Natureza, a farmácia dos bichos

Programa de Pós-graduação em Ecologia e Evolução
Universidade Estadual de Feira de Santana

Para prevenir ou tratar doenças, os animais se ‘automedicam’, usando plantas, argilas, insetos e fungos. Essa automedicação animal é chamada ‘zoofarmacognosia’. Presente em diversos grupos, a prática surge por instinto ou aprendizado, e oferece vantagens, como redução de parasitas e infecções. No Brasil, vários animais usam estratégias medicinais naturais, revelando comportamentos complexos e importantes para conservação e pesquisa científica.

CRÉDITO: ADOBE STOCK

A ideia de que apenas seres humanos usam remédios é equivocada. Nas últimas décadas, pesquisadores que observam o comportamento animal (etólogos) descobriram algo surpreendente: muitas espécies utilizam plantas, argilas, insetos e até fungos para melhorar sua saúde. Esse comportamento recebeu o nome de zoofarmacognosia, termo que significa ‘conhecimento farmacológico dos animais’.

Embora pareça algo sofisticado, a zoofarmacognosia não é um comportamento raro ou excepcional. Pelo contrário: ela aparece em diferentes grupos, como primatas, aves, insetos, répteis e até mamíferos domésticos – cães e gatos, por exemplo, que mastigam e engolem capim para eliminar vermes intestinais ou para aliviar algum mal-estar estomacal.

O que antes era visto como simples ‘instinto’ hoje é entendido como um conjunto de estratégias evolutivas que ajudam os animais a sobreviver, combater doenças e aumentar suas chances de reprodução.

O que antes era visto como simples ‘instinto’ hoje é entendido como um conjunto de estratégias evolutivas que ajudam os animais a sobreviver, combater doenças e aumentar suas chances de reprodução

Automedicação animal

A automedicação animal ocorre quando um indivíduo usa substâncias naturais – que não fazem parte de sua dieta normal – para prevenir ou tratar doenças. Isso inclui plantas com compostos medicinais, argilas capazes de neutralizar toxinas, insetos ou outros artrópodes e resinas com propriedades repelentes, bem como frutos fermentados ou fungos com efeitos analgésicos ou antiparasitários.

É importante destacar que automedicação não significa que os animais ‘sabem’ o que estão fazendo no sentido humano da palavra. Eles não estudam química nem farmacologia. Mas, ao longo da evolução, comportamentos que traziam benefícios à saúde foram sendo selecionados e transmitidos entre gerações, muitas vezes até aprendidos socialmente dentro de grupos.

A automedicação traz vantagens claras: reduz parasitas internos e externos; diminui infecções; melhora a digestão; aumenta a fertilidade; e protege filhotes e grupos sociais. Esses benefícios superam os custos, como o risco de intoxicação ou o gasto de energia para buscar substâncias específicas. Por isso, comportamentos de automedicação foram mantidos ao longo da evolução.

Os pesquisadores classificam a automedicação em quatro categorias principais: deglutição sem mastigação; ingestão com mastigação; aplicação tópica e medicação social.

No primeiro caso, alguns animais engolem folhas inteiras, sem mastigar, para ‘varrer’ parasitas do intestino. As folhas são ásperas e passam pelo sistema digestivo como uma espécie de escova natural. Um exemplo famoso é o que foi documentado entre os chimpanzés na África. Esses primatas engolem folhas de Vernonia amygdalina, que ajudam a expulsar vermes intestinais.

Na segunda categoria, o animal mastiga e ingere plantas específicas porque elas contêm substâncias químicas com efeito medicinal, como taninos, alcaloides ou óleos essenciais.

Já, na aplicação tópica, o indivíduo esfrega no corpo substâncias com propriedades repelentes, antifúngicas ou antibacterianas. Isso inclui frutas cítricas, resinas, folhas aromáticas e até insetos e outros artrópodes. Esse comportamento é comum em aves e primatas (figura 1).

Figura 1. A aplicação tópica de substâncias com propriedades repelentes, antifúngicas ou antibacterianas encontradas na natureza é comum em aves e primatas

CRÉDITO: FOTO ERALDO COSTA NETO

CONTEÚDO EXCLUSIVO PARA ASSINANTES

Para acessar este ou outros conteúdos exclusivos por favor faça Login ou Assine a Ciência Hoje.

Outros conteúdos desta edição

725_480 att-100513
725_480 att-100580
725_480 att-100637
725_480 att-100653
725_480 att-100565
725_480 att-100560
725_480 att-100659
725_480 att-100711
725_480 att-100705
725_480 att-100730
725_480 att-100474
725_480 att-100476
725_480 att-100436
725_480 att-100674
725_480 att-100683

Outros conteúdos nesta categoria

725_480 att-100513
725_480 att-100078
725_480 att-98771
725_480 att-96531
725_480 att-96715
725_480 att-96109
725_480 att-95671
725_480 att-95233
725_480 att-94726
725_480 att-94351
725_480 att-93909
725_480 att-93355
725_480 att-93041
725_480 att-92598
725_480 att-92056