07 abril 2017

Bobagens

Muitos ‘sábios’ da língua portuguesa se valem de correlações falsas para explicar a origem de certas palavras ou apontam inadequações de expressões e provérbios consagrados com base em uma análise superficial. Sírio Possenti aponta os absurdos de algumas dessas teses em sua coluna.

A conhecida expressão ‘risco de vida’ foi substituída nos meios de comunicação (com consequente impacto na sociedade) por ‘risco de morte’, com o argumento de que o que há de fato é o risco de morrer e não de viver. (foto: Felipe Lange Borges/ Flickr – CC BY-NC-ND 2.0)

Sérgio Rodrigues saudou, há algumas semanas, em sua coluna na Folha de S. Paulo (16/3), decisão da Rede Globo de não mais empregar (e exigir que se empregasse) a expressão ‘risco de morte’ no lugar da conhecida ‘risco de vida’. Quando impingiu a novidade – o que fez escola em outras emissoras e afins –, o argumento da empresa foi que não há risco de vida, entendida a expressão como ‘risco de viver’, mas sim risco de morte, isto é, de morrer.

Que asneira!

Mas andam por aí coisas semelhantes. Há poucos dias, até mesmo Carlos Heitor Cony, veterano escritor que sabe latim, andou cravando, também em sua coluna na Folha de S. Paulo (26/3), que ‘cadáver’ é palavra composta das primeiras sílabas de caro data vermibus, que quer dizer ‘carne dada aos vermes’.

Que besteira!

(Acrescente-se que quem pensa que a palavra deriva do sintagma português, como já ouvi – e de um médico! –, deveria alterar a palavra para ‘cardaver’).

Outros ‘sábios’ espalham por aí provérbios modificados, para ‘terem sentido’, como “quem não tem cão caça como gato”, em vez de ‘com gato’, o que, paradoxalmente (mas eles não se dão conta!), tira do provérbio todo o sentido, porque ele quer dizer exatamente que, se não se tem uma arma poderosa (metafórica), tenta-se fazer o serviço com outra, mesmo que seja menos poderosa. A única maneira de ‘anular’ esse provérbio seria mostrar que o cão nunca foi considerado mais eficaz na caça do que o gato.

No caso, ter-se-ia que apelar, talvez, para um muar.

Já ouvi (em diversos lugares, mas também de uma coordenadora de um curso de pós-graduação em educação, por este Brasil afora!!) que ‘aluno’ quer dizer ‘sem luz (e por isso os professores são importantes blábláblá).

É verdade que existe um prefixo a-, com sentido de negação (como em ‘amorfo’ – sem forma). Mas, para que a análise funcione, é preciso que o que sobra seja um morfema, que tenha sentido sistematicamente, como ocorre com ‘morfo’ (morfologia etc). Mas o que é ‘luno’? Não me digam, por favor, que é uma variante de ‘lume’ (ou mesmo de ‘luz’), porque, para que fosse, seria preciso sustentar essa equivalência na língua; por exemplo, mostrar que ‘alumiar’ seja sinônimo de um hipotético ‘alunar’, que significaria tirar a luz, apagar. Ora, ‘alumiar’ quer dizer exatamente o contrário...

Que sandice!

No fundo, naquelas teses sem sentido jaz uma ideologia: as palavras se referem – ou, pelo menos, se referiram, em alguma idade do ouro – diretamente às coisas

No fundo, naquelas teses sem sentido jaz uma ideologia: as palavras se referem – ou, pelo menos, se referiram, em alguma idade do ouro – diretamente às coisas.

Quem combate bem essa tese e descarta tal ‘bobajório’, com explicações adequadas, devidas à mudança de critérios – a língua tem uma ordem própria, é uma ‘gramática’ que explica esses casos, não uma nomenclatura –, é Oswald Ducrot, num livrinho intitulado Estruturalismo e linguística (São Paulo, Cultrix). Na origem, era parte de um volume maior, Qu’est-ce que le structuralisme; as outras partes são Estruturalismo e psicanálise, Estruturalismo e poética, Estruturalismo e antropologia, Estruturalismo e filosofia (todos os novos volumes foram publicados no Brasil).

Nas páginas 31 e 32, Ducrot explica que um grande avanço proporcionado pelo estruturalismo foi fazer rir das falsas etimologias, como, por exemplo, a que sustenta que lepus (lebre), deriva de levis (ligeiro) e pes (pé). Para que isso fosse sustentável, diz ele, seria necessário que lepus fosse um caso particular de um paradigma.

Segundo essa tese, só se pode sustentar que des- é um prefixo em ‘descolar’ (como o a- de ‘aluno’ é em ‘amorfo’), se ‘colar’ for outra forma com sentido, fora de ‘descolar’ (como de fato é). Além disso, a língua deve prover outros casos em que o processo funcione, o que ocorre, visto que existe, por exemplo, a forma ‘desfazer’, na qual des- significa o mesmo que em ‘descolar’ e existe ‘fazer’, com o mesmo sentido.

O que se segue, no livro, é ainda melhor. Mas alguém lê textos assim, quando pode fazer sucesso repetindo crendices (e sandices) na TV, em palestras e, agora, no Facebook?

 

Sírio Possenti
Departamento de Linguística
Universidade Estadual de Campinas

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