Espécies bioindicadoras: sentinelas da natureza

Departamento de Genética, Ecologia e Evolução, Instituto de Ciências Biológicas
Instituto de Estudos Avançados Transdisciplinares
Universidade Federal de Minas Gerais

Como organismos são capazes de monitorar condições ambientais

Ilustração Leonardo Marujo

No texto anterior desta coluna (CH 433) foi destacada a capacidade da biodiversidade em ocupar diferentes hábitats, incluindo ambientes extremos. Essas propriedades adaptativas dos organismos dependem de oportunidades e recursos para sobrevivência e reprodução, mas também das capacidades fisiológicas e comportamentais intrínsecas de cada espécie, além da variabilidade genética moldada pela seleção natural ao longo das gerações.

O resultado desse processo evolutivo é uma gama de espécies com diferentes adaptações e níveis de dependência do ambiente. Muitas espécies se tornam generalistas, pois conseguem sobreviver em muitos tipos de ambiente ou se alimentar de vários recursos. Por exemplo, entre as tartarugas-marinhas existem espécies com dietas generalistas, como a tartaruga-cabeçuda, e outra que se alimenta principalmente de esponjas nos recifes, a tartaruga-de-pente. De forma parecida, entre os mamíferos xenartros, muitos tatus habitam diferentes ecossistemas e se alimentam de diversos recursos vegetais e animais, mas seus parentes, os tamanduás, são extremamente adaptados à mirmecofagia, isto é, se alimentam exclusivamente de formigas e cupins.

Embora essas dietas especializadas sejam vantajosas em alguns contextos, espécies especialistas normalmente apresentam maiores chances de extinção no longo prazo do que as generalistas. A associação entre uma determinada espécie e seu ambiente, sua fonte de alimento, solo, água, relevo, umidade, temperatura, pressão atmosférica, além de outras espécies competidoras, predadoras etc., é chamada de “nicho realizado”, que é muito mais amplo nas espécies generalistas do que nas especialistas.

Algumas espécies de animais, plantas e microrganismos necessitam de condições únicas ambientais e podem desaparecer quando o ambiente é alterado, portanto funcionam como bioindicadoras da qualidade do ambiente. Em alguns casos, espécies bioindicadoras também podem indicar impacto antropogênico por poluição química, radioativa etc. A ocorrência, a abundância relativa, a taxa reprodutiva, a estrutura e a função da comunidade de espécies bioindicadoras também permitem o monitoramento da qualidade ambiental ao longo do tempo. Por exemplo, muitos invertebrados estão relacionados à ciclagem de nutrientes, à decomposição, à produtividade secundária, à polinização, à dispersão de sementes e à regulação das populações de algumas plantas e de outros organismos. Alguns insetos são usados rotineiramente na prática agrícola. Por exemplo, a Embrapa desenvolveu um método de amostragem de cupins dos gêneros Rhynchotermes e Syntermes para o biomonitoramento da qualidade de solos submetidos a diferentes tipos de adubação.

Nos ambientes aquáticos, o monitoramento da qualidade da água é feito por muitas espécies sensíveis a diferentes parâmetros que podem indicar poluição orgânica (esgoto etc.) ou por químicos diversos, além de alterações de pH da água. A presença de algumas espécies animais como o pato-mergulhão, nomeado “embaixador das águas fluviais brasileiras”, indica águas de altíssima qualidade nas nascentes de alguns rios das bacias dos rios São Francisco (Serra da Canastra), Paraná (Paranaíba) e Tocantins (Jalapão), no bioma Cerrado do Brasil.

Monitorar a presença direta dessas espécies bioindicadoras pode ser uma atividade muito complexa e demorada, mas para isso foram desenvolvidos métodos indiretos de identificação desses organismos a partir de amostras de solo, água e ar. Alguns desses métodos fazem a caracterização do DNA ambiental usando técnicas de sequenciamento chamadas metabarcodes e metagenômica. Quantidades ínfimas de material genético dos organismos bioindicadores podem ser recuperadas e sequenciadas em laboratório, permitindo a identificação das espécies e fazer o diagnóstico da qualidade ambiental. Por exemplo, pesquisas com DNA ambiental recuperado de solo, água e ar de diferentes regiões do Brasil estão permitindo entender melhor os impactos das mudanças climáticas nos mangues, restingas e na Floresta Amazônica.

Atualmente, existem algumas redes mundiais, regionais e nacionais de biomonitoramento ambiental que investigam desde poluição até questões de saúde pública, como zoonoses. O princípio por trás desses monitoramentos ambientais está nas adaptações de diferentes espécies bioindicadoras que se estabeleceram em condições ambientais específicas durante suas histórias evolutivas particulares.

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