Drogas, a urgência de um debate sem tabus

Conclusões do diálogo entre uma professora do ensino médio e um médico dedicado a estudos de epidemiologia e prevenção do uso de substâncias entorpecentes.

Como falar sobre drogas na escola? A questão é relevante para professores, pais, estudantes e para a sociedade como um todo. O primeiro passo é alinhar o currículo às necessidades dos alunos, fugir do discurso moralista e priorizar a informação. Esclarecer, mas manter um debate franco, permitirá avanço na busca por soluções.

Lícitas, mas perigosas

O perigo de cada droga não está diretamente relacionado à substância ser lícita ou não. A Justiça e as ciências biomédicas avaliam as substâncias por critérios diferentes. Em artigo publicado por David Nutt na The Lancet, uma das revistas médicas mais conceituadas, são definidos critérios mais abrangentes para classificação da periculosidade de drogas. De acordo com essa classificação, o álcool, apesar de lícito, é a droga mais perigosa em termos clínicos e também de segurança, uma vez que seus danos potenciais não são somente individuais, mas coletivos.

Apesar de a maconha ser considerada por muitos o ‘gatilho’ para o consumo de outras substâncias mais danosas, é importante reconhecer a falha desse conceito, pois não há um único fator responsável por isso, e sim múltiplas causas. Se tivéssemos que priorizar um ‘gatilho’, este seria o álcool, por ser muito mais consumido.

 

A influência no desempenho escolar

Sem dúvida, as drogas são agravantes para a queda de desempenho de um aluno, mas há outros problemas mais amplos e anteriores a isso que precisam ser considerados. Diversos artigos internacionais mostram que os alunos que entraram para as estatísticas de evasão escolar, mesmo antes de se envolverem com drogas, já não apresentavam bom rendimento. Outros fatores relevantes são: desnutrição, pobreza, abandono parental, comunidades em conflito, ressurgimento de doenças da primeira infância. Ou seja, o desenvolvimento cognitivo está muito mais relacionado a fatores familiares e ambientais, que em longo prazo podem resultar em condições clínicas associadas ao uso de drogas.

A dificuldade do domínio da linguagem é, aliás, um desafio a mais para os programas de prevenção, pois é essencial que a mensagem esteja adequada ao nível de informação que o estudante consegue absorver.

 

Drogas e doenças psiquiátricas

Por falar em causa e consequência, frequentemente relaciona-se uso de drogas a problemas psicológicos. De fato, há uma relação, mas a direcionalidade não é conhecida. Há uma tendência à vulnerabilidade de filhos de pais com esquizofrenia, bipolaridade ou transtornos compulsivos. Há também quem faça uso da droga equivocadamente com a intenção de se automedicar diante de sintomas como ansiedade.

 

Além da predisposição

Ainda que existam fatores hereditários genéticos importantes em relação ao uso prejudicial e à dependência, assim como a distúrbios psicológicos, a vulnerabilidade ambiental do indivíduo talvez seja mais influente na expressão dessas características que seu código genético em si. Hábitos de vida e o ambiente social podem modificar o funcionamento dos genes e dar origem a características que são transmitidas entre gerações. Essa herança é chamada de epigenética. Dados recentes mostram que fatores como o consumo de álcool pelos pais, ambientes mais ou menos acolhedores, entre outros,têm importante papel na modificação da expressão genética. Predisposição, portanto, não é algo determinante.

 

Consumo durante a gestação

Um tópico relevante é o impacto das drogas durante a gestação, cujos riscos são imensos e frequentemente desprezados. É consenso científico que os três primeiros meses de gestação são críticos em relação à vulnerabilidade a substâncias e ao desenvolvimento fetal. Apesar de haver controvérsias sobre o nível de tolerância ao consumo de álcool durante esse período, essa é a droga mais problemática, por ser socialmente aceitável e ter ampla difusão. O crack tem o impacto mais severo, mas é usado por um número reduzido de gestantes. A maconha também tem menos abrangência e impacto, mas, segundo estudos, está relacionada a problemas de desenvolvimento neurológico e comportamentais do bebê.

 

Danos à saúde

Relacionar o consumo por si só de um tipo de droga a um efeito colateral na saúde ou no funcionamento de um órgão é um erro, uma vez que existem outros fatores a serem considerados, como tempo de uso, frequência, quantidade, metabolismo, nutrição etc. É preciso observar o ser humano como um sistema integrado.

Outra questão é o consumo de duas ou mais substâncias concomitantemente. Essa é uma zona cinza para a ciência, pois é difícil conhecer os efeitos combinados de determinadas drogas. Além disso, é preciso levar em conta a composição alterada de substâncias, como bebidas alcoólicas e tabaco sem regulação. A overdose, por sua vez, é questão de saúde pública, mas não tem estatísticas confiáveis, por ser de difícil diagnóstico.

Drogas mais perigosas, classificadas em função dos danos causados ao usuário, de seus impactos sobre o crime e seus efeitos socioeconômicos, com base em análise feita no Reino Unido.
Fonte: Independent Scientific Committee on Drugs(The Lancet, 2010).

Em busca de soluções

Diante desse cenário, quais as alternativas? Melhorar a produção, o acesso e a difusão de informação qualificada, além de elevar a qualidade da assistência médica aos usuários. A prisão de usuários não é uma boa alternativa, pois sobrecarrega o sistema penitenciário, onde o consumo prossegue.

Em relação à legalização da maconha, há pontos a favor – como maior abertura para o uso medicinal e regulação das substâncias consumidas, tanto em sua composição quanto na oferta – e negativos – como a possibilidade de modelos que dão certo no mundo serem pervertidos no Brasil, por interesses políticos ou econômicos. No entanto, a legalização em países hegemônicos, como em alguns estados dos Estados Unidos e no Canadá, tem impacto em políticas mundiais, e pode influenciar a situação brasileira.

Daniela Salles de Vilhena

Aluna do Mestrado Profissional em Ensino de Biologia em Rede Nacional (ProfBio)

*Artigo resultante de entrevista com o médico Francisco Inácio Pinkusfeld Monteiro Bastos, pesquisador titular do Laboratório de Informação em Saúde do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz

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