Adolescência: um cérebro em reforma

Físico e divulgador de ciência no canal Ciência Nerd
Universidade Federal de Juiz de Fora

Animações da franquia ‘Divertida Mente’ mostram as dificuldades dos jovens em controlar e equilibrar as próprias emoções, que passam a ficar mais complexas e intensas nessa fase da vida

CRÉDITO: DIVULGAÇÃO

Na primeira animação da franquia Divertida Mente, o cérebro da menina Riley, de 11 anos, é controlado por cinco emoções básicas: alegria, tristeza, raiva, medo e nojo

Você provavelmente já viu um adolescente explodir de raiva ou euforia por um motivo aparentemente pequeno, ou reagindo com total indiferença diante de algo extremamente emocionante ou divertido. É nesses momentos que nos perguntamos: “o que se passa na cabeça dele?”.

A nossa tendência ao ver alguns desses comportamentos é dizer que o jovem é dramático por natureza, ou que age com a deliberada intenção de irritar os outros (especialmente seus pais). Mas isso é um reducionismo bastante injusto.

Para compreender o comportamento do jovem e sua forma de lidar com as emoções, é necessária uma boa dose de neurociência (e de boa vontade). E, como sempre fazemos nesta seção, podemos buscar na cultura pop alguns aprendizados sobre esse tema.

Em 2015, o estúdio de animação Pixar nos apresentou Riley, uma menina de 11 anos cuja mente funciona como uma verdadeira central de controle, com um painel cheio de botões sendo operado por cinco emoções: alegria, raiva, tristeza, nojo e medo.

Mais do que um sucesso gigantesco de bilheteria, o filme Divertida Mente se tornou também um fenômeno cultural. Frases como “hoje meus divertidamente estão bagunçados” passaram a fazer parte do nosso dia a dia. De repente, milhões de pessoas tinham uma ótima metáfora para o próprio cérebro, uma forma de tentar nomear e descrever o que sentiam.

Mas até onde essa metáfora funciona? Será que um desenho infantil como esse pode nos ensinar algo sobre a adolescência, essa fase tão conturbada e complexa da vida?

Por que cinco emoções?

Se você assistiu Divertida Mente, talvez tenha se perguntado por que só existem cinco emoções na mente de Riley. Onde estavam, por exemplo, o ciúme, o orgulho, a inveja, a vergonha, a ansiedade, a culpa? Afinal, qualquer pai sabe que um filho pode muito bem ter ciúmes do irmão, ou pode se sentir envergonhado em público.

A escolha das cinco emoções não foi em vão. O desenvolvimento infantil é complexo e estudado há muito tempo pela ciência. Alegria, tristeza, raiva, medo e nojo fazem parte de um grupo que muitos cientistas chamam de emoções básicas. Segundo eles, essas emoções aparecem desde muito cedo, antes de qualquer socialização mais sofisticada, e são respostas rápidas do nosso corpo, não dependendo de um raciocínio elaborado. O medo, por exemplo, nos afasta do perigo antes mesmo de pensarmos, enquanto a raiva nos faz reagir diante de uma ameaça ou injustiça. A escolha de dar destaque a elas é interessante.

Em Divertida Mente 2, o início da história mostra um grupo de trabalhadores chegando ao cérebro da Riley – agora com 13 anos – com marretas e andaimes, arrancando o painel de controle e instalando outro maior e com vários botões novos que ninguém sabia para que serviam. Com o novo painel, chegam também a ansiedade, a vergonha, o tédio, a inveja e a nostalgia.

Essas cinco novas emoções são mais complexas, porque exigem habilidades que ainda não estão totalmente maduras na infância. Elas existem na criança (e certamente já estavam lá no cérebro de Riley), mas faz sentido o filme dar mais destaque a elas com a chegada da adolescência.

É nessa fase que a sensibilidade ao olhar do outro e a autoavaliação se intensificam, o que amplifica as emoções com componentes sociais, como a vergonha, a inveja e a ansiedade.

A demolição do painel na mente de Riley pode parecer um exagero, mas é um bom simbolismo para a reforma profunda que acontece na adolescência.

Em Divertida Mente 2, cinco emoções mais complexas (ansiedade, vergonha, tédio, inveja e nostalgia) passam a dominar o cérebro e o comportamento de Riley, agora com 13 anos

Em construção

O cérebro não nasce pronto. Ele é construído aos poucos, e cada região tem o seu próprio ritmo. Algumas áreas, como as responsáveis pelos sentidos, ficam prontas ainda na infância, mas outras, não. A região que demora mais tempo para amadurecer é o córtex pré-frontal, localizado logo atrás da testa.

O córtex pré-frontal é o que nos permite planejar, pensar a longo prazo, tomar decisões, controlar impulsos e regular nossas emoções. É ele que nos faz pensar duas vezes antes de mandar aquele áudio no calor de uma briga, ou que nos ajuda a respirar fundo no meio de uma discussão e escolher as palavras certas.

