01 dezembro 2016

Entrevista

Um drible na zika

Em entrevista à CH, o imunologista Jean Pierre Peron, da USP, fala dos mecanismos usados pelo vírus para infectar o organismo, dos avanços para combater a epidemia que assola o país e dos testes para uma possível vacina para a doença.

(foto: acervo pessoal)

Em pouco mais de um ano – o primeiro caso foi anunciado em maio de 2015 –, a zika atingiu em torno de 200 mil pessoas no país. O vírus foi responsável pelo desenvolvimento anormal do cérebro (microcefalia) em mais de 2 mil bebês. Desde que a infecção foi associada à má-formação de fetos, pesquisadores de diferentes áreas se lançaram em uma corrida feroz para tentar frear o avanço dessa terrível epidemia. O próprio Ministério da Saúde criou, em maio deste ano, a rede nacional de especialistas em zika e doenças Correlatas (Renezika), que fez sua primeira reunião em 25 de outubro último. Vários trabalhos – para diagnóstico, prevenção e tratamento da doença – já têm apresentado resultados promissores.

“Iniciativas como a Renezika têm muito a contribuir no sentido de elaborar propostas factíveis e úteis à sociedade”, afirma o imunologista Jean Pierre Peron, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, que vem se dedicando a entender os mecanismos que o vírus da zika utiliza para deixar as células do sistema imune suscetíveis à infecção. “Queremos saber quanto dos danos causados pelo vírus da zika no cérebro com microcefalia é resultado de seu efeito direto, e quanto é da ação destrutiva do próprio sistema imune, ao tentar combatê-lo. São perguntas importantes, pois poderão determinar intervenções terapêuticas diferentes”, esclarece o pesquisador.

Nesta entrevista, Peron relata os avanços a que seu grupo de pesquisa chegou e fala sobre a quantas andam os testes para uma possível vacina para a zika.

 

Recentemente, seu grupo publicou um artigo na revista britânica Nature sobre a infecção pelo vírus da zika, mostrando, em modelos animais e em organoides (agregados de células humanas usados como modelos de pesquisa), que ele atravessa a placenta causando microcefalia nos fetos.  Poderia explicar como ocorre esse processo e de que forma o organismo reage à infecção?

O vírus da zika gosta de viver no sistema nervoso em desenvolvimento ou fetal. A morte dessa população de células culmina nas mal-formações observadas no cérebro dos bebês com microcefalia

O vírus da zika tem tropismo, ou seja, gosta de viver, permanecer, no sistema nervoso em desenvolvimento ou fetal. O vírus gosta dessas células por utilizar uma família de receptores (moléculas na membrana das células), chamados TAM, que estão presentes nelas em grande quantidade. Uma vez que o vírus invade essas células, elas são levadas à morte num processo chamado  apoptose. A morte dessa população de células culmina nas mal-formações observadas no cérebro dos bebês com microcefalia. Por isso, a infecção com o zika no primeiro trimestre de gestação é de maior risco.

 

Mas, ao provocar a morte das células que infecta, o vírus não estaria agindo contra sua própria sobrevivência?  O que ocorre após a infecção?

É que o vírus precisa passar por alguns ciclos de replicação e morte, até atingir um certo equilíbrio; principalmente, se pensarmos no papel do sistema imunológico. A partir de então, o dano pode ser menos intenso, mas, no caso do sistema nervoso, já é tarde demais.

 

Os modelos usados na pesquisa refletem a realidade?  É possível extrapolar os resultados observados em animais e organoides para seres humanos?

Sim. Afora algumas peculiaridades, a formação do cérebro de camundongos obedece alguns padrões também observa- dos em humanos, como a fase de migração de neurônios, por exemplo. Esta fase é crítica para um bom desenvolvimento cerebral. Quanto aos organoides, os mesmos são, de fato, derivados de células-tronco humanas – aquelas que darão origem a todas as outras células do organismo.

 

O uso de organoides tem permitido testar algumas abordagens terapêuticas. Seu grupo de pesquisa conseguiu chegar a alguma substância eficaz contra o vírus da zika que possa ser selecionada para testes em humanos? Ela poderia ser usada preventivamente em mulheres grávidas?

Não. No momento, nosso laboratório está mais voltado para estudos de imunopatologia e neuroinflamação, ou seja, queremos saber quanto dos danos causados pelo zika no cérebro com microcefalia é resultado de seu efeito direto, e quanto é da ação destrutiva do próprio sistema imune, ao tentar combatê-lo. São perguntas importantes, pois poderão determinar intervenções terapêuticas diferentes. De fato, esse é um dos principais focos de estudo em nosso laboratório, assim como ensaios com vacinas.

 

Como se comporta o sistema imunológico humano – e especialmente em gestantes – quando infectado pelo vírus da zika?

O vírus da zika é alvo, sobretudo, das células do sistema imune – o que chamamos de imunidade inata – e de moléculas chamadas citocinas, principalmente, aquelas conhecidas como interferons.

