O adeus a Ennio Candotti

Um dos nomes fundamentais para a divulgação científica e para a ciência brasileira, o físico Ennio Candotti morreu, aos 81 anos, em 6 de dezembro deste ano. Junto com o físico Alberto Passos Guimarães, o neurocientista Roberto Lent e o geneticista Darcy Fontoura (1930-2014), Ennio fundou a Ciência Hoje em 1982. A revista era mais que uma publicação inovadora e pioneira, era parte do movimento de redemocratização do Brasil.

CRÉDITO: FOTO FELIPE FITTIPALDI

“O mundo estava se transformando, e estávamos dando a nossa pequena contribuição. Esse movimento foi essencial para criar o clima que justificou todos os sacrifícios, as noites mal dormidas e os esforços necessários para criar uma revista, movendo montanhas”, disse Ennio, em entrevista concedida no ano passado, na celebração de 40 anos do projeto: “Já em 1984, havia um movimento pelas diretas crescendo, pela redemocratização. E a Ciência Hoje estava na linha de frente dos manifestos pró-democratização. A revista estava bastante engajada, era objeto de atenção e de militância”.

A seguir, Alberto Passos Guimarães e Roberto Lent relembram o amigo e companheiro de jornada na criação do projeto Ciência Hoje.

Um fazedor

Roberto Lent

CRÉDITO: FOTO ACERVO CIÊNCIA HOJE

Se vivo fora, e o conhecera, o poeta Manoel de Barros diria que Ennio Candotti era um fazedor. Um fazedor de ideias. Conheci Ennio ali pela segunda metade dos anos 1970, quando me tornei secretário-regional da SBPC no Rio de Janeiro. Apareceu-me junto com Luiz Pinguelli Rosa no laboratório do Instituto de Biofísica, onde eu fazia meu doutorado, dizendo que tinha várias ideias para realizarmos juntos. Conversando aqui e ali, também junto com outro físico, Alberto Passos Guimarães Filho, surgiu-nos o delírio de criar a primeira revista brasileira de divulgação científica. Reunimos e fosforilamos a ideia, coloquei tudo no papel, mas não consegui realizá-la e marchei para meu pós-doutorado nos EUA em 1979. Pois não é que Ennio me telefona um dia no início de 1982, dizendo que tinha conseguido de Lynaldo Cavalcanti Filho, presidente do CNPq, recursos para um “número zero” experimental da revista Ciência Hoje. Pediu-me um artigo urgente, que o tal número zero seria lançado em julho na reunião anual da SBPC em Campinas. Ninguém acreditou, a não ser Crodowaldo Pavan, presidente da SBPC. Só que saiu o zero, o um, o dois, e lá se foi até hoje a mais de 400. Ennio era incansável: reuniu o Conselho Editorial da revista e propôs uma Ciência Hoje das Crianças. Pensou e fez: saiu a CHC, grande sucesso de público e de renda para tornar realidade duradoura o Instituto Ciência Hoje, também obra do nosso fazedor que perdemos. Depois foi o Jornal da Ciência, obra sua junto com o jornalista José Monserrat Filho. Ennio incansável. Propôs a um grupo argentino a criação de uma Ciencia Hoy por lá, e lá ficou um tempo para fazer a ideia se tornar realidade. Éramos amigos próximos nesses primeiros tempos, ele e Maria Elisa foram padrinhos de minha filha Isabel. Ennio lutador. Foi para São Paulo, tornou-se presidente da SBPC e peleou heroicamente pela ciência brasileira e pela divulgação científica, em quatro mandatos. Muito justamente, foi aclamado presidente de honra da sociedade. Querem mais? Incansável de novo, mudou-se para Manaus onde fundou o Museu da Amazônia, que dirigiu até que o vento o levou, como diria de novo o poeta. Foi-se o nosso Ennio, mas deixou conosco uma lembrança indelével: seus fazimentos em divulgação e política científica que se espalham pelo Brasil até hoje. Agora nos faz saudade.

Um inventor

Alberto Passos Guimarães*

CRÉDITO: FOTO JEIZA RUSSO DIVULGAÇÃO MUSA

Quando as pessoas me pedem que eu descreva o Ennio, que eu fale de suas qualidades, eu sempre destaco a criatividade. Ele era muito, muito criativo e original. A capacidade de trabalho dele era extraordinária, mas a inventividade, de fato, se destacava.

Eu me lembro de uma reunião em que ele trouxe, pela primeira vez, a proposta da revista Ciência Hoje das Crianças. Algumas pessoas riram, acharam aquela uma ideia delirante. E, vejam vocês, foi a virada mais importante da história da Ciência Hoje, que viabilizou financeiramente a continuidade de todo o projeto.

Outra iniciativa surpreendente dele foi ajudar a comunidade argentina a criar a Ciencia Hoy. Ele foi morar um ano em Buenos Aires para criar a revista, e lá não havia o apoio de uma SBPC. A publicação deu um impulso à divulgação científica lá e foi a semente de uma estrutura similar à SBPC.

Esses foram dois pontos de inflexão, e acrescentaria também a criação do MUSA (Museu da Amazônia). A cidade estava avançando sobre os limites da floresta, e o museu ajudou a protegê-la. Foi algo além da divulgação científica.

Outra ideia dele muito original era o “Ciência às seis e meia”. Nos anos 1980, havia o projeto “Seis e meia” musical, com shows nesse horário para atrair as pessoas que saíam do trabalho e queriam evitar o trânsito.

Não posso deixar de mencionar o Jornal da Ciência, que ele criou junto com a esposa dele, a física Maria Elisa da Costa Magalhães, e o jornalista José Monserrat Filho. Hoje o jornal continua e é distribuído para milhares de pessoas.

Essas iniciativas caracterizam a marca que Ennio deixou na divulgação científica e na ciência brasileira.

Além de criativo e inventivo, Ennio também carregava piano, trabalhava muito. Naturalmente, ele preenchia os espaços relacionados à administração. Na Ciência Hoje, por exemplo, ele cuidava até da impressão das revistas, uma etapa importantíssima. Essa capacidade de ação, esse pé no chão, ele demonstrou também na direção da regional Rio da SBPC e na presidência da SBPC.

Ennio era uma dessas pessoas que reúnem essas duas características: era inventivo com essa capacidade de fazer acontecer.

 

*Em depoimento à redação da revista Ciência Hoje

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