A partir do sucesso da série, físico que identificou acidente com césio no Brasil relembra uma das piores tragédias radiológicas já registradas e destaca ação de cientistas e autoridades
A partir do sucesso da série, físico que identificou acidente com césio no Brasil relembra uma das piores tragédias radiológicas já registradas e destaca ação de cientistas e autoridades
CRÉDITO: DIVULGAÇÃO

Um equipamento de teleterapia é deixado numa clínica de radioterapia desativada em Goiânia. Dois catadores o encontram e levam o cabeçote para a rua 57, no centro da cidade. Dentro dele, havia um pó azul brilhante que parecia valioso. O que não sabiam era que se tratava de um material radioativo, com potencial de se espalhar e contaminar dezenas de pessoas. A história poderia ser uma obra de ficção, mas aconteceu em 1987. Quase 40 anos depois, o desenrolar desse desastre é resgatado na série “Emergência radioativa”, sucesso na Netflix.
Em cinco episódios, a série mostra como o tal pó azul que brilhava no escuro – o césio-137 – se revela uma ameaça letal, provoca pânico e ganha as manchetes internacionais. Mais de cem mil pessoas foram monitoradas no antigo estádio olímpico. Ao menos 249 pessoas tiveram algum grau de contaminação, e quatro morreram. Poderia ter sido pior, não fosse a atuação rápida de médicos, cientistas e autoridades – um esforço destacado na série e expressado principalmente no personagem vivido pelo ator Johnny Massaro e inspirado no físico Walter Mendes Ferreira, a primeira pessoa a identificar a contaminação e acionar a rede de emergência da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).
“A série é representativa do ponto de vista científico. Há certo drama, claro, mas mostra toda a mobilização de 244 técnicos da CNEN e 124 de instituições parceiras que trabalharam durante 90 dias para descontaminar a cidade. As cenas revelam à geração mais nova a gravidade daquele acidente, o quinto maior já ocorrido envolvendo algum tipo de material radioativo, incluindo os acidentes nucleares de Chernobyl e Fukushima”, conta Walter, hoje chefe de Divisão de Emergência Radiológica da CNEN.
“A série é representativa do ponto de vista científico. Há certo drama, claro, mas mostra toda a mobilização de 244 técnicos da CNEN e 124 de instituições parceiras que trabalharam durante 90 dias para descontaminar a cidade. As cenas revelam à geração mais nova a gravidade daquele acidente”
Walter Mendes Ferreira, físico
Na série, uma vez identificado o perigo, uma funcionária da Vigilância Sanitária liga para o Corpo de Bombeiros para que retirassem o material de lá. Walter confirma que isso aconteceu. E que ele chegou a tempo de impedir que um dos bombeiros, já com um saco plástico com o cilindro metálico na mão, o jogasse no Rio Capim Puba, que abastece Goiânia.
O edifício da Vigilância Sanitária foi isolado, e Walter foi até o endereço da Maria Gabriela, que havia levado o cilindro até a Vigilância Sanitária. Ela era esposa de Devair, dono do ferro-velho para quem os catadores tinham vendido a cápsula com o césio.
Chegando ao local, o detector de radiações voltou a acusar a presença do material radioativo. Devair não estava. Mas dois funcionários do local, Israel e Admilson, confirmaram que ele tinha comprado a cápsula de outros dois catadores, que a haviam retirado de um prédio abandonado do Instituto Goiano de Radioterapia. Israel e Admilson morreram semanas depois.
Walter foi informado por um dos médicos do instituto que, por uma demanda judicial, um novo local havia sido designado para receber uma fonte de cobalto – também usada em aparelhos de teleterapia – com a devida aprovação da CNEN, mas a fonte de césio tinha sido deixada para trás até a construção de uma nova instalação.
“Ele não acreditou quando informei que, provavelmente, a fonte de césio havia sido retirada do Instituto e violada. Em seguida, ele e dois sanitaristas foram onde funcionava a clínica. Já não havia porta, estava tudo abandonado. E o cabeçote com a fonte de césio não estava mais ali”, lembra Walter.
A essa altura, o isolamento da Vigilância Sanitária já tinha despertado curiosidade e pânico na população. A Secretaria da Saúde e o governo do estado foram acionados. Jornalistas questionavam as autoridades. Faltava acionar a CNEN.
“Quando liguei para o diretor do Departamento de Instalações Nucleares na época, dr. José Júlio Rozental, e disse que a fonte havia sido violada, ele ficou mudo do outro lado. Logo começamos a discutir o que fazer. Era preciso agir rápido”.
O governador de Goiânia na época, o médico Henrique Santillo, convocou a Defesa Civil, e ficou decidido que o estádio olímpico receberia as pessoas contaminadas. Todas elas seriam abrigadas em barracas para avaliação dos técnicos e médicos.