Mas, então, por que a dengue não causa microcefalia? Nem o chikungunya? Por que não tratamos a zika com o mesmo ‘remédio’ da hepatite C? São perguntas que serão respondidas com o estudo da biologia viral e da imunopatogenia da microcefalia causada pelo vírus da zika.

Entre os interferons, o IFN-α e o IFN-β são os mais relevantes. Tais citocinas são imprescindíveis na resposta imune contra as infecções por vírus, e não é diferente na resposta contra o vírus da zika. Todavia, o vírus da zika possui mecanismos de escape, por meio dos quais ele impede que essas moléculas funcionem dentro da célula, permitindo, assim, que ela se torne susceptível à invasão viral. Curiosamente, tal mecanismo também é observado na infecção pelo vírus da dengue. O vírus da dengue utiliza para entrar nas células as mesmas moléculas TAM usadas pelo vírus da zika. E, assim como para o vírus chikungunya e outros vírus, a resposta de interferon é muito importante na eliminação deles. Para citar um exemplo, um dos tratamentos para a hepatite C (causada pelo HCV) é feito com o interferon sintetizado em laboratório.

Mas, então, por que a dengue não causa microcefalia? Nem o chikungunya? Por que não tratamos a zika com o mesmo ‘remédio’ da hepatite C? São perguntas que serão respondidas com o estudo da biologia viral e da imunopatogenia da microcefalia causada pelo vírus da zika.

 

Quais são as estratégicas que o vírus da zika adota para poder se replicar no hospedeiro?

O vírus da zika tem como material genético o RNA (ácido ribonucleico), e utiliza, assim como todos os vírus, a maquinaria celular para a síntese de suas proteínas para, em seguida, montar as partículas virais. Ao ser inserido no citoplasma da célula, o RNA se transforma em proteínas pela ação dos ribossomos (organelas celulares), que sintetizam uma grande proteína viral, que depois de processada dá origem a três proteínas estruturais (capsídeo, pre-M e envelope) e sete pro- teínas não estruturais (NS1-NS5).  As proteínas estruturais se associam e formam a partícula viral, que é posteriormente liberada no meio extracelular. Esse processo é comum a vários vírus, com o da dengue e o da chikungunya.

 

A criação da Rede Nacional de Especialistas em Zika e Doenças Correlatas (Renezika) – criada em maio deste ano e à qual seu grupo de pesquisa pertence – tem permitido obter avanços significativos no estudo da doença? Como avalia o desempenho da rede até agora?

A Renezika realizou sua primeira reunião em 25 de outubro último, em Brasília. O encontro contou com especialistas de todo o país e de diversas áreas do conhecimento – é uma rede multidisciplinar, portanto.  Me pareceu uma boa iniciativa, que reúne pessoas engajadas e interessadas em contribuir para resolver esse problema tão grave em nosso país. Os grupos de trabalho, que vão de pesquisa epidemiológica a assistência à mulher, foram sugeridos nesse dia. Estou confiante.

 

Em sua opinião, ações desse tipo [criação da Renezika] são importantes para o avanço da pesquisa e o desenvolvimento de tecnologia no país?

Sem dúvida. Tais grupos, compostos de especialistas nas mais variadas áreas, desde as clínicas até as mais básicas, têm muito a contribuir no sentido de elaborar propostas factíveis e úteis à sociedade. Tenho certeza de que, se o investimento for diretamente proporcional ao entusiasmo do grupo presente na primeira reunião, teremos bons resultados.

 

Estamos perto de ter uma vacina contra a zika?

No presente momento há vários grupos focados no desenvolvimento de vacinas, tanto no Brasil como no exterior.

Em breve, iniciaremos testes para avaliar se a vacinação de camundongos de laboratório impedirá o estabelecimento da microcefalia. Estamos muito confiantes com os resultados obtidos até agora

Nosso grupo vem colaborando com Dan Barouch, da Escola Médica Harvard (EUA), tendo chegado a três vacinas que se mostraram promissoras contra o vírus da zika. Em artigos publicados recentemente, demonstramos que tanto camundongos quanto macacos Rhesus foram 100% protegidos pela vacina, não apresentando vírus no sangue, tampouco em outros fluidos corporais, como urina, líquor ou secreção vaginal. Os resultados foram muito promissores e, no momento, indivíduos saudáveis já estão sendo recrutados nos Estados Unidos para a primeira fase de testes, chamada Fase I. Em breve, iniciaremos testes para avaliar se a vacinação de camundongos de laboratório impedirá o estabelecimento da microcefalia. Estamos muito confiantes com os resultados obtidos até agora.

 

Se tudo correr como se espera, em quanto tempo teremos uma vacina?

É muito difícil dar prazos, principalmente, pela expectativa que isso causa, tanto nos cientistas quanto na sociedade. Os ensaios estão se iniciando agora. Esperamos por bons resultados.

 

Alicia Ivanissevich
Ciência Hoje/ RJ

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