A implementação das chamadas ‘Soluções baseadas na Natureza’ (SbN) é estratégica para aumentar a resiliência climática das cidades brasileiras – especialmente, diante da intensificação de eventos extremos, como enchentes, ondas de calor e deslizamentos.
Por exemplo, a recuperação de áreas verdes urbanas, a proteção de mananciais, a restauração de matas ciliares e a adoção de infraestrutura verde (parques lineares, jardins de chuva e telhados verdes) contribuem para a regulação do microclima, a redução de ilhas de calor e o controle do escoamento hídrico superficial.
Além de mitigar riscos climáticos, essas soluções aumentam a qualidade de vida, fortalecem a segurança hídrica, assim como reduzem custos públicos associados tanto a obras da engenharia tradicional (concreto, aço, asfalto etc.) quanto à resposta a desastres. Ou seja, quando realizadas em conjunto, promovem uma adaptação mais eficiente, inclusiva e de longo prazo.
Com a crescente concentração da população global em grandes centros urbanos, a expansão desordenada e a ocupação irregular de áreas vulneráveis a eventos climáticos extremos são situações cada vez mais comuns. E, no Brasil, onde quase metade da população reside em cidades litorâneas, essa vulnerabilidade é ainda maior. Felizmente, ainda que de modo incipiente, algumas cidades têm investido na elaboração e implementação de planos de mitigação e adaptação às mudanças climáticas.
Por exemplo, Santos – cidade litorânea de São Paulo que abriga o maior porto internacional do Brasil – está situada em uma ilha estuarina, com grande parte de sua área urbana localizada em zonas de baixada, o que a torna altamente vulnerável a inundações, ressacas e deslizamentos de terra nas encostas.
Em 2022, Santos lançou seu Plano de Ação Climática, que envolveu: i) o desenvolvimento de um Índice de Risco Climático e Vulnerabilidade Socioambiental (ICVS); ii) a implementação de SbNs, como a defesa costeira da região da Ponta da Praia; iii) a recuperação de parte de seus manguezais e suas restingas; iv) adaptações baseadas em ecossistemas, como o replantio de vegetação de encostas para retenção de águas pluviais e redução dos riscos de deslizamento.
Recife, no litoral de Pernambuco, é frequentemente citada, em relatórios do IPCC, como uma das cidades mais suscetíveis no mundo à elevação do nível do mar, por causa de sua geografia majoritariamente plana e entrecortada por rios e canais.
Por isso, desde 2021, Recife vem implementando seu Plano de Adaptação Setorial (PAS), cujos objetivos incluem nortear a redução de suas vulnerabilidades atuais e promover o crescimento sustentável, considerando cenários climáticos futuros. Entre as principais ações previstas está a incorporação do conceito de cidade-esponja ao planejamento municipal, com a construção de parques projetados para serem alagáveis, atuando como bacias de contenção temporárias durante chuvas torrenciais.
Mas não é só no litoral que as cidades estão se preparando. Teresina, capital do Piauí, vem enfrentando temperaturas cada vez mais extremas, sendo a adaptação ao calor o principal eixo da ‘Agenda Teresina 2030’. Nesse projeto, inclui-se o aumento da arborização da cidade, a criação de hortas urbanas, o incentivo ao uso de materiais reflexivos para diminuir a retenção de calor em pavimentos e coberturas de prédios, bem como o aumento da integração de corpos hídricos à paisagem urbana.
Já no âmbito das principais atividades econômicas do Brasil (agropecuária, geração de energia, turismo e indústria), as SbNs são fundamentais para garantir a estabilidade produtiva e a competitividade nesse cenário de mudanças climáticas. A conservação e restauração de ecossistemas naturais favorecem a regulação do regime de chuvas, a fertilidade dos solos, a polinização e a proteção contra a erosão – elementos essenciais tanto para a produtividade agrícola quanto para a segurança alimentar.
Da mesma forma, a proteção de florestas e bacias hidrográficas sustenta a geração de energia hidrelétrica e reduz riscos para cadeias produtivas dependentes de recursos naturais. Ao integrar conservação ambiental e desenvolvimento econômico, as SbNs reforçam a resiliência sistêmica do país, reduzem vulnerabilidades climáticas e criam oportunidades para uma transição sustentável e de baixo carbono.