Sistema rápido e colaborativo para estudo da biodiversidade

Muitas vezes, cientistas têm problemas ao comparar estudos feitos em locais e em escalas de tempo diferentes. Um sistema desenvolvido no Brasil, chamado Rapeld, permite reunir levantamentos da biodiversidade em paisagens distintas de forma rápida e colaborativa. Com esse protocolo, é possível analisar dados coletados por diferentes pesquisadores em épocas diversas para usá-los no futuro e responder perguntas complexas.

CRÉDITO: ADOBE STOCK

O que você faria se fosse um chaveiro e recebesse a missão de abrir várias portas em diferentes lugares do país, usando a mesma chave? É difícil encontrar uma solução se as fechaduras são diferentes. Apesar desse tipo de chave não existir, no meio científico já existe uma preocupação em se encontrar uma chave (protocolo) que possa ser usada em diferentes partes do mundo para comparar coisas distintas (fechaduras). O Rapeld, criado por biólogos no Brasil, é uma dessas chaves mestras que reconhece a necessidade de um sistema padronizado que permita comparações, no espaço e no tempo necessários, para a tomada de decisões práticas, mas com a diversidade e liberdade de não inibir a inovação.

A primeira parte do nome vem da palavra rápido (RAP), porque as coletas no ambiente podem ser feitas em poucos dias – o número de dias depende do organismo estudado – quando necessário. A segunda parte deriva da possibilidade de os resultados poderem ser incluídos em Projetos Ecológicos de Longa Duração (PELD).

Colaborar é preciso

A ciência vem sendo construída com base em várias iniciativas individuais e isoladas, visando tanto à competição por dinheiro para pesquisa, quanto a publicações em revistas prestigiadas. Nesse sistema, muitas vezes os dados coletados acabam se perdendo na gaveta de algum pesquisador com o passar dos anos. O Rapeld é uma alternativa para diminuir esse viés e aumentar as possibilidades de colaboração entre pesquisadores.

No Rapeld, a maioria dos métodos de coleta é executada em parcelas de amostragem ou trilhas permanentes. Dessa forma, é possível usar dados coletados por outros pesquisadores para responder perguntas mais complexas. Também é possível utilizar as informações colhidas no passado para novos usos no futuro.

Os estudos sobre a biodiversidade precisam levar em consideração diretrizes e padronizações, pois sem elas seria como se em cada parte do país os pesquisadores utilizassem chaves diferentes para abrir portas iguais. Um exemplo é a análise dos levantamentos sobre animais, plantas e demais organismos feitos individualmente em vários locais do Brasil (figura 1).

Os estudos sobre a biodiversidade precisam levar em consideração diretrizes e padronizações, pois sem elas seria como se em cada parte do país os pesquisadores utilizassem chaves diferentes para abrir portas iguais

Figura 1. A pesquisadora Tainara Sobroza usa as trilhas e parcelas Rapeld para coletar
informações sobre conjuntos de sons no ambiente (paisagem acústica), que podem
indicar a presença de espécies de difícil visualização, como algumas espécies de
macacos

CRÉDITO DA FOTO: JOÃO VITOR CHAVES DOS SANTOS