Ainda não existem no Brasil estatísticas precisas sobre a quantidade de pessoas que sofrem de fobia social, transtorno de ansiedade caracterizado pelo medo acentuado e persistente de ser humilhado, julgado ou criticado em situações sociais ou por seu desempenho em alguma atividade. Para viabilizar esse tipo de pesquisa, a psiquiatra Liliane Vilete, em seu mestrado realizado na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), adaptou à realidade brasileira o Inventário de Fobia Social (Spin, na sigla em inglês), instrumento utilizado nos países de língua inglesa para avaliar a freqüência do distúrbio na população.

Trata-se de um teste com 17 itens que representam situações de contato social, como festas e eventos sociais, ou de desempenho, como falar em público e fazer coisas enquanto outras pessoas observam. O entrevistado deve assinalar com que intensidade cada situação o incomoda e a cada resposta é atribuído um determinado número de pontos.
 
“O Spin é desenvolvido de acordo com a estrutura social a que ele se dirige”, esclarece o epidemiologista Evandro Coutinho, orientador do projeto e pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fiocruz. “Na Europa, por exemplo, tocar no ombro de alguém é uma demonstração de intimidade. No Brasil, contatos como esse são muito mais comuns.” Os pesquisadores ressaltam que, por diferenças como essa, não seria suficiente traduzir as questões do teste de forma literal. Foi preciso fazer uma adaptação ao contexto lingüístico e cultural do país.
 
“Algumas palavras em inglês podem ser traduzidas por mais de um termo em português, cada um com um significado próprio. Scare , por exemplo, pode significar medo, pânico ou pavor, gradações diferentes de um mesmo sentimento”, explica Vilete. “Ainda observamos casos como o da expressão rain cats and dogs (chover gatos e cachorros, na tradução literal), que não faz sentido em português”, acrescenta Coutinho.

Um olhar geral
Para a adaptação, o Spin foi inicialmente traduzido para o português de forma independente por dois psiquiatras. Em seguida, dois tradutores que não conheciam o teste converteram-no novamente para o inglês. Os pesquisadores, então, compararam as versões com o Spin original para corrigir discrepâncias e elaborar um texto final de consenso. Optou-se, ainda, por utilizar um vocabulário coloquial, com expressões familiares à população-alvo do estudo. Um pré-teste foi realizado para avaliar a compreensão do instrumento por adolescentes de escolas da rede pública do Rio de Janeiro e fazer as correções necessárias.
 
A versão final do questionário Spin foi aplicada a 398 estudantes entre 10 e 21 anos. Cerca de duas semanas depois, 190 deles preencheram o teste pela segunda vez, a fim de avaliar a confiabilidade do método. “Pudemos perceber que as pontuações obtidas nas duas aplicações foram semelhantes, o que sugere uma boa estabilidade do teste”, conta Vilete. Agora a equipe, que foi co-orientada pelo psiquiatra Ivan Figueira, do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pretende comparar os resultados obtidos com o Spin a resultados de outros instrumentos de avaliação.

Outro passo a ser dado é determinar, na pontuação total, o limite entre as pessoas que sofrem ou não de fobia social. O resultado, no entanto, não pode ser interpretado como um diagnóstico médico individual. “Como existe margem de erro, esse instrumento só é eficaz para avaliar massas”, adverte Coutinho. “As pessoas que suspeitam apresentar fobia social devem procurar um psiquiatra para uma entrevista mais precisa e detalhada.”

Catarina Chagas
Ciência Hoje/RJ

 

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