O padrão de atividade de animais como roedores, cuícas e gambás, mais vulneráveis à predação por outras espécies, pode variar com as fases da Lua. Essas presas potenciais evitam a Lua cheia, pois a intensidade luminosa pode facilitar sua captura por predadores noturnos. Um estudo com animais de uma estação ecológica paulista sugere que esses padrões dependem das espécies de presas analisadas, pois cada uma tem características físicas e comportamentos diferentes.
 
Ao longo da história, muitos fenômenos foram creditados à influência da Lua sobre a Terra e sobre os seres vivos, como o crescimento dos vegetais e do cabelo, a gestação, o parto e até a loucura. Muitas dessas crenças foram desmentidas pela ciência – ou no mínimo não foram comprovadas. Por outro lado, a atração dos oceanos pela Lua, que causa as elevações periódicas de suas águas (as marés), e os movimentos semelhantes que esta induz nas porções sólida (marés de crosta) e gasosa (marés de atmosfera) do planeta são exemplos de efeitos do satélite sobre o planeta já desvendados pela ciência atual.
 
Muito tem sido descoberto sobre a influência da luminosidade da Lua na vida de animais noturnos. Um estudo sobre o efeito da Lua nas atividades do coelho europeu ( Oryctolagus cuniculus ) mostrou que esse animal é realmente mais ativo durante os períodos de Lua nova, ou seja, quando a noite é mais escura. Tal comportamento foi interpretado como uma maneira de reduzir o risco de predação por raposas ( Vulpes vulpes ) e doninhas (gênero Mustela ) na Escócia. A luminosidade da Lua também parece influenciar o padrão de atividade de certas aves noturnas (como um curiango da América do Norte, Phalaenoptilus nuttallii ), de morcegos (como Syconycteris australis , da Nova Guiné), de algumas abelhas (como Xylocopa tranquebarica ) e até de serpentes (como a cascavel Crotalus viridis ).
 
No caso de roedores e de marsupiais (cuícas e gambás), a explicação mais plausível encontrada pelos pesquisadores para a maior atividade em noites mais escuras é a de que esta é uma maneira de ficarem menos expostos aos predadores (como no caso do coelho europeu). Predadores que utilizam a visão para caçar beneficiam-se da luminosidade da Lua cheia para aumentar seu sucesso na captura de presas. Experimentos feitos em 1945 pelo zoólogo norte-americano Lee R. Dice (1887-1977), com duas espécies de coruja em cativeiro – a suindara ( Tyto alba ) e a coruja-buraqueira ( Athene cunicularia ) – demonstraram que ambas caçam melhor com maior luminosidade.
 
O efeito da Lua sobre as atividades de mamíferos noturnos já foi bem documentado para algumas espécies, como roedores em desertos da América do Norte e de Israel. Em experimentos com a presença de um predador como a coruja e iluminação simulando a Lua cheia, certos roedores alimentam-se menos e procuram permanecer em locais mais protegidos, isto é, com mais vegetação. Por outro lado, há animais que mostram não se importar com a luminosidade em noites de Lua cheia.
 
Um exemplo está nos ratos-cangurus (como os do gênero Dipodomys ), assim chamados por se locomoverem sobre duas patas e aos saltos. Eles parecem ser mais eficientes na detecção de seus predadores, pois só evitam ambientes abertos com a presença real do predador. Assim, não alteram seu comportamento a partir de sinais indiretos de risco de predação (iluminação lunar, por exemplo), como fazem os ratos quadrúpedes. Além disso, constatou-se que o rato-canguru tem audição mais eficiente que a dos outros ratos, pois suas bulas timpânicas (cavidades ósseas que abrigam a orelha média) são maiores, o que o torna mais sensível a certos sons produzidos pelos predadores.
 

Para avaliar as espécies de maior atividade noturna, foram instaladas armadilhas na Estação Ecológica de Itaripina. Os resultados indicam que o rato silvestre Calomys tener (A) corresponde a mais de 80% da comunidade de pequenos mamíferos na Estação. O outro rato silvestre capturado no estudo, Oligoryzomys nigripes (B), tem patas traseiras grandes e rabo comprido, o que permite saltos e mudanças de direção nas fugas.

Exceto por uns poucos trabalhos, o efeito da Lua sobre as espécies tropicais permanece parcamente conhecido. Por esse motivo, foi realizado, entre agosto de 2001 e julho de 2002, um trabalho na Estação Ecológica de Itirapina, localizada nos municípios de Itirapina e Brotas, em São Paulo, para testar a hipótese de que os pequenos mamíferos brasileiros também alteram suas atividades em relação às fases da Lua em áreas de vegetação aberta, como nos cerrados. A pesquisa foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pela organização não-governamental World Wildlife Fund (Fundo Mundial para a Vida Selvagem).

Adriana de Arruda Bueno e
José Carlos Motta Júnior ,
Instituto de Biociências
Universidade de São Paulo.

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