O ‘germinar’ de uma pesquisadora

Departamento de Biologia
Universidade Federal de Lavras

Apaixonada por biologia desde a infância, Elisa Monteze Bicalho experimentou áreas de pesquisa que inicialmente não planejava e, assim, encontrou sua vocação para trabalhar com sementes

CRÉDITO: FOTO CEDIDA PELA AUTORA

Eu era uma garotinha observadora e sempre gostei de brincar na roça dos meus avós. Passava férias inteiras no meio do mato. Apesar disso, eu tinha medo de bichos (cachorros, cavalos, animais peçonhentos…) e confesso que ainda mantenho esse respeito e distância deles. Mas sempre fui curiosa em pensar como as coisas funcionam. Poderia ter seguido outras carreiras nas quais essa curiosidade também fosse útil. Entretanto, meus professores de ciências e biologia, principalmente, do ensino fundamental e médio, aos quais agradeço imensamente a dedicação, me mostraram um universo no qual eu conseguia viajar por horas pensando em como as coisas funcionam. Origem da vida, evolução, biologia celular, fisiologia humana, ecologia… Foram muitas aulas nas quais eu me permitia viajar dentro e entre os organismos vivos à minha volta. 

A biologia tornou-se então fascinante para mim! Assim ficou decidido: faria Ciências Biológicas! Não passei na primeira tentativa no vestibular, nem na segunda (espero que vocês, leitoras e leitores, saibam o que é o vestibular…). Na minha terceira tentativa, consegui o tão sonhado “passei!” E acreditam que pude até escolher em qual instituição estudar? Escolhi a Universidade Federal de Viçosa. E, como muitos dos estudantes ingressantes, dizia: “quero trabalhar com genética humana ou microbiologia!” 

Não passei na primeira tentativa no vestibular, nem na segunda. Na minha terceira tentativa, consegui o tão sonhado “passei!”

Mas que bom que nós somos traídos o tempo todo por escolhas que fazemos sem conhecimento de causa. Fui parar no laboratório de cultivo de microalgas logo no início do segundo período da graduação. Adorei trabalhar com a mistura de monitoramento ecológico de água e fisiologia de cianobactérias (microrganismos que realizam fotossíntese). Mas um belo dia, eu recebi um convite para trabalhar em um projeto de cultivo in vitro da palmeira macaúba (o nome da espécie é importante, confie) para tentar multiplicá-la assexuadamente com o intuito de produzir biocombustíveis. 

A macaúba foi um divisor de águas para mim porque os estudos com ela me permitiam associar sustentabilidade, avanços científicos e inovação, além do mais interessante, que é a dormência fisiológica (bloqueios internos temporários que impedem a germinação das sementes). E foi aí que eu me apaixonei pelo universo das sementes, e é por ele que eu me sinto motivada a fazer minhas pesquisas até hoje. Comecei com a macaúba, que foi meu objeto de estudos no mestrado e no doutorado. No mestrado eu usei um método de quebra de dormência que já havia sido patenteado pelo meu grupo de pesquisas e verifiquei como, após a germinação, as reservas de lipídios e proteínas são transformadas para fornecer energia ao longo do desenvolvimento inicial das pequenas plantas de macaúba. Alinhei tudo o que eu gostava na época: bioquímica, fisiologia vegetal e anatomia vegetal. Tive alguns percalços na defesa e demorei a conseguir olhar o meu trabalho com os olhos atentos que ele merecia. 

Mestrado, casamento e doutorado

Entre o mestrado e o doutorado meu estado civil foi alterado para ‘casada’. Sim, nessa loucura de defesa de tese, mudança de cidade e processo seletivo do doutorado, eu resolvi que era o melhor momento para trocar alianças. Casei-me com um ser tão biólogo quanto eu, mais apaixonado por plantas que eu, e que eu conheci ainda na iniciação científica (lá naquele laboratório de cultivo de microalgas). E alguns meses depois ingressei no doutorado. Adivinha pesquisando qual espécie! Ela mesma, a macaúba. Eu me aprofundei nos estudos de fisiologia de sementes, fiz uma parte do meu doutorado em Barcelona na Espanha, que foi outro divisor de águas na minha vida. Trabalhei muito lá, aprendi demais, e também aproveitei para conhecer lugares que não sei se teria visitado sem essa oportunidade. Trabalhava de segunda a sexta, em torno de 10 a 12 horas por dia, mas conseguia aproveitar os finais de semana para me encher de cultura europeia. 

Consegui publicar meus trabalhos do doutorado e também do mestrado, que são bem citados até hoje. Finalizei bem o doutorado já com uma aprovação para professora substituta na Universidade Federal de Minas Gerais, meu primeiro emprego de verdade. Foram seis meses muito suaves e interessantes, onde eu consegui me aproximar da graduação e da minha vontade de lecionar. Reafirmei um ladinho professora que habitava em mim. 

Logo depois, fiz pós-doutorado durante uns dois anos, atuando em projetos diferentes. Foi então (e só então) que eu deixei a macaúba de lado para conhecer outras espécies. E reafirmei a minha paixão pela fisiologia de sementes. Publicamos bastante nessa época, meu currículo melhorou muito. E comecei a procurar por concursos públicos. Foi no meu segundo concurso para professor efetivo que fui aprovada na UFLA (Federal de Lavras), na qual estou há quase seis anos. Aqui eu oriento trabalhos na graduação e pós-graduação, coordeno um laboratório (de fisiologia de sementes), ministro aulas para graduação e pós-graduação e já me aventurei na coordenação de um curso de graduação.

Realização pessoal

Eu tenho muita certeza de que deveria estar onde estou, fazendo o que gosto. Eu acredito que a minha plena realização pessoal aconteceu porque eu me permiti experimentar áreas que nem cogitava. E também tive a sorte, penso, de sempre ter sido incentivada pela minha família (lá atrás na época do vestibular), que não desacreditou que a biologia poderia me levar onde meus pés quisessem chegar, pelo meu marido, que vibra com cada conquista minha, e por muitos amigos, mestres, orientadores.

Eu acredito que a minha plena realização pessoal aconteceu porque eu me permiti experimentar áreas que nem cogitava

Segui colhendo exemplos de mulheres na academia que eu tanto admiro e que sempre me colocaram para frente. De certa forma, eu consegui me blindar contra comentários negativistas e capacitistas, que nunca me impediram de alcançar o lugar que ocupo hoje, e me agarrei à minha própria vontade de chegar até aqui.

Eu consegui me blindar contra comentários negativistas e capacitistas, que nunca me impediram de alcançar o lugar que ocupo hoje, e me agarrei à minha própria vontade de chegar até aqui

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