“Por uma dessas coincidências, dr. Santillo tinha conhecimento de higiene das radiações. Na série ele aparece nervoso, mas não, era uma pessoa extremamente calma. Começamos a identificar as pessoas com contaminação no ferro-velho. Os primeiros a serem recolhidos foram o dono, o sr. Devair, e os outros dois catadores de papel. Ele estava tranquilo, não questionou a determinação para abandonar o local, como aparece na série. Ele foi para um ônibus, com os dois catadores. Em seguida, fomos para o segundo ferro-velho, do irmão dele, sr. Ivo. Ele, sua esposa e a filha Leide também foram recolhidos e encaminhados para o estádio olímpico”, lembra Walter.

Além dos técnicos do CNEN e de instituições parceiras envolvidos na descontaminação da cidade, incluindo 60 integrantes da Escola de Instrução Especializada do Exército, cerca de 400 pessoas do estado de Goiás fizeram o apoio logístico, auxílio médico e transporte dos rejeitos radioativos para o depósito provisório de Abadia de Goiás. O trabalho durou até dezembro daquele ano. Sete focos foram isolados na cidade como os mais contaminados
“A série mostra que Devair tinha uma casa e um ferro-velho. Na realidade, ficavam no mesmo lugar, era uma área muito grande. Quando Devair recebeu o material, ele colocou numa prateleira no ferro-velho. À noite, segundo relato dele, verificou que o cilindro tinha um conteúdo de cor azulada. O césio não tem essa coloração, mas combinado com o aglutinante, provavelmente água, ele reage e apresenta essa cor. Devair viu e achou que teria um valor comercial. Pegou o material, levou para dentro de casa e começou a falar com os irmãos e familiares. O material ficou circunscrito aos parentes próximos. Conseguimos identificar outras pessoas com contaminação, conversando com cada membro da família. Por acharem que tinha algum valor comercial, o material não se espalhou mais”, explica Walter.
A CNEN criou uma equipe de busca e denúncia para monitoramento da população, impulsionada pelo presidente da comissão na época, Rex Nazaré Alves.
“Foram do dr. Rex Nazaré Alves as decisões sobre formação de equipes, unidades ambientais, instrumentação nuclear, proteção radiológica, busca e denúncia, rejeitos e transporte, além de constituir um porta-voz para falar com a população sobre as ações executadas diariamente pelas equipes da CNEN, uma vez que se começou a levantar a correlação do acidente radiológico em Goiânia com o acidente nuclear de Chernobyl. Chegaram a criar o termo ‘Goianobyl’”, conta Walter.
A equipe de busca e denúncia monitorou 112.800 pessoas no Estádio Olímpico. Destas, 249 estavam contaminadas – 129 com contaminação interna e as demais com contaminação em sapatos e roupas. Também havia monitoramento em residências, quando solicitado por meio do telefone 191, instalado nas dependências do estádio. Todas as pessoas irradiadas são acompanhadas até hoje pelo Centro de Assistência aos Radioacidentados Leide das Neves Ferreira.
“Quatro pessoas acabaram falecendo. Uma foi Maria Gabriela, que primeiro percebeu que aquele material era o responsável pela intoxicação nas pessoas. A atuação dela foi fundamental. A série mostra que ela levou o cilindro, com outro ajudante, diretamente para a Vigilância Sanitária, mas não foi exatamente assim. Ela primeiro tentou vender o cilindro, contido dentro de um saco plástico, para outro ferro-velho. Em seguida, tomou um ônibus e levou o cilindro até a Vigilância Sanitária. Isso foi real”, afirma Walter.
O cilindro foi depositado sobre uma cadeira e, devido à alta taxa de dose, foi concretado no dia seguinte, e levado, posteriormente, para Abadia de Goiás. A manifestação da população, contrária à instalação do depósito ali, foi real. Mas a escolha do local, diz Walter, teve embasamento científico: “A CNEN pesquisou outras áreas, e os estudos mostraram que, geologicamente, aquele tipo de solo era o mais estável para reter o césio sem risco de nova contaminação”.
“Não tive medo. O que mais me impactou foi a retirada de casa da menina Leide (filha de Ivo, de 6 anos). Ela era uma fonte ambulante, muito contaminada. E não resistiu. Aquilo me marcou.”
Walter Mendes Ferreira, físico
Convidado por Rex Nazaré, Walter passou a integrar o quadro de servidores da CNEN. Os ensinamentos com o acidente em Goiânia revolucionaram a resposta a emergências dessa natureza.
“Não havia plano de emergência para esse tipo de acidente. Novos protocolos, plano de emergência, procedimentos e normas regulatórias, protocolos médicos, plano de comunicação e criação de fundamentos jurídicos e leis para esse tipo de acidente foram criados. Hoje as exigências legais e regulatórias para o trabalho com material radioativo são extremamente rígidas”, conta o físico.
Além disso, a CNEN passou a oferecer cursos de emergência e treinamentos específicos para todas as instituições parceiras, como da Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e Forças Armadas.
O sucesso no streaming Walter fez reviver.
“Não tive medo. O que mais me impactou foi a retirada de casa da menina Leide (filha de Ivo, de 6 anos). Ela era uma fonte ambulante, muito contaminada. E não resistiu. Aquilo me marcou.”
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