Uma decisão para toda a vida

Instituto de Biologia
Universidade Federal da Bahia

Escolher bem um lugar para viver é fundamental para a sobrevivência das espécies. No caso das esponjas marinhas, essa escolha ocorre na fase larval. As larvas nadam ativamente buscando o substrato ideal para se fixar e usam diferentes estratégias para selecionar o ambiente adequado onde o adulto passará toda a vida.

CRÉDITO: ADOBE STOCK

Uma decisão tomada nas primeiras horas de vida determina o resto de sua trajetória na Terra. Estamos falando das esponjas, animais que não se movimentam (sésseis) e filtram a água para realizarem suas funções biológicas. Pertencentes ao filo Porifera, as esponjas são seres aquáticos – a grande maioria marinha – e vivem filtrando a água.

Elas têm feito isso, sem grandes modificações, por mais de 700 milhões de anos no planeta. Seu corpo é bem simples: possuem um intrincado sistema de câmaras e canais por onde a água passa – o chamado sistema aquífero. O fluxo da água é gerado pelo batimento dos flagelos dos coanócitos, um dos seus principais tipos celulares.

Em conjunto, essas células formam uma estrutura conhecida como câmara coanocitária – existindo milhares delas dentro do corpo de um indivíduo. Algumas esponjas podem bombear todos os dias uma quantidade equivalente a centenas de vezes seu próprio volume. Estimativas indicam que um recife de cerca de 100 m², com abundância moderada de esponjas, filtraria o equivalente a mais de uma piscina olímpica por dia.

As esponjas não se parecem em nada com um animal típico. Elas não têm músculos, nem sistema nervoso. Todo o seu funcionamento é feito em nível celular. Porém, é importante frisar que há um grau elevado de integração entre as diferentes partes da esponja, fazendo com que sejam mais do que simples agregados celulares.

Uma de suas principais características é que elas são sésseis – seu poder de locomoção é nulo. Exceto por algumas espécies que conseguem se deslocar a velocidades lentíssimas (poucos milímetros por dia), a maior parte das esponjas adultas fica parada no mesmo lugar durante toda a sua vida, que pode ser muito longa.

Alguns indivíduos no Caribe têm idade estimada em mais de 2 mil anos! Trata-se de animais que vivem associados ao fundo dos oceanos ou de corpos de água doce, preferencialmente em substratos consolidados – aqueles duros, como pedras e paredões rochosos. Esse é o tipo de ambiente em que muitos organismos marinhos gostam de viver e há, portanto, uma intensa competição por espaço.

Para garantir o espaço necessário para se fixarem e crescerem, as esponjas desenvolveram um arsenal químico usado na sua proteção. Isso é essencial, uma vez que elas vivem presas ao substrato, não podendo fugir ou se esconder de predadores e competidores.

O mais interessante é que as espécies têm preferências diferentes no que diz respeito ao ambiente onde querem passar a vida. Algumas esponjas gostam de ambientes ensolarados; outras de locais embaixo de pedras, protegidas da luz e de predadores. Umas são encontradas semienterradas na areia; e outras acabam por escavar o esqueleto dos corais para viver dentro deles.

 

As esponjas não se parecem em nada com um animal típico. Elas não têm músculos, nem sistema nervoso. Todo o funcionamento delas é feito em nível celular

A fase móvel das esponjas

Apesar de estarem presas ao substrato quando adultas, as esponjas dispõem de uma fase de vida móvel, conhecida como estágio larval. Para alcançar esse estágio, as esponjas precisam se reproduzir.

Esponjas produzem gametas (espermatozoides e ovócitos) como todos os outros animais. Algumas espécies são hermafroditas (produzindo os dois gametas dentro do mesmo indivíduo), enquanto outras são gonocóricas (quando um indivíduo só é capaz de produzir um único tipo de gameta, ou seja, teríamos esponjas macho ou fêmea).

Os espermatozoides são liberados na água, filtrados pela esponja que tem os ovócitos, e a fertilização acontece dentro da esponja-mãe. Em alguns casos, ambos os gametas são liberados pela esponja e a fertilização acontece na coluna d’água (figura 1, fase 1). Independentemente de onde ocorre a fertilização, o zigoto resultante passa por um desenvolvimento embrionário, que resulta na formação de uma larva livre e natante (figura 1, fase 2).

Processo de formação e assentamento das larvas de esponjas

Figura 1. Processo de formação e assentamento das larvas de esponjas. Fase 1) Espermatozoides e ovócitos são produzidos pela esponja adulta e irão se encontrar para realizar a fertilização. Fase 2) Após a fertilização, o zigoto passa por divisões celulares para formar um embrião multicelular. Fase 3) No final da embriogênese, é formada a larva, que é capaz de nadar usando os cílios. Fase 4) Em águas rasas, esse anel pigmentado detecta a luz e transfere as informações para células com cílios longos, que funcionam como lemes e direcionam a larva para a luz (4a) ou para locais sombreados (4b). Fase 5) Uma vez que a larva encontra o substrato, ela vai verificar se ele é adequado ou não. Fase 6) Quando encontra o local ideal, a larva assenta no substrato, sofre a metamorfose e então forma uma esponja jovem

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