Por mais visibilidade para cientistas LGBTQIA+ na microbiologia

Jornalista

Cofundador da recém-lançada Pride in Microbiology Network, Bruno Francesco Rodrigues de Oliveira afirma que a comunidade é negligenciada nas áreas de exatas e ciências da natureza e espera que a nova rede ofereça apoio para essas pessoas enfrentarem os desafios cotidianos na academia

CRÉDITO: FOTO CEDIDA PELO ENTREVISTADO

Quando entrou na universidade, aos 16 anos, Bruno Francesco Rodrigues de Oliveira descobriu o quão diverso pode ser o mundo. Hoje, quase 15 anos depois, o microbiologista e professor adjunto de bacteriologia do Departamento de Microbiologia e Parasitologia do Instituto Biomédico da Universidade Federal Fluminense (UFF) luta para que aquela diversidade que o encantou quando calouro seja reconhecida e respeitada no meio acadêmico. “A academia é um espaço muito branco, hétero, cis. Não se ver representado leva os cientistas LGBTQIA+ a terem que se ‘formatar’ ao que existe ali, e isso afeta muito seu desempenho no trabalho e a qualidade da sua pesquisa. Os cientistas deixam de ser eles em sua plenitude. Não é natural tentar ser o que não se é”, diz.

Envolvido desde 2020 na luta pela equidade de gênero e sexualidade na Microbiology Society, a sociedade acadêmica de microbiologia do Reino Unido e da Irlanda, Oliveira viu surgir a oportunidade de amplificar a voz dessa comunidade no ano passado, quando foi convidado por dois colegas, docentes e pesquisadores no Canadá, a escrever um artigo para a revista Nature Microbiology que resultou no lançamento, em junho de 2023, da plataforma Pride in Microbiology Network. A repercussão foi enorme. Agora, a partir do engajamento dos microbiologistas, a ideia é obter dados estatísticos sobre a representação LGBTQIA+ e divulgar os trabalhos desses cientistas em todas as áreas da microbiologia.  

CIÊNCIA HOJE: Como e por que nasceu a Pride in Microbiology Network?

BRUNO FRANCESCO DE OLIVEIRA:

Junto a outros microbiologistas, eu já vinha desenvolvendo, desde 2020, algumas iniciativas voltadas à comunidade de cientistas LGBTQ+ na Microbiology Society, a sociedade acadêmica de microbiologia do Reino Unido e da Irlanda, da qual sou society champion, uma espécie de embaixador, na América do Sul. Essa sociedade já se mobilizava ativamente nesse sentido desde a década passada. No ano passado, dois pesquisadores canadenses, Landon J. Getz e Edel Pérez-López, contataram a mim e a outros membros da Microbiology Society. Eles haviam assistido a um evento on-line que eu e esses outros membros da Society havíamos organizado no LGBTQIA+ STEM Day, o Queer microbiology: a conversation, em 18 de novembro de 2022 e que teve participação de pessoas de muitos países e um feedback superinteressante.

Por volta da mesma época, a Nature Microbiology publicou um editorial, Amplifying diverse voices in microbiology (Ampliando a diversidade de vozes na microbiologia), discutindo questões de equidade de gênero, diversidade racial e inclusão dentro de todas as áreas da microbiologia, mas o texto não citava a comunidade LGBTQIA+. Getz e Pérez-López questionaram a revista, que prontamente reconheceu esse gap e solicitou sugestões para repará-lo. Os dois se propuseram a escrever sobre os desafios para os microbiologistas LGBTQIA+, tanto na academia quanto na indústria, e chamaram a mim e outros membros da Society para colaborar. O editor encarregado da análise do trabalho na Nature Microbiology nos sugeriu, então, que lançássemos uma rede para a comunidade LGBTQIA+ da microbiologia, seguindo a trilha de iniciativas como 500 Queer Scientists e LGBTQ+ in STEM, para junho, mês do orgulho LGBTQIA+. E foi um alvoroço no dia 2 de junho, quando o artigo We need a Pride in Microbiology Network foi publicado com o link para a plataforma Pride in Microbiology Network. A postagem que fiz no meu perfil no Twitter explicando nosso trabalho para a Nature Microbiology teve mais de 35 mil visualizações, até a última vez que chequei.

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