Narrativas de escravizadas brasileiras

Departamento de Letras
Instituto Multidisciplinar
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (campus Nova Iguaçu)

Relatos produzidos por homens e mulheres que viveram os horrores da época da escravização tiveram seu período de maior circulação no século 19, muito atrelados ao movimento abolicionista. Essas chamadas ‘narrativas de escravizados’ podem ser consideradas como autobiografias e se inscrevem em um campo de estudos literários já consolidado em países anglófonos. No Brasil, essa área de pesquisa vem se expandindo e ganhando terreno no mercado editorial.

CRÉDITO: ILUSTRAÇÕES MITTI MENDONÇA

Peço a Vossa Senhoria pelo amor de Deus

 ponha os olhos em mim ordenando digo mandar 

ao procurador que mande para a fazenda de onde me tirou

 para eu viver com meu marido e batizar minha filha.

(Trecho da carta escrita por Esperança Garcia em 1770)

Os relatos em primeira pessoa de africanas e africanos escravizados constituem as chamadas ‘narrativas de escravizados’ – gênero também utilizado e difundido em língua inglesa como  ‘Slave narratives’ – e se inscrevem em um campo de estudos literários já consolidado nos Estados Unidos, na Inglaterra e em outros países anglófonos que viveram a experiência traumática do tráfico transatlântico.

Em artigo publicado na revista Estudos Avançados (USP, n° 96), Maria Clara Sampaio e Marília Ariza descrevem narrativas de mulheres escravizadas nos Estados Unidos no século 19: “Nos dois lados do Atlântico, os relatos em primeira pessoa que transmitiam os horrores do tráfico e da escravidão nas Américas foram, desde cedo, reconhecidos como ferramentas poderosas de sensibilização social para a causa abolicionista. Surgidas num momento de crescimento e popularização da imprensa abolicionista, essas narrativas caíram nas graças de um amplo público leitor do mundo atlântico de língua inglesa. O sucesso do gênero da narrativa escrava se deu, em larga medida, por combinar, a um só tempo, a militância política a certo tom de aventura e peripécias marítimas aos cenários exotizados dos relatos de viagem.”.

Esses relatos produzidos por homens e mulheres que viveram as agruras da época da escravização tiveram seu período de maior circulação no século 19, muito atrelados ao movimento abolicionista. Alguns desses textos foram produzidos de próprio punho e outros tiveram a mediação da escrita realizada por outras pessoas que dominavam essa habilidade, em função da ausência dos códigos de escrita por parte dessas autoras e autores. 

Os temas mais recorrentes envolviam a rotina do cativeiro e da liberdade, alforrias, assim como a conversão religiosa e o cenário político das lutas abolicionistas e antiescravistas, com o objetivo de se somar a outros textos abolicionistas da época.

Os temas mais recorrentes envolviam a rotina do cativeiro e da liberdade, alforrias, assim como a conversão religiosa e o cenário político das lutas abolicionistas e antiescravistas, com o objetivo de se somar a outros textos abolicionistas da época

Maria Clara Sampaio nos conta, em artigo publicado na Revista de História Comparada (UFRJ, v. 16, 2022) que a publicação e a circulação dessas narrativas começam a se tornar mais comuns, nos Estados Unidos, na segunda metade do século 18, com forte presença de elementos da esfera cristã da experiência de escravizados e escravizadas. “Assim, muitas das narrativas escravas publicadas por volta dos anos 1830, nos Estados Unidos, passaram a incorporar a questão da conversão (ou afirmação) para a fé cristã (protestante) como parte importante das características que comporiam o gênero literário”, descreve Sampaio. “Posteriormente, para além das comunidades protestantes, majoritariamente batistas e metodistas, as organizações abolicionistas e ligadas à luta pelo fim do tráfico transatlântico passam a se interessar em publicar esse gênero de texto com o objetivo de instrumentalizá-lo em diferentes frentes das lutas políticas antiescravistas”.

Espaço no mercado editorial

Esse tipo de obra tem conquistado a cada dia um lugar dentro do mercado editorial brasileiro. O número de traduções de autobiografias, biografias, memórias e relatos de escravizados vem caindo no gosto do público leitor do país. Algumas dessas obras são: Frederick Douglass: Autobiografia de um escravo (2021), A interessante narrativa da vida de Olaudah Equiano (2022), A autobiografia de um poeta-escravo – Juan Francisco Manzano (2015), além da história do violinista que nasceu livre e foi escravizado depois de capturado, Solomon Nortup, que ganhou as telas do cinema com o título homônimo de 12 anos de escravidão. 

