Dividindo um cubo em ‘partes iguais’

Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (campus Bento Gonçalves)

Você já deve ter visto, em pisos, paredes ou tetos, aqueles mosaicos feitos com ladrilhos ou cerâmicas. Por vezes, o resultado visual é impressionante, uma verdadeira obra de arte. Mas talvez você não saiba que essa técnica milenar é também tema de estudo da matemática, que a expande, por exemplo, do plano para o espaço tridimensional. Essa passagem para uma dimensão extra tem muito a ver com uma pergunta aparentemente simples: de quantas formas diferentes podemos dividir um cubo em ‘partes iguais’?

CRÉDITO: ADOBE STOCK

Descobertas relativamente recentes apresentam uma solução geométrica engenhosa para promover o empacotamento dos epitélios, tecidos que recobrem as superfícies dos órgãos. São os chamados escutoides, estruturas tridimensionais que podem ser repetidas continuamente e encaixadas uma à outra, como um tipo de ‘Lego’, de forma a cobrir o espaço tridimensional de forma organizada e ‘bem comportada’ – isto é, sem sobreposições ou ‘furos’ (figura 1).

Figura 1. Exemplos de escutoides, figuras geométricas tridimensionais presentes na estrutura de tecidos epiteliais

CRÉDITO: CEDIDO PELO AUTOR

Essas descobertas ilustram o fato de que compreender e explorar a natureza de estruturas tridimensionais não é um tema isolado e exclusivo da matemática. Essa pesquisa demanda articulações com diferentes áreas do conhecimento.

Outra dessas áreas é a cristalografia, ciência que estuda a estrutura atômica e molecular de materiais sólidos cristalinos. Nela, o estudo do preenchimento ordenado e periódico do espaço tridimensional por átomos, íons ou moléculas tem papel fundamental no entendimento das estruturas cristalinas e propriedades dos materiais.

Ladrilhamento do plano

É muito provável que você já tenha visto um pedreiro assentar ladrilhos ou cerâmicas em chãos, paredes ou tetos – às vezes, produzindo mosaicos complexos e harmoniosos com essas peças. Em matemática, esse procedimento é denominado ladrilhamento no plano – tema muito comum e amplamente discutido nessa área do conhecimento.

As únicas formas que podem ser repetidas ilimitadamente – de modo a cobrir um plano, sem sobreposições ou ‘buracos’ – são três tipos de polígonos regulares: triângulos equiláteros, quadrados e hexágonos.

Isso decorre do fato de que esses polígonos são os únicos cujos ângulos internos (respectivamente, 60º, 90º e 120º) são divisores de 360º. Pentágonos e octógonos também podem ser regulares – com ângulos internos medindo, respectivamente, 108º e 135º –, mas não se encaixam de forma a cobrir completamente (ou seja, ladrilhar) o plano (figura 2).

Figura 2. Quadrados, hexágonos regulares e triângulos equiláteros são os únicos polígonos capazes de ladrilhar o plano; não se pode fazer isso com outras figuras igualmente regulares, como octógonos e pentágonos, porque o ladrilhamento deixa ‘buracos’

CRÉDITO: CEDIDO PELO AUTOR

Há outras formas de ladrilhar um plano com padrões mais complexos do que a repetição de um único tipo de polígono regular. Esses padrões envolvem o uso de polígonos não regulares (figura 3) ou de composições de diferentes tipos de polígonos regulares (figura 3B) – exemplo deste último caso é o emprego de ‘quadradinhos’ para preencher o ‘buraco central’ deixado pela composição de octógonos (figura 2).

A determinação de polígonos não regulares que ladrilhem o plano pode levar a problemas matemáticos bem sofisticados. Embora esse tema seja explorado há muito tempo, só recentemente um grupo de matemáticos nos Estados Unidos descobriu um novo padrão de ladrilhamento com pentágonos não regulares (figura 3C), por exemplo.

Figura 3. Ladrilhamento no plano: em A, com vários polígonos não regulares; em B, com composição de polígonos regulares; em C, destaque para padrão de ladrilhamento recém-descoberto, com uso de pentágonos não regulares

CRÉDITO: Cedido pelo autor/ https://zap.aeiou.pt/ (A e C)

Há também técnicas de ladrilhamento do plano com o uso de formas irregulares construídas a partir de polígonos regulares. O artista holandês M. C. Escher (1898-1972) se destacou por explorar brilhantemente essas técnicas.

Basicamente, a ideia é partir de figuras básicas e, fazendo recortes convenientes, gerar novas figuras que se encaixam – ajustadas por rotações, reflexões e translações. No campo artístico, esses ladrilhamentos podem, ainda, ser decorados com outros elementos – isso pode ser feito digitalmente ou, por exemplo, com o uso de post-it (figura 4).

Figura 4. Técnica de ladrilhamento no plano com o uso de formas irregulares construídas a partir de polígonos regulares (no caso, um quadrado ou post-it); recortes convenientes geram novas figuras que se encaixam por rotações, reflexões e translações

CRÉDITO: CEDIDO PELO AUTOR

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