Há também outra região importante no nosso cérebro, que é a amígdala. Essa pequena estrutura em formato de amêndoa age no nosso corpo como uma espécie de alarme de incêndio. É ela quem ‘puxa o gatilho’ e faz o seu corpo inteiro responder a um estímulo do ambiente.

Um barulho alto, um olhar bravo na sua direção, um afastamento dos amigos, uma nota baixa: tudo isso aciona esse alarme em uma fração de segundo, e o corpo inteiro entra em estado de alerta antes mesmo de você pensar.

Na adolescência, porém, esse alarme é extremamente sensível e toca no volume máximo. E o responsável por ‘diminuir o volume’ dele é o córtex pré-frontal, que ainda não está totalmente pronto. Os cientistas batizaram essa desregulação de desequilíbrio frontolímbico, e é por causa dele que as emoções são experimentadas pelos jovens com tanta intensidade.

No primeiro filme da franquia Divertida Mente, quando Riley está no auge da tristeza e da raiva, ela decide pegar um ônibus e fugir sozinha para Minnesota, sem nem pensar nas consequências. No segundo filme, a ansiedade assume o controle total do painel no meio do jogo de hóquei, e Riley entra em pânico. A visão fica embaçada, ela tem falta de ar e não consegue se acalmar, mesmo diante de um acontecimento que nem parece tão grave para nós.

Esse impulso que levou à fuga de Riley e sua dificuldade em regular as próprias emoções resultam de um córtex pré-frontal ainda em desenvolvimento.

Por isso, não é muito justo medir a dor e o comportamento do jovem usando a régua e as medidas do adulto. Você pode achar que é drama, falta de caráter, mas muitas vezes é apenas um cérebro em desequilíbrio por uma questão fisiológica.

Quem são os vilões da história?

Em muitos momentos da vida, podemos ter a impressão de que algumas emoções são indesejáveis e negativas. No primeiro Divertida Mente, a tristeza parece só atrapalhar e sabotar o trabalho das outras emoções, fazendo Riley chorar ou deixando as memórias mais tristes. Com o desenrolar da história, descobrimos que isso não é bem verdade.

Quando a menina fugiu de casa, foi a tristeza que a fez aceitar o sentimento de dor que estava experimentando e voltar para casa, buscando o abraço dos pais.

Quando estamos tristes e nos mostramos vulneráveis, atraímos consolo e empatia das pessoas ao nosso redor. A tristeza também nos ajuda a encarar a realidade, em vez de reprimi-la, fingindo que está tudo bem.

As outras emoções também cumprem seus papéis: o medo e o nojo servem para nos proteger, a raiva é uma reação natural e esperada que nós temos diante de injustiças, e a ansiedade é o que nos prepara para o futuro e nos impulsiona a planejar.

Emoções podem se tornar um problema se vierem de forma desequilibrada ou descontrolada. Nenhuma emoção deveria assumir o controle total do ‘painel’ da sua mente, nem mesmo a alegria. O importante é o equilíbrio entre elas.

Mas, se as emoções não são as vilãs, então quem é? O verdadeiro vilão da mente são as feridas abertas que não se fecham como deveriam.

As violências físicas ou psicológicas, o tratamento humilhante, a rejeição vinda de quem deveria proteger, os abusos, a falta de comida, de carinho e do sentimento de segurança e um ambiente familiar tenso e disfuncional são algumas dessas feridas. As pesquisas científicas as chamam de experiências adversas na infância e elas causam impactos profundos no desenvolvimento emocional e físico.

Um estudo publicado em 1998 ouviu mais de 17 mil adultos e encontrou uma relação direta entre o número de adversidades vividas na infância e a saúde física e mental ao longo de toda a vida. Quanto mais feridas, maior o risco de problemas (que vão da depressão a doenças cardíacas).

Para os jovens, isso é especialmente perigoso, porque o cérebro adolescente possui uma enorme plasticidade. Nesse período, ele é facilmente esculpido pelas experiências que a pessoa vive, sejam elas boas ou ruins. A mesma maleabilidade cerebral que permite a uma criança aprender um idioma novo mais facilmente faz com que as experiências ruins tenham maior potencial de deixar marcas profundas.

Por isso, os jovens nessa fase precisam de compreensão, de escuta e, acima de tudo, de ajuda para atravessar essa etapa do desenvolvimento do cérebro. Dizer que são apenas dramáticos, malcriados, cínicos e que agem intencionalmente para irritar os adultos é uma enorme ignorância e alimenta ainda mais esses comportamentos indesejados. O papel do adulto é usar sua experiência para ouvir e ajudar. Do resto, o próprio cérebro cuida no seu tempo.

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