.000

“Os levantamentos pedológicos (estudos de identificação, caracterização e mapeamento de solos) começaram a ser feitos na década de 1950 no Brasil, para atender às necessidades prementes de planejamentos de caráter regional, abrangendo grandes extensões territoriais”, esclarece Carvalho Filho. “Mas, com as limitações de ordem financeira e de pessoal especializado, poucos foram os trabalhos realizados em escala de maior detalhe, o que dificulta o reconhecimento de sua utilidade e importância estratégica. Por essa razão, e uma série de outros fatores, a partir do início da década de 1990, os levantamentos sistemáticos de solos, planejados em âmbito federal ou estadual, foram descontinuados”, relata.

O agrônomo da Embrapa ressalta que esse tipo de mapeamento é imprescindível para direcionar as atividades agrossilvipastoris e de preservação ambiental, além de ser importante para outros propósitos, como a construção de estradas, a localização de cidades e áreas de deposição de resíduos e o auxílio a trabalhos de geologia.


Solo bem manejado com cultivo de hortaliças sob sistema de plantio direto em Nova Friburgo (RJ). (foto: Embrapa Solos)

O PronaSolos está orçado em R$ 5,5 bilhões de reais e deve gerar ganhos para o país já em uma década. “O mapeamento de solos contribui para gerar riquezas tanto de forma direta – como por meio do aumento da produção agrícola e da maior eficiência no uso de insumos – quanto de forma indireta, assegurando a preservação ambiental e de recursos naturais”, aponta Carvalho Filho. “Assim, os resultados obtidos com o programa contribuirão de forma significativa para o desenvolvimento do país em bases sustentáveis, além de permitirem orientar as políticas públicas em todo o território nacional e integrar ações de diversas instituições públicas, economizando esforços e recursos.”

O PronaSolos tem longa duração e está previsto para ser feito em três etapas, de curto (0 a 4 anos), médio (4 a 10 anos) e longo prazos (10 a 30 anos), com metas de trabalho distintas. Segundo o pesquisador da Embrapa, na primeira fase, serão estudados solos em áreas prioritárias, com os resultados iniciais previstos para cerca de dois anos. Pretende-se, nessa etapa, fazer o levantamento de solos e as interpretações associadas para cerca de 430 mil km2, equivalentes às áreas dos estados de São Paulo e Paraná somadas.

Na segunda fase, a meta é estender o mapeamento de solos a mais 1,3 milhão de km2 de terras agricultáveis (área equivalente à da região Nordeste) e, na terceira fase, a previsão é mapear 1 milhão de km2 em escala 1:50.000, 250 mil km2 em escala 1:25.000 e 6,9 milhões de km2 em escala 1:100.000 (cada centímetro do mapa corresponde a um quilômetro no terreno).

Como o país ficou longo tempo sem fazer esse tipo de mapeamento, um dos principais desafios do programa, para Carvalho Filho, é qualificar pessoal e constituir um corpo técnico adequado. “Outro desafio primordial é garantir os recursos financeiros para seu desenvolvimento ao longo desses 30 anos”, destaca.

 

Alicia Ivanissevich
Ciência Hoje/ RJ

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