Espelho, espelho meu

Outro dia estava revendo um antigo álbum com Ana Clara, minha filha de um ano e três meses. Estávamos olhando fotos que minha esposa tirou ao lado do ator Fábio Assunção. Ela identificou imediatamente sua mãe nas fotos. Porém, quando apontei para o ator e disse que era eu, Ana Clara me lançou um olhar de dúvida e reprovação. Apesar de eu não me parecer com o ator (embora não seja de se jogar fora!), fiquei me questionando sobre nossa capacidade de avaliar a beleza humana e sobre a importância que esse processo tem para nossa evolução. Será que as mulheres possuem uma preferência inata similar por certos homens ou isso é aprendido durante a vida?

Embora algumas pesquisas apontem que rostos com traços medianos tendem a ser considerados mais belos, um estudo de 1994 concluiu que traços exagerados, como os lábios grossos da atriz Angelina Jolie, podem contribuir para que um indivíduo seja considerado belo (foto: Stefan Servos).

A beleza poderia ser vista como uma característica sexual secundária, surgida evolutivamente como forma de indicar para o sexo oposto que um determinado indivíduo está apto para se reproduzir e gerar filhos geneticamente saudáveis. Na sociedade moderna, a beleza é um sinônimo de sucesso: em geral, as pessoas são muito mais atenciosas (e mesmo educadas) com indivíduos bonitos do que com os menos privilegiados nesse aspecto. Por isso, modelos atraentes são amplamente empregados na publicidade.

É claro que existe um caráter subjetivo nesse julgamento: alguém que parece bonito para mim pode não ter qualquer atrativo para você. Contudo, a ciência desenvolveu ferramentas para avaliar e definir a beleza. Uma forma bastante usada para se medir esse conceito consiste em se pedir a um indivíduo que classifique uma série de fotos de desconhecidos quanto a sua beleza.

Testes como esses indicam que rostos com aspecto mediano tendem a ser considerados mais atraentes do que aqueles que apresentam alguma característica muito distintiva (como um nariz ou lábios muito proeminentes, por exemplo). Da mesma forma, uma pele lisa, sem acne ou barba, também aumenta a chance de um individuo ser considerado belo.

Mas isso está longe de ser um critério amplamente aceito, como indica um estudo da equipe dirigida pelo psicólogo David Perrett, da Universidade de Saint Andrews, na Escócia. Em um trabalho de 1994 na revista Nature , eles mostraram que características faciais exageradas em relação à média da população podem contribuir para que um indivíduo seja considerado belo. Um exemplo disso são os grossos lábios da atriz Angelina Jolie.

Simetria e beleza
A beleza também está associada com o grau de simetria dos traços no rosto da pessoa. Apesar de nossa simetria bilateral, os lados do rosto humano são razoavelmente diferentes. Isso se deve a uma utilização maior dos músculos de um dos lados da face (do lado direito para os destros) e a pequenos acidentes, como cortes, pintas, manchas, rugas e diferenças na dentição que afetam de forma distinta os lados do rosto.

Traços comuns no rosto de bebês, como olhos grandes e lábios grossos, tendem a ser considerados atraentes no rosto de adultos (foto: Carin Araujo).

Outro fator que pode afetar o julgamento da beleza é a presença de traços infantis no rosto. Características comuns em bebês, como olhos grandes, lábios grossos e cílios longos, tendem a ser consideradas belas. A presença desses traços pode indicar uma jovialidade associada com a saúde do indivíduo. Faces com traços mais suaves e com olhos mais espaçados também são consideradas mais atraentes.

Em outro estudo, de 2002, a equipe de David Perret mostrou que as pessoas preferem rostos com características similares às de seus pais. Embora os traços juvenis sejam geralmente mais valorizados, pessoas cujos pais eram mais velhos durante a infância tendem a ser mais tolerantes com rostos com rugas e sinais de expressão.

O julgamento da beleza não é condicionado apenas por traços físicos: o estado de humor também influi, como mostra um estudo realizado pela equipe de Ben Jones, da Universidade de Aberdeen (Escócia), e publicado em 2006 na revista Proceedings of the Royal Society . Nessa pesquisa, fotos de homens sorridentes foram consideradas mais atraentes do que as de indivíduos sérios por mulheres. Indivíduos que aparentavam raiva ou medo foram considerados pouco atraentes pelas voluntárias desse estudo.

