O oceano como prioridade no G20

Voz dos Oceanos

Como responsável por mais de 50% do oxigênio que respiramos e regulador do clima do planeta, o oceano merece a total atenção dos gestores para buscar sua preservação e recuperação.

CRÉDITO: FOTO ADOBE STOCK

Há 40 anos, vivemos – literalmente – no oceano, tendo experiências incríveis e testemunhando in loco que o verdadeiro pulmão do planeta está sufocando. Mesmo responsável por mais de 50% do oxigênio que respiramos e por regular o clima da Terra – além de ser a principal via de transporte do comércio global, entre outras funções de relevância – o oceano ainda é tema secundário entre as pautas de gestores públicos e privados. Em plena Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável, o oceano precisa ser reconhecido e tratado como prioridade pelos governos do mundo.

Em novembro deste ano, quando a Cúpula de Líderes do G20 se reúne no Rio de Janeiro, esperamos que, além de sediar o encontro, o Brasil traga o oceano para o centro das discussões e impulsione as tratativas para sua recuperação e preservação. Nosso país tem credenciais para liderar esse movimento dentro do G20.

A Voz dos Oceanos, por exemplo, é uma iniciativa brasileira que vem ecoando os desafios do nosso Planeta Água, com propostas inspiradoras que podem reverter o atual cenário. Em pouco mais de dois anos, nossa expedição já testemunhou a presença de plástico e microplástico em cerca de 100 destinos de mais de 10 países das Américas do Sul, Central e do Norte e da Oceania – incluindo ilhas polinésias com poucas dezenas de pessoas e até metrópoles com milhões de habitantes. Essa é uma causa que precisa ser acolhida urgentemente pelos governos, que podem encontrar alternativas de solução na própria sociedade.

Por onde passamos, encontramos centenas de pessoas e iniciativas comprometidas em minimizar e reverter os impactos dos resíduos no meio ambiente. No Brasil, o trabalho de catadores de resíduos e cooperativas de reciclagem é exemplar e, em alguns casos, chega a libertar mulheres de situações de violência doméstica – como a Cooperativa Ecovida Palha de Arroz, que conhecemos em Recife e vem mudando a vida de dezenas de mulheres da capital pernambucana.

Ainda assim, essas ações demandam reconhecimento e apoio. Não é à toa que o Projeto de Lei 2524/2022, que propõe a adoção da economia circular do plástico no país, busca incluir as atividades das cooperativas e associações de catadores de materiais reutilizáveis e recicláveis no Programa Federal de Pagamento por Serviços Ambientais.

Para nós que, desde o final dos anos 1990, testemunhamos a crescente invasão de resíduos no oceano, é fácil compreender as estatísticas alarmantes do relatório ‘Da poluição à solução’, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente: até 2040, os mares devem receber entre 23 e 37 milhões de toneladas de resíduos plásticos por ano. Nossos líderes devem investir em pesquisas científicas para entender e minimizar o impacto do sufocamento do oceano na saúde da população e do ambiente.

Até 2040, os mares devem receber entre 23 e 37 milhões de toneladas de resíduos plásticos por ano

A comunidade científica precisa de apoio para manter e avançar em estudos importantes. Temos orgulho de ter, entre os nossos parceiros, a Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano, sediada no Instituto Oceanográfico e no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP). Juntos – e com o apoio da iniciativa privada – iniciaremos um grande estudo para o diagnóstico de microplásticos em organismos marinhos na costa brasileira, que impactam a segurança alimentar da população. Paralelamente, seguiremos destacando pesquisas científicas nacionais e internacionais nos nossos canais e nos de parceiros da Voz dos Oceanos.

São diversos os trabalhos exemplares que conhecemos e divulgamos. É o caso da pesquisadora Maiara Menezes, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que lidera um estudo sobre o grau de contaminação por microplásticos de peixes vendidos no mercado de Natal. Outro trabalho relevante é o da bióloga marinha Karina Massei, uma das líderes do Programa Estratégico de Estruturas Artificiais Marinhas da Paraíba (PREAMAR-PB), voltado para a gestão sustentável da zona costeira da região.

Quando a Cúpula de Líderes do G20 estiver reunida no Rio de Janeiro, nossa Voz dos Oceanos estará na segunda etapa da expedição, navegando com o veleiro Kat pelos oceanos Pacífico, Índico e Atlântico, enquanto um segundo veleiro voltará a percorrer a costa brasileira.

Continuamos focados na invasão de resíduos plásticos, observando seus efeitos na perda da biodiversidade e danos à saúde humana, mas atentos também às consequências da crise climática. Esperamos que as lideranças do poder embarquem conosco nessa missão e impulsionem a grande onda capaz de salvar o nosso oceano!

*A coluna Cultura Oceânica é uma parceria do Instituto Ciência Hoje com a Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano da Universidade de São Paulo e com o Projeto Ressoa Oceano, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico

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