Com a chegada do vírus da zika ao Brasil em 2015, o aumento no número de casos de microcefalia em recém-nascidos tem sido associado à infecção. Agora, pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) apresentaram mais uma prova para essa relação. Ensaios com células-tronco reprogramadas e ‘minicérebros’ mostraram que o zika vírus provoca destruição e morte celular, além de reduzir a taxa de crescimento cerebral. O estudo, liderado pelo neurocientista Stevens Rehen, do IDOR e da UFRJ, foi publicado no periódico aberto (para compartilhamento de dados) PeerJ Preprints de 2 de março e na revista Science de 8 de abril.

“Há bastante tempo trabalhamos com modelos que simulam o desenvolvimento do cérebro fetal: células-tronco neurais criadas a partir da reprogramação de células da pele ou da urina; um modelo de neuroesferas (agregados celulares similares ao começo do desenvolvimento cerebral) e os organoides, ou minicérebros, que simulam o desenvolvimento de um cérebro em período gestacional de até dois meses de idade, com características muito próximas às de um cérebro humano em desenvolvimento”, explica Rehen. Por conta da emergência sanitária nacional, o grupo de Rehen se juntou aos de colegas, como a neurocientista e especialista em microcefalia Patrícia Garcez e o infectologista Amílcar Tanuri, para ver, nesses modelos, quais seriam as consequências da infecção do zika vírus nas células nervosas.

Dois grupos de células-tronco foram testadas – um com células infectadas com o vírus e outro, o controle, permaneceu sem infecção. “Após seis dias, as células-tronco infectadas formaram de 15 a 20 neuroesferas, todas com uma configuração estranha e muito destruídas, enquanto as não infectadas mantiveram um desenvolvimento normal, formando de 200 a 300 neuroesferas”, relata Rehen. “Com a ajuda da microscopia eletrônica, olhamos dentro das células e percebemos que a destruição das organelas celulares era bastante evidente e que havia morte celular”, acrescenta. 

O estudo foi repetido em organoides com 35 dias de formação. Após 11 dias de infecção, houve uma redução de 40% do crescimento nos minicérebros infectados quando comparados com os do grupo controle. A conclusão da equipe, portanto, é que o vírus infecta as células neurais, a infecção provoca morte celular e esta reduz a taxa de crescimento dos minicérebros.

A vantagem de usar esses modelos, segundo o neurocientista, é que eles permitem estudar as consequências da infecção de forma muito semelhante ao que acontece nos seres vivos. 

O próximo passo é testar medicamentos que possam reduzir os danos causados pelo vírus no cérebro em formação. “Preciso de parcerias com empresas que considerem que têm compostos com potencial terapêutico contra o zika para podermos iniciar os testes”, diz Rehen.
 

Este texto foi publicado na seção 'Pelo Brasil', da CH 335. Clique aqui para ter acesso a uma versão digital da revista e ler outros textos da edição.

Alicia Ivanissevich
Instituto Ciência Hoje/ RJ

 
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