Esse estudo também concluiu que as mulheres tendem a preferir homens que outras mulheres consideram atraentes. Essa tendência também é observada entre animais: fêmeas de peixes e aves, por exemplo, tendem a se acasalar com machos que já procriaram anteriormente. Talvez esse mecanismo tenha se desenvolvido como uma forma garantir o sucesso reprodutivo das fêmeas.

Traços femininos e masculinos
Um outro estudo trouxe resultados curiosos sobre a forma como as mulheres escolhem seus parceiros. Em pesquisa publicada na Nature em 1999, pesquisadores da Universidade de Saint Andrews comandados pelo psicólogo Ian Penton-Voak utilizaram programas de computador para adicionar atributos considerados femininos em fotos de rostos masculinos.

Um estudo da Universidade de Saint Andrews, na Escócia, pediu a voluntárias que classificassem fotos de rostos de homens às quais traços femininos foram acrescentados por computador. As imagens foram selecionadas do banco de dados www.faceresearch.org , do qual foram tiradas as fotos da montagem acima.

A avaliação das fotos indicou que as mulheres preferem homens com características faciais associadas com o sexo masculino (como rostos mais quadrados, sobrancelhas mais pesadas e retas e lábios mais finos) durante o período fértil de seu ciclo menstrual. Já em outros períodos, as mesmas mulheres tendem a considerar mais atraentes homens com rostos com características mais femininas.

Mulheres que estavam utilizando contraceptivos orais não apresentaram variações significativas em suas escolhas. As escolhas também variaram menos quando foi solicitado a essas mulheres que escolhessem um parceiro para um relacionamento duradouro. No conjunto, esses resultados confirmam pesquisas anteriores que mostram que o odor dos hormônios sexuais masculinos é desagradável para as mulheres, exceto durante o período em que elas estão férteis.

Há uma possível explicação evolutiva para a “indecisão” das voluntárias em relação ao tipo de traços mais atraentes nas fotos avaliadas. Por um lado, a escolha de homens com rostos mais femininos, que indicam uma personalidade mais gentil e cooperativa, permitiria transmitir às gerações futuras genes associados com o cuidado da prole. Já os parceiros com rostos mais masculinos e de aparência mais forte garantiriam aos filhos genes relacionados com uma melhor adaptação ao ambiente.

Aparência e julgamento
Contudo, qualquer conclusão nesse campo deve ser encarada de forma cuidadosa. Devemos nos lembrar que o julgamento da beleza e a escolha de parceiros envolvem uma série imensa de fatores, que nem sempre são levados em conta nos estudos científicos. E não podemos desconsiderar os aspectos subjetivos e culturais da avaliação da beleza. O que parece belo para uma pessoa, sociedade ou época possivelmente será visto como pouco atraente em outro contexto.

A conclusão de tudo isso é que é fundamental não rotular os indivíduos por sua aparência. Por mais que a primeira impressão seja muitas vezes condicionada pelos traços físicos, os fatores fundamentais que determinarão se uma pessoa é atraente – como a sua inteligência, delicadeza e charme – só serão conhecidos após algum tempo de convivência.

Jerry Carvalho Borges
Colunista da CH On-line 
18/05/2007

SUGESTÕES PARA LEITURA
DeBruine, L.M., Jones, B.C. e Perrett, D.I. (2005). Women’s attractiveness judgments of self-resembling faces change across the menstrual cycle. Hormones and Behavior , 47(4): 379-383.
DeBruine, L.M. (2004). Resemblance to self increases the appeal of child faces to both men and women. Evolution and Human Behavior , 25: 142-154.
Jones, B.C. et al. (2007). Social transmission of face preferences among humans. Proceedings of the Royal Society of London B , 274: 899-903.
Little, A.C. e Jones, B.C. (2006). Attraction independent of detection suggests special mechanisms for symmetry preferences in human face perception. Proceedings of the Royal Society of London B , 273(1605): 3093-3099.
Little, A.C. et al. Partnership status and the temporal context of relationships influence human female preferences for sexual dimorphism in male face shape. Proceedings of the Royal Society of London B , 269(1496): 1095-1103.