O experimento com bonecas que enfrentou o racismo

Laboratório de Biologia de Anaeróbios
Instituto de Microbiologia Paulo de Góes
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Pesquisa de um casal de psicólogos negros ajudou a embasar a decisão histórica que proibiu a segregação racial nas escolas públicas dos Estados Unidos

CRÉDITO: ILUSTRAÇÃO FEITA POR IA FIREFLY A PARTIR DE FOTO DE GORDON PARKS

Uma ação na Suprema Corte dos Estados Unidos tomou o centro das atenções em todo país em 1954. Esse julgamento ficou conhecido como Brown vs Board of Education (Brown contra o Conselho de Educação). O autor da ação era Oliver Brown (1918 – 1961), um pastor protestante que representava um grupo de pais apoiados pela Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP, na sigla em inglês) contra o Conselho de Educação da cidade de Topeka, no Kansas. A questão era a segregação racial nas escolas do país.

Na década de 1950, vários estados dos EUA ainda mantinham escolas segregadas, ou seja, instituições de ensino separadas para crianças negras e brancas. Os estudantes negros eram obrigados a frequentar escolas públicas destinadas exclusivamente à população negra, muitas vezes distantes de suas residências, mesmo quando havia escolas mais próximas, reservadas às crianças brancas. Além disso, as escolas para alunos negros recebiam menos recursos dos governos estaduais, o que se refletia na precariedade da infraestrutura e nos salários mais baixos dos professores. Era comum, ainda, que os livros didáticos destinados a essas instituições fossem usados, descartados pelas escolas com alunos brancos. Além disso, os equipamentos científicos eram obsoletos e as bibliotecas inadequadas.

A manutenção das escolas segregadas tinha respaldo em uma decisão de 1896 da Suprema Corte dos Estados Unidos, no caso Plessy vs. Ferguson. O julgamento legitimou a segregação racial sob o argumento de que a separação física entre pessoas negras e brancas não implicava, por si só, uma condição de inferioridade para a população negra. A decisão consolidou a doutrina dos “separados, mas iguais” (separate but equal), que serviu de fundamento jurídico para diversas leis de segregação racial nos Estados Unidos.

Ativistas dos direitos da população negra, capitaneados pela NAACP, buscavam mudar esse cenário, e foi nesse contexto que o julgamento de Brown contra o Conselho de Educação entrou para a história como uma das ações mais importantes contra a segregação racial no país. Os advogados da NAACP envolvidos no caso precisavam demonstrar à Suprema Corte que a segregação era prejudicial para as crianças, mesmo que as autoridades estaduais alegassem que as instalações escolares e a qualidade do ensino eram equivalentes em todos os colégios. Para sustentar seus argumentos, a NAACP tinha um trunfo: as pesquisas realizadas pela doutora Mamie Clark e seu marido, o doutor Kenneth Clark, na década de 1930. O casal de psicólogos negros publicou trabalhos seminais que foram peças fundamentais na decisão da Suprema Corte de declarar inconstitucional a segregação escolar.

Segregação na pele

Mamie Clark (1917-1983) foi uma psicóloga e ativista nascida em Hot Springs, no estado do Arkansas. Essa cidade era considerada relativamente progressista para a época. Seu pai era um médico respeitado, e sua família tinha renda compatível com a classe média local. Apesar disso, Mamie cresceu sofrendo racismo e teve que frequentar uma escola segregada. Aos 16 anos se matriculou na Universidade de Howard, uma instituição de renome, historicamente voltada à educação de pessoas negras, onde começou a estudar matemática e física, com o desejo de ensinar crianças. Depois de alguns semestres, influenciada pelo seu interesse em desenvolvimento infantil, ela decidiu mudar sua graduação para psicologia. Além disso, conheceu seu futuro marido, Kenneth Clark (1914-2005), já formado em psicologia e ocupando o posto de professor assistente na instituição, o que pode ter influenciado na sua decisão.

Depois da graduação, Mamie ingressou no programa de mestrado na Universidade de Howard, e começou a refletir sobre a questão da “autoidentificação” em crianças em idade pré-escolar. Ela buscava um tema para sua dissertação de mestrado que conciliasse seu interesse pelas crianças com suas perspectivas sobre racismo e segregação. Foi nesse momento que ela e seu marido decidiram estudar os efeitos da segregação no desenvolvimento infantil. Ela defendeu uma tese intitulada “O desenvolvimento da consciência de si em crianças negras na pré-escola”.

Em seus estudos de mestrado, eles realizaram experimentos pioneiros que entraram para a história. O mais famoso desses estudos foi o “experimento das bonecas negras”. Os pesquisadores recrutaram crianças negras, com idades entre 3 e 7 anos, e as deixaram brincar com quatro bonecas muito parecidas em todas as características físicas, exceto pela cor da pele e do cabelo. Duas bonecas eram brancas com cabelos loiros, enquanto as outras duas tinham pele e cabelos pretos. O estudo envolveu 253 crianças, algumas das quais frequentavam escolas segregadas no Arkansas. Depois do tempo de brincadeira, os psicólogos questionaram as crianças sobre as bonecas com diversas perguntas para avaliar a percepção delas sobre as bonecas. Eles perguntaram, por exemplo, “com qual boneca você prefere brincar?” ou “qual boneca é mais bonita e a mais feia?” e, uma pergunta que marcou muito os pesquisadores, “com qual boneca você se parece?”.

Danos à autoestima

Os resultados foram perturbadores. A maioria das crianças preferiram as bonecas brancas, as quais atribuíram qualidades positivas, enquanto associaram qualidades negativas às bonecas negras. Ainda mais preocupante foi o fato que muitas crianças ficaram perturbadas ao se perceberem mais parecidas com as bonecas negras – algumas saíam da sala e se recusaram a responder a essa pergunta. As respostas sugeriram que algumas crianças já haviam internalizado estereótipos raciais negativos desde muito cedo, mesmo antes de serem expostas ao racismo estrutural predominante naquela sociedade. O experimento ajudou a demonstrar que a segregação racial nas escolas não produzia apenas desigualdades materiais, mas também podia causar danos psicológicos às crianças negras, afetando sua autoestima e a percepção de sua própria identidade racial.

Em 1954, o experimento dos Clark foi submetido à Suprema Corte como parte das evidências no caso Brown vs Board of Education. O impacto na opinião pública foi gigantesco, e os testes com bonecas tornaram-se um símbolo da luta contra a segregação em escolas. Muitos analistas acreditam que os resultados foram determinantes para a vitória no julgamento.

Mamie e Kenneth Clark seguiram suas carreiras na psicologia, eles foram as primeiras pessoas negras aceitas no programa de doutorado da prestigiosa Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Mais tarde seguiram contribuindo para a causa do combate ao racismo, e se tornaram líderes na luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, onde seus nomes são celebrados até os dias de hoje.

Apesar da vitória histórica de 1954, a segregação racial nas escolas norte-americanas está longe de ser uma questão superada. Embora não seja mais permitida por lei, ela persiste na prática, sustentada por desigualdades históricas, econômicas e políticas que continuam a separar estudantes negros e brancos.

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