Por essa mesma via, também chegaram os relatos de mulheres escravizadas, que, por meio de seus olhos, dão outras descrições à vida cotidiana entre o espaço da casa e do campo nos Estados Unidos escravagista. É o caso de Harriet Ann Jacobs, cujos relatos mostram como transcorria a vida familiar: “Nasci escrava, mas só tive consciência disso depois de seis anos de idade de infância feliz. Meu pai era carpinteiro, e considerado tão inteligente e habilidoso em seu ofício que, quando se tratava de construir edifícios fora do comum, mandavam-no chamar; até mesmo em lugares distantes, para chefiar o trabalho. Sob a condição de pagar à senhora 200 dólares por ano e manter-se, tinha a permissão de exercer seu ofício e tomar conta de seus próprios negócios”.

Esse fragmento, publicado em português com o título Incidentes na vida de uma menina escrava (2019), permite conhecer meandros da rotina de uma família de escravizados, para além dos castigos físicos, evidenciando profissões e habilidades que esses homens e mulheres tinham.

O gênero ‘narrativas de escravizados’ nos Estados Unidos compõe as obras fundadoras do que se conhece como literatura afro-americana. Mas, uma inquietação me acompanha, porque no caso brasileiro, o último país a abolir a escravidão, este gênero literário não se difundiu?

Outro relato, também disponível em português, é E eu não sou uma mulher? E outros discursos, de Sojourner Truth (2019). Sojourner foi uma abolicionista e ativista que defendia os direitos da mulher. Ela nasceu escravizada, mas fugiu com sua filha em 1826 e, depois de enfrentar os tribunais para recuperar seu filho, tornou-se a primeira mulher negra a ganhar um processo contra um homem branco.

O gênero ‘narrativas de escravizados’ nos Estados Unidos compõe as obras fundadoras do que se conhece como literatura afro-americana. Mas, uma inquietação me acompanha, porque no caso brasileiro, o último país a abolir a escravidão, este gênero literário não se difundiu?

No Brasil, temos um importante volume de biografias de escravizados produzidas por historiadoras e historiadores. Destaco os trabalhos O alufá Rufino (2011) e Domingos Sodré: um sacerdote africano, de João José Reis (2008), e ‘Sinhás pretas’, de Sheila de Castro Faria (2018), e De escrava a dona: A trajetória Da Africana Mina Emília Soares Do Patrocínio no Rio De Janeiro do século 19, de Juliana Barreto Farias (2012). Porém, a categoria biográfica na experiência no território brasileiro, interpretada à luz da literatura, ainda é escassa.

Pistas a seguir

Muitas perguntas ainda precisam ser respondidas no escopo dos estudos literários brasileiros para tentar entender essas ausências, mas podemos seguir algumas pistas. Entre elas, a diferença dos processos abolicionistas no Brasil e nos Estados Unidos, o controle e censura dos textos que circulavam no país, a fragilidade da imprensa régia, o desinteresse de um público leitor em formação, além dos recursos, não oficiais, aos códigos de escrita por parte de homens e mulheres escravizados e libertos, o que comprometia sua circulação.

Com a consolidação do campo da literatura negro-brasileira, outras autorias, personagens e imagens estão sendo reveladas. Como bem afirma Cuti (Luiz Silva, intelectual negro contemporâneo), “a literatura negro-brasileira nasce na e da população negra que se formou fora da África, e de sua experiência no Brasil” (2010). Partindo desse pressuposto, reconhecer as experiências autorais do século 19 de autores e autoras negras brasileiros, escravizados e libertos sempre chamou a minha atenção. 

Por isso, é importante destacar o trabalho de Lígia Fonseca Soares, ao organizar os escritos de Luiz Gama em diferentes obras. Ressalto aqui, em especial, o livro Com a palavra Luiz Gama – Poemas, artigos, cartas e máximas (2011). Existe também o livro infantil Quando a escrava Esperança Garcia escreveu uma carta (2012), em que a autora Sonia Rosa, se inspira na carta produzida pela escravizada em 1770, endereçada ao governador da capitania do Piauí denunciando os maus tratos. Essa carta foi encontrada no arquivo público do Piauí pelo pesquisador Luiz Mott, em 1979.

Mergulhar nas vivências dessas mulheres africanas e suas descendentes no século 19, por meio de seus testamentos, estilhaça as histórias que comumente circulam sobre a condição feminina

A ausência da materialidade do suporte ‘narrativa de escravizados’ não deve ser percebida pelos estudos literários no país como uma inexistência dessa experiência de relatos em primeira pessoa, por africanos e africanas, cativos e libertos que viveram no Brasil. Na realidade, a tarefa da investigação é localizar outras fontes, onde essas vozes apareçam.

