Na trilha de Darwin

 

        

Mais de 170 anos depois, a história da passagem de Charles Darwin (1809-1882) pelo Rio de Janeiro está sendo resgatada. Uma expedição acaba de refazer o trajeto percorrido pelo naturalista inglês da capital em direção ao norte do estado, onde ele teve seu primeiro contato com a incrível diversidade da floresta tropical e viu de perto as condições de vida dos escravos. As observações feitas pelo cientista na viagem contribuíram para a elaboração, anos mais tarde, da teoria da evolução pela seleção natural.

O tataraneto de Darwin posa atrás da primeira placa comemorativa inaugurada durante a expedição Caminhos de Darwin, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro (fotos: Thaís Fernandes).

Durante todo o percurso, Darwin esteve bem representado: seu tataraneto, o escritor e conservacionista Randal Keynes, veio de Londres especialmente para a expedição. Keynes pôde ver o que restou da paisagem descrita por Darwin no século 19, conhecer os locais onde ele se hospedou – alguns ainda preservados –, provar comidas típicas da época e encontrar descendentes daqueles que viviam na região quando seu tataravô passou por lá. “Quando Darwin deixou o Brasil, ele sabia que provavelmente nunca mais voltaria. Sinto agora que posso dar a ele essa experiência novamente”, disse Keynes.

A expedição Caminhos de Darwin partiu do Jardim Botânico do Rio de Janeiro no dia 26 de novembro. De lá, o grupo de cerca de 50 pessoas, formado por pesquisadores, professores, estudantes, jornalistas e divulgadores de ciência, passou por outros 11 municípios em quatro dias: Maricá, Saquarema, Araruama, São Pedro d’Aldeia, Cabo Frio, Barra de São João, Macaé, Conceição de Macabu, Rio Bonito, Itaboraí e Niterói. Essas cidades localizam-se hoje no caminho percorrido a cavalo por Darwin durante 18 dias em 1832.

Roteiro turístico e científico
Em cada município visitado pela expedição, foi inaugurada uma placa comemorativa que mostra o mapa do estado com o trajeto de Darwin e anotações dele sobre o lugar. A leitura de trechos do diário do naturalista, feita pelo ator Carlos Palma caracterizado como Darwin, remetia o público ao século 19.

A intenção dos organizadores é criar um roteiro turístico, cultural, educacional e científico, que possa ajudar as pessoas a aprender mais sobre Darwin, a teoria da evolução e a história do Brasil, ressaltando a importância da preservação do patrimônio histórico e natural da região. Para mostrar o lugar privilegiado ocupado pela geologia nas observações de Darwin, foi organizada uma exposição – montada a cada parada da expedição – com rochas de todos os lugares por onde o naturalista passou, algumas delas descritas por ele.

“Estamos contando a história da nossa terra, da nossa comunidade. É importante mostrar que contribuímos para um capítulo importante da história mundial”, ressaltou Ildeu de Castro Moreira, diretor do Departamento de Difusão e Popularização da Ciência do Ministério da Ciência e Tecnologia e um dos coordenadores da expedição.

Mobilização popular
No percurso, era possível perceber o engajamento da comunidade e das escolas no projeto. Os alunos se caracterizaram como Darwin e sua esposa, Emma, e apresentaram trabalhos e esquetes teatrais sobre o tema, entre outras manifestações culturais. Em vários momentos, a comitiva foi escoltada, seja por policiais, tropeiros e até motociclistas. “A expedição foi um sucesso em todos os sentidos; mas o mais importante foi o que ficou em cada comunidade”, avaliou Moreira.

Em São Pedro d’Aldeia, um dos momentos marcantes do evento foi a simulação da chegada da expedição de Darwin (à esquerda). À direita, o grupo reconstitui a cena em que o naturalista e seus companheiros tomam café da manhã na cidade, fotografado pelo tataraneto de Darwin, ao fundo, rodeado por estudantes.

Muito simpático, o tataraneto de Darwin foi tratado como celebridade e, incansável, tirou dezenas de fotos e deu vários autógrafos. Keynes ressaltou a importância do projeto Caminhos de Darwin para fortalecer a educação científica dos jovens e a preservação da natureza. Ele lembrou que Darwin considerava a educação a única forma de tornar as pessoas livres. E completou: “O ensino fora da sala de aula foi especialmente importante para Darwin. Ele nunca ficou preso em um laboratório. Seu laboratório foi o mundo vivo.”

A figura de Darwin mostrada durante a expedição não foi apenas a do cientista que manteve sua curiosidade infantil e observava com atenção a diversidade de plantas e animais da floresta. Seu lado humanista também foi bastante lembrado. “Na escola, estudamos a teoria da evolução; aqui, descobrimos que há um Darwin preocupado com a questão social, com a escravidão e a educação”, afirmou Adryane Reis, aluna da Escola Sesc de Ensino Médio que acompanhou a expedição.

Keynes espera que a experiência brasileira inspire a realização de expedições como essa nos outros países por onde Darwin passou durante sua viagem ao redor do mundo a bordo do navio Beagle. “Gostaria que outras pessoas tivessem a oportunidade de conhecer o trabalho de Darwin vivendo o que ele viveu.”

Sobre a mesma expedição, leia também:
Impressões de um naturalista no Rio

Thaís Fernandes (*)
Ciência Hoje On-line
02/12/2008

(*) A jornalista acompanhou a expedição a convite dos organizadores