O Hans Staden de Cândido Portinari

As imagens do cativeiro do alemão Hans Staden entre os tupinambás, publicadas em 1557, ainda perduram na nossa memória do passado colonial. Desde que Monteiro Lobato realizou as primeiras adaptações do relato nos anos 1920, a recepção do livro progrediu em uma sucessão de traduções e recriações, inclusive para a música e o cinema. É surpreendente achar na história desta tradição uma notável interrupção: os desenhos feitos pelo artista Cândido Portinari a partir da edição original de Staden. 

A carta do editor dizia que os desenhos seriam privados de “simplicidade” ou “realismo” e, portanto, “ininteligíveis”

Em 1940, no auge do seu prestígio internacional, Portinari aceitou o convite para ilustrar uma edição norte-americana de Hans Staden. Quando remeteu a encomenda, um ano depois, não tardou a resposta desaforada do editor. Os desenhos, dizia a carta, seriam privados de “simplicidade” ou “realismo” e, portanto, “ininteligíveis”. Em vez de pretenderem ser um autorretrato dos índios, o que lhes conferiria uma “qualidade primitiva”, evidenciam, pela técnica empregada, a estética do próprio artista. 

Portinari responde que, se soubesse desde o início que as “ilustrações deveriam se adequar ao gosto do editor e seus clientes”, teria recusado a proposta, “pois não estou acostumado a fazer nada para agradar o público”. As ilustrações foram devolvidas ao autor por correio expresso.

Portinari responde que, se soubesse desde o início que as “ilustrações deveriam se adequar ao gosto do editor e seus clientes”, teria recusado a proposta, “pois não estou acostumado a fazer nada para agradar o público”

A declaração de Portinari revelou-se fatídica; os desenhos caíram no esquecimento por quase 60 anos. Somente em 1998, em uma publicação apoiada pela Deutsche Bank e o Ministério da Educação, viriam à luz, sob o título ‘Portinari devora Hans Staden’. O livro associa o Portinari de 1941 ao Manifesto Antropofágico de 1928, de modo a enxergar na incorporação e transformação de originais europeus a afirmação de uma criatividade singularmente brasileira.

Essa interpretação, contudo, distorce o contexto e o significado dos desenhos. Não considera o fato de que foram criados em plena Guerra Mundial, que transparece no seu caráter macabro, e na ênfase na devastação colonial. E também ignora que Portinari não satisfez a expectativa do que seria uma ilustração autenticamente brasileira do passado colonial. 

Em vez de questionar a razão alegada pela editora norte-americana, a edição brasileira contenta-se com a sua inversão. Em seu conjunto, os desenhos mantêm a dimensão narrativa da iconografia original, mas deslocam a atenção do cativeiro ou execução para a morte e a decomposição das vítimas. Nesse sentido, a imagem mais emblemática é a que retrata duas figuras imóveis, Hans e o índio. Staden aparece sentado de perfil, ao lado de um guerreiro moribundo, estirado no chão, cujo olhar fixo se dirige ao espectador.

Se as xilogravuras do livro de Staden revelam o confronto entre índios e europeus, os desenhos de Portinari rememoram o efeito devastador do colonialismo sobre as populações indígenas. A representação convencional de índios guerreiros como ancestrais heroicos minimiza a destruição do passado colonial, permitindo a sua inclusão no âmbito da história nacional. O que os desenhos de Portinari tornam visível e memorável não é a resistência, nem a assimilação à colonização, mas algo irreconciliável: a morte dos antigos tupinambás. Talvez seja essa uma razão para a conturbada fortuna dos desenhos.

 

Luciana Villas Bôas
Faculdade de Letras
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Instituto Peter Szondi da Freie Universität, Berlim (Alemanha)

Texto originalmente publicado no sobreCultura 17 (outubro de 2014).

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