A história contada em trechos de livros, gravuras, pinturas e cartas não deixa dúvidas: as baleias eram muito abundantes na costa brasileira cerca de cinco séculos atrás. Nas descrições, aparecem grandes grupos desses mamíferos aquáticos acasalando, bem como fêmeas com filhotes, além de interações com outras espécies e até encalhes.
Essa abundância rapidamente se transformou em oportunidade econômica, e as baleias passaram a ser alvo da exploração. Praticamente, todas as partes desses gigantes do mar eram aproveitadas. A carne era consumida por populações litorâneas; o óleo – o produto mais importante extraído desses animais – era usado para iluminação pública e doméstica, bem como combustível; as barbatanas, aproveitadas para conferir estrutura a corseletes e chapéus.
Em 1614, a coroa portuguesa estabeleceu o monopólio da pesca da baleia na colônia e regulamentou a atividade por meio das armações baleeiras, que funcionavam com base em contratos de arrendamento.
A exploração de baleias de forma organizada não só garantiu o pagamento de volumosos impostos à coroa, mas também o declínio de populações desses animais na costa brasileira. Abrolhos e o Recôncavo Baiano figuravam entre as principais áreas de captura de baleias no período colonial – apenas em Abrolhos, estima-se que cerca de 40 animais fossem abatidos anualmente.
Ao longo de toda a costa brasileira, os registros indicam capturas entre 80 e 100 indivíduos por ano – pelo menos, até meados do século 18. Segundo relato do naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853), a captura de baleias atingiu 7 mil toneladas em 1820.
A pintura Pesca da Baleia na Baía de Guanabara, feita em 1785 pelo brasileiro Leandro Joaquim (c.1738-c.1798), não é apenas uma cena pitoresca do período colonial. A obra documenta, com riqueza de detalhes, a organização da atividade baleeira na Baía de Guanabara: embarcações em plena perseguição, armações instaladas na costa, navios ancorados e pequenos barcos revelam a logística da captura e do processamento.
Mais do que um registro artístico, a pintura funciona como evidência histórica da escala e intensidade da exploração das baleias naquele período (figura 1).
A partir do início do século 19, a chegada de embarcações baleeiras vindas da América do Norte e do Reino Unido, equipadas com ferramentas de captura mais eficientes, intensificou ainda mais a exploração desses animais.
Ao longo de séculos, a morte de grande número de fêmeas e filhotes comprometeu a reposição natural das populações. O resultado foi seu declínio acentuado na costa brasileira, que acabou tornando a pesca economicamente inviável e levando, posteriormente, ao fim das armações baleeiras.
As baleias, porém, não foram as únicas vítimas desse ciclo de exploração. Outros grandes vertebrados marinhos também sofreram reduções drásticas em suas populações em decorrência da caça.
Documentos históricos indicam que os peixes-boi eram abundantes ao longo da costa brasileira, com distribuição que se estendia do Amapá ao Espírito Santo. De comportamento dócil e hábitos costeiros, a espécie era facilmente capturada em águas rasas e estuarinas.
Sua carne era consumida localmente e também exportada; a gordura, usada como um tipo de manteiga na cozinha; e o couro, empregado na fabricação de utensílios e vestimentas.
Relatos dos séculos 17 e 18 descrevem capturas recorrentes de peixes-boi – frequentemente, envolvendo vários indivíduos de uma única vez, indício de que eram então abundantes em determinadas regiões.
À semelhança do que ocorreu com as baleias, a exploração contínua exerceu forte pressão sobre essas populações, provocando declínios acentuados e culminando no desaparecimento da espécie em parte de sua área de ocorrência original.