Foi a partir da leitura de testamentos de mulheres forras do século 19 que tenho identificado um conjunto de relatos singulares. E, para orientar meu olhar, a aproximação com os estudos filológicos vem se constituindo em uma rotina importante para entender os caminhos de edição dessa fonte primária.

O fascínio pela vida privada, suas tensões, as vivências de foro íntimo sempre me atraíram e, pensando em meu ofício de professora de literatura, me interessa estar atenta aos fatos que forjaram as narrativas do século 19, o comportamento das famílias brancas brasileiras, tanto as de origem mais abastadas como as das classes populares. São histórias que atravessam gerações, como experiência comum de um padrão da vida nacional. 

Mergulhar nas vivências dessas mulheres africanas e suas descendentes no século 19, por meio de seus testamentos, estilhaça as histórias que comumente circulam sobre a condição feminina, além de evidenciar o protagonismo e autonomia dessas mulheres na preservação de seus familiares, sobre as possibilidades que construíram de acúmulo de bens materiais, na relação de trabalho e conexão com seus pares escravizados e libertos, além de sua vinculação com a cidade.

O testamento de Maria Roza

Para este artigo, a personagem escolhida é Maria Roza da Conceição. Conseguimos identificar em seu exercício autobiográfico, construído de maneira mediada, a apresentação, seus bens e beneficiados, por meio de testamento publicado em 1858. O documento produzido por demanda dessa africana de nação Mina está sendo utilizado com referências literárias, o que possibilita desvelar as várias camadas que um texto possui. Neste texto, ficaremos restritos a sua apresentação pessoal e de sua família, por meio de seu testamento de 1858, 30 anos antes da abolição. Os textos reproduzidos são fiéis aos originais e não sofreram correção ortográfica.

Li e reli mais de uma vez todas as tramas que envolviam a história dessa mulher, descrita por seu testamenteiro, que inclui trechos como este: “Certifico que, revendo o [livro] atual do Registro de Testamentos de número duzentos e cinco, nele a folhas duzentos e cinquenta e nove se acha registrado o testamento com que faleceu Maria Roza da Conceição preta forra de Nação Mina, achando‐se doente de causa de moléstia e temendo a morte, partilha infalível da humanidade”.

A descrição padrão feita pelo escrivão que registrava os desejos pós-morte de Maria Roza, em seu testamento, dá lugar a um relato em primeira pessoa, afetivo e cheio de detalhes sobre a intimidade dessa africana: 

“Determinei fazer meu testamento para que depois de minha morte se dessem as disposições de última vontade que aqui estabeleço pela maneira seguinte. Sou católica apostólica romana e na fé de Jesus Cristo tenho servido e espero morrer. Sou solteira e neste estado tenho três filhos de nome Maria Roza, casada com Domingos José Pedro, Ignez Joanna Francisca, casada com Francisco Jozé Ferreira, e Paulo Bruno os quais reconheço por meus legítimos filhos como se fossem nascidos de matrimônio, declaro mais que tendo falecido minha filha Maria Cândida da Conceição, casada com Prudêncio Manoel Gomes Ribeiro, ficaram-lhe dois filhos, aliás duas filhas de nomes Amélia e Deolinda, as quais, representando sua falecida mãe, com os outros meus três filhos são meus legítimos e universais herdeiros e como tais os reconheço e instituo. 

Nomeio por meus testamenteiros em primeiro lugar a João, digo Julião Jozé Leite, em segundo lugar a Ernesto Frederico da Costa em terceiro lugar a Antônio Ramos aos quais peço e rogo queiram aceitar este encargo e serem benfeitores da minha alma independente de prestação de fiança, pois os hei por abonados em [juízo] e fará dele. Meu enterro fica à disposição de meu primeiro testamenteiro a quem rogo que faça o mais simples possível e sem nenhum aparato e mandará dizer por minha alma duzentas missas de esmola do costume. 

Deixo a minha escrava Maria das Dores, Mina, a minha filha Maria Roza da Conceição. Deixo a minha escrava Joanna, Mina, a minha filha Ignez Joanna Francisca. Deixo as minhas netas Amélia, digo as minhas netas Amélia e Deolinda filhas de sua falecida filha Cândida Maria da Conceição, digo filhas de minha falecida filha Cândida Maria da Conceição a minha escrava Maria Antônia, Mina. Declaro que tenho em meu poder a quantia de duzentos e cinquenta mil reis pertencentes a minha filha Maria Roza da Conceição, a qual lhe será entregue por meu testamenteiro. Deixo a meu filho Paulo Bruno meu prédio sito no mangue da Cidade Nova, e [o que] há [neste] Lúcio crioulo filho de Maria do Bonfim, Mina (…) depois de lido este instrumento perante por mim Tabelião assinando a rogo da testadora que não sabe escrever assinei na testemunha Jozé Antonio.”

O desafio de reconstruir a biografia de mulheres negras libertas, pelo viés literário, concedendo a esses textos a categoria da autobiografia, possibilita se pensar em um alargamento da ideia desse gênero literário

Esse documento revela diferentes momentos da vida de Maria Roza, identifica seus filhos, netos, companheiros, informa sobre sua religião – ela se declara católica. Diz que possui filhos, mas era solteira, e os considerava como se tivessem sido fruto de um casamento, de uma cerimônia religiosa. Maria Roza era uma pessoa de posses, segundo a fonte do trabalho de pesquisa, o que surge são quantias em dinheiro, propriedades, um terreno, além de escravos.

Aparece também toda uma genealogia, e uma rede de parentesco vai sendo construída, revelando os desejos de que seus pertences e bens fossem repartidos, a prioridade dos beneficiários, entre tantas outras abordagens que se podem propor a partir desse fragmento.

O que, de maneira sucinta, apresentamos aqui faz parte de um percurso preliminar de uma pesquisa, que vem adquirindo contornos e esforços que não estão ancorados em um lugar seguro, para as envolvidas, que são os estudos literários. Porém, o desafio de reconstruir a biografia de mulheres negras libertas, pelo viés literário, concedendo a esses textos a categoria da autobiografia, possibilita se pensar em um alargamento da ideia desse gênero literário, que, segundo Philippe Lejeune, não tem tradição de proximidades com práticas discursivas das camadas populares. 

Lejeune afirma em sua obra Pacto Autobiográfico que “escrever e publicar a narrativa da própria vida foi por muito tempo, e ainda continua sendo, em grande medida, um privilégio reservado aos membros das classes dominantes. O “silêncio” das outras classes parece totalmente natural: a autobiografia não faz parte da cultura dos pobres”.

Entendemos essa afirmação de Lejeune, como uma análise parcial e formal da ideia de autobiografia, pois a população negra esteve alijada do processo, por causa das condições de vida e situação de cativeiro ou restrição de acesso aos estudos, em especial no século 19. A publicação, neste caso específico, de um texto dessa natureza produzido pela narrativa de uma africana forra, assim como tantas outras desse mesmo período, demanda uma sensibilidade para recuperar rastros biográficos em outros suportes que não se restringem aos livros.

*Os textos reproduzidos neste artigo são fiéis aos originais e não sofreram correção ortográfica

CARNEIRO, Sueli. Enegrecer o Feminismo: A Situação da Mulher Negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero. Geledés, 06/03/2011. Disponível em https://www.geledes.org.br/enegrecer-o-feminismo-situacao-da-mulher-negra-na-america-latina-partir-de-uma-perspectiva-de-genero/

FARIAS, Juliana Barreto. Mercados minas: africanos ocidentais na Praça do Mercado do Rio de Janeiro (1830-1890). Rio de 93 Janeiro: Prefeitura do Rio/Casa Civil/Arquivo Geral da Cidade do Rio, 2015.

FELISBERTO, Fernanda. “Testamentos de mulheres forras no século XIX” disponível https://www.cartacapital.com.br/blogs/sororidade-em-pauta/testamentos-de-mulheres-forras-no-seculo-xix/, acesso 10 de novembro de 2023.

FIGUEIREDO, Eurídice. Como fazer a autobiografia de um negro… e inovar. In: GALLE, Helmut; OLMOS, Ana Cecília; KANZEPOLSKY, Adriana; e IZARRA, Laura Zuntini (Orgs.). Em primeira pessoa: abordagens de uma teoria da autobiografia. São Paulo: AnnaBlume, Fapesp e FFLCH-USP, 2009.

LE GOFF, Jacques – História e Memória. Campinas, SP: Editora Unicamp, 2013.

XAVIER, Giovana, FARIAS, Juliana Barreto e GOMES, Flávio (orgs.) Mulheres Negras no Brasil escravista e do pós-emancipação. São Paulo: Editora Selo Negro, 